Projeto de pesquisa, IFRS
Ética e autenticidade em Charles Taylor - Fase V
Descrição
Taylor parte das ideias de Allan Bloom para criticar severamente a ideia de juventude cultivada nos dias atuais. O traço principal desta visão da vida é a aceitação de um relativismo acomodatício. Todos têm seus próprios valores e é impossível argumentar sobre os mesmos. Não se trata de uma posição epistemológica, de uma visão sobre os limites do que a razão pode garantir. Trata-se de uma moral em que qualquer valor deve ser aceito sem discussão. Tais valores são objeto de decisões pessoais e, como tais têm que ser respeitados, sem que se pergunte por uma norma geral, válida para todos. Em outras palavras, para Taylor, todos têm o direito de desenvolver sua própria forma de vida, fundada num sentidopróprio do que tem importância ou tem valor. Pede-se às pessoas que sejam fiéis a si mesmas e busquem sua auto realização. Em que isto consiste cabe, em última instância, a cada um determinar. Nenhuma pessoa pode ditar seu conteúdo. Esta é hoje uma postura bastante conhecida. Reflete o que se poderia chamar de individualismo da auto realização, tão difundido em nossa época, e que se fortaleceu especialmente nas sociedades ocidentais desde os anos 60. Este individualismo centra-se no eu e numa inconsciência das grandes questões ou inquietudes que transcendem o eu, sejam elas religiosas, políticas ou históricas. Como consequência a vida se limita e, ao final, perde o sentido. Taylor afirma estar de acordo com muitas críticas que autores como Daniel Bell, Christopher Lasch e Gilles Lipovetsky fazem da cultura contemporânea, pois acredita que o relativismo hoje em dia amplamente adotado constitui um profundo erro e em certos aspectos até se auto anula. A cultura da auto realização tem levado muitas pessoas a perder de vista aquelas preocupações que as transcendem. Muitos têm adotado formas de vida trivializadas e autoindulgentes. Isto pode resultar numa espécie de absurdo, na medida em que aquelas pessoas que se esforçam para ser elas mesmas tendem a se conformar com as ideias dominantes. Além disso, geram-se novas formas de dependência, na medida em que as pessoas inseguras de sua identidade se voltam para toda a sorte de tipos de autoajuda e de gurus que se mascaram pelo prestígio da ciência ou por uma espiritualidade exótica. Taylor percebe, porém, em Bloom um desprezo pela cultura que está descrevendo. Não parece reconhecer que existe um poderoso ideal moral em ação, por mais confusa que possa ser sua expressão. O ideal moral que sustenta a auto realização é o ideal de ser fiel a si mesmo, em uma compreensão especificamente moderna do termo. Taylor toma de Lionel Trilling o termo autenticidade para definir o ideal contemporâneo. 2 O ideal moral O que se entende por ideal moral? Trata-se de um modo de vida melhor ou superior, em que melhor e superior se definem não em função do que se deseja ou se necessita, mas do que se oferece como norma do que se deve desejar. A força de termos como narcisismo ou hedonismo está no fato de que no núcleo deles não atua nenhum ideal moral, fazendo-os operar só na superfície ou na autoindulgência. Tal como disse Bloom: Há uma certa retórica de auto realização que dá um ar de encanto a esta vida, mas não há nada de especialmente nobre. A luta pela sobrevivência substituiu o heroísmo como qualidade digna de admiração. Não há dúvidas de que narcisismo e hedonismo são descrições válidas para algumas pessoas, até para muitas, mas constitui um grande erro pensar que expressam tudo o que está havendo na atual mudança da cultura. É fundamental compreender esse ideal se se quer explicar inclusive por que é utilizado como desculpa por parte dos autoindulgentes. Neste caso, é importante compreender a força moral que respalda noções como a da auto realização. Enquanto se explicar isto simplesmente como uma espécie de egoísmo, ou uma autoindulgência com respeito a uma época anterior, mais dura e exigente, perde-se o rumo. Falar de permissividade é errar o alvo. Segundo Taylor , lassitude moral existe e esta época não é singular nisto. O que se necessita explicar é o que de peculiar existe hoje. Não se trata apenas das pessoas que sacrificam suas relações sentimentais e o cuidado dos filhos para dedicar-se a uma carreira profissional. O importante da questão está em que muitas pessoas se sentem chamadas a trabalhar deste modo, em crer que devem atuar assim e têm a impressão de que desperdiçariam suas vidas não agindo dessa forma. Nosso autor afirma que o que se perde nesta crítica é a força moral do ideal da autenticidade. Esta permanece, de algum modo, implicitamente desacreditada, junto com suas formas contemporâneas. Que a adesão à autenticidade tome a forma de relativismo fácil, significa que a vigorosa defesa de qualquer ideal moral fica de algum modo fora de consideração. Suas implicações, tal como foram descritas anteriormente, indicam que algumas formas de vida são superiores a outras, e a cultura da tolerância frente à auto realização individual se retrai ante tais pretensões. Isto significa que há algo contraditório e contraproducente em sua postura, já que o relativismo mesmo se vê impulsionado, ao menos parcialmente, por um ideal moral. De modo coerente ou não, esta é a postura habitualmente adotada. O ideal se apresenta como axioma, algo que não se põe em discussão, porém que tampouco se explica. Taylor destaca que, ao adotar o ideal, as pessoas da cultura da autenticidade prestam apoio a um tipo de liberalismo que tem sido abraçado por muitos outros. Trata-se do liberalismo da neutralidade. Um de seus princípios básicos é que uma sociedade liberal deve ser neutra em questões que dizem respeito ao que constitui o bem viver. O bem viver é aquilo que cada indivíduo busca à sua maneira; um governo faltaria à imparcialidade, e portanto ao respeito equitativo aos cidadãos, se tomasse partido nesta questão. Mesmo que muitos autores desta escola sejam apaixonados oponentes do relativismo brando (Dworkin e Kymlicka entre eles), o resultado de sua teoria consiste em relegar as discussões sobre o bem viver para a margem do discurso político. C omo resultado se tem a incapacidade de articular um dos ideais constitutivos da cultura moderna. Seus adversários o depreciam e seus partidários não podem falar dele. O debate em seu conjunto permanece na sombra. Isto tem consequências prejudiciais. Mas existem outros fatores que contribuem para intensificar este silêncio. Um deles é a influência que tem o subjetivismo moral em nossa cultura. Por ele se compreende a visão segundo a qual as posturas morais não se fundam na razão nem na natureza das coisas, mas que em última instância são adotadas por cada um porque ele assim o quer. Segundo este ponto de vista, a razão não pode mediar disputas morais. Naturalmente alguém pode apontar certas consequências de uma determinada posição nas quais o outro não tenha pensado. Porém, se o interlocutor se mantém na postura inicial, nada mais pode ser dito para contradizê-lo. Os fundamentos desta visão são complexos e vão bastante além das razões morais de um relativismo brando, mesmo que o subjetivismo proporcione um claro respaldo a este relativismo. Evidentemente, muitas pessoas imersas na cultura contemporânea da autenticidade se sentem felizes adotando esta compreensão do papel, ou ausência de papel, da razão. O mais surpreendente é que assim se sentem também muitos de seus oponentes, que se veem levados ao desespero. Se os jovens não se preocupam realmente com as causas que transcendem o eu, o que se lhes pode dizer então? Naturalmente, há críticos que sustentam que existem critérios morais da razão. Pensam que existe algo como a natureza humana e que a compreensão da mesma mostrará que certas formas de vida são corretas e outras errôneas, que umas são superiores e melhores que outras. As raízes desta postura se encontram em Aristóteles. Por contraposição, os subjetivistas modernos tendem a ser muito críticos com Aristóteles, e dizem que sua biologia metafísica está hoje em descrédito. Os filósofos que pensam deste modo, porém, têm sido contrários ao ideal da autenticidade; consideram-no um desvio errôneo do modelo fundamentado na natureza humana. Estas éticas aristotélicas não têm razão para articular um ideal da autenticidade; e os subjetivistas não o fazem exatamente por serem subjetivistas. Um terceiro fator que tem obscurecido a importância da autenticidade como ideal moral tem sido a forma normal de explicação das ciências sociais. Estas se têm abstido de invocar ideais morais e têm assim aberto mão de fatores essenciais em sua explicação. Deste modo os traços da modernidade aqui enfocados: o individualismo e a expansão da razão instrumental têm sido tratados como subprodutos das mudanças sociais ou como efeitos indiretos da industrialização ou da maior mobilidade, ou da urbanização. As relações causais são fundamentais, para explicar as atuais mudanças de cultura e de perspectiva, mas alguns autores tendem a omitir o poder intrínseco dos ideais morais. 3 Autenticidade e mudanças sociais Naturalmente é necessário explicar as mudanças sociais que, supostamente, engendram essa nova perspectiva e isto faz com que se recorra às motivações humanas, a menos que se suponha que a industrialização, ou o crescimento das cidades, ocorreram num momento de distração. Para Taylor, necessita-se de alguma noção que explique o que era que movia as pessoas a atuarem firmemente, seguindo um rumo regular, um rumo que, por exemplo, apontava para uma aplicação cada vez maior da tecnologia à produção, ou a maiores concentrações de população. O que geralmente se invoca, porém, são motivações que não são de ordem moral. Motivações que podem impulsionar as pessoas, sem conexão com ideal moral algum, tal como definido anteriormente. Frequentemente essas mudanças sociais são explicadas em função do desejo de maior riqueza ou de poder, ou de meios de sobrevivência ou de controle sobre os outros. Hoje, para que uma explicação seja considerada sólida e científica deve omitir os ideais morais, mesmo que todas as coisas sejam tramadas a partir deles. No dizer de Taylor, mesmo quando a liberdade individual e o desenvolvimento da razão instrumental se tomam como ideias cujo atrativo intrínseco pode ajudar a explicar sua aceitação, este atrativo é visto com frequência em termos não morais. Ou seja, o poder destas ideias se entende não em termos de força moral, mas em função das vantagens que parece oferecer às pessoas, independente de sua visão moral, ou da ausência de qualquer visão moral. A liberdade permite fazer o que se quer e a maior aplicação da razão instrumental oferece mais do que se deseja, seja o que for. O resultado disto consiste em tornar mais densa a escuridão que cerca o ideal moral da autenticidade. Os críticos da cultura contemporânea o menosprezam como ideal, e o confundem com um desejo não moral de fazer o que se quer sem interferências. Os defensores desta cultura se veem incapacitados de articular a questão por sua própria perspectiva. A força geral do subjetivismo no mundo filosófico atual e o poder do liberalismo neutral intensificam a sensação de que não se pode nem se deve falar destes temas. E, além disso, as ciências sociais parecem estar dizendo que, para compreender tais fenômenos como a cultura contemporânea da autenticidade, não se deve recorrer a coisas tais como ideais morais, mas que se dever considerar tudo isto em termos de mudanças recentes no modo de produção, de novos padrões de consumo juvenil, ou da segurança e da opulência. Muitas das coisas que os críticos da cultura contemporânea atacam são formas degradadas e pervertidas deste ideal. Isto é, procedem dele, e aqueles que as põem em prática apelam a ele, mas de fato não representam uma autêntica realização do ideal em si mesmo. O relativismo brando é pertinente neste caso. Bloom adverte que ele tem uma base moral: a relatividade da verdade não é uma intuição teórica, mas um postulado moral, a condição de uma sociedade livre, como creem os jovens estudantes. Mas a relatividade da verdade engana e trai esta intuição moral. Algo similar se pode observar nas apelações à autenticidade que servem de justificação para omitir tudo o que transcende o eu: a rejeição do passado considerado irrelevante; a negação das exigências da cidadania, ou dos deveres da solidariedade, ou das necessidades do meio ambiente natural. De forma parecida, justificar em nome da autenticidade a auto realização individual é uma parodia que se anula a si mesma. A afirmação do poder de escolha como um bem que será maximizado constitui um produto pervertido do ideal. O que Taylor quer sugerir é uma posição distinta tanto dos defensores quanto dos críticos da cultura contemporânea. Ao contrário dos defensores, ele não acredita que tudo seja como deveria ser nesta cultura. Nisto está de acordo com os críticos. Porém, ao contrário destes, crê que a autenticidade deve ser tomada seriamente como ideal moral. Diverge também de diversas posições intermediárias, que sustentam que há algumas coisas boas nesta cultura, como uma maior liberdade para o indivíduo, porém que essas são conseguidas ao custo de alguns perigos, como o enfraquecimento do sentido de cidadania, de modo que a melhor política de cada um consiste em encontrar o ponto ideal de negociação entre vantagens e custos. Taylor oferece uma descrição de um ideal que se degradou, porém que em si mesmo vale a pena e resulta, de fato, impossível de ser repudiado pelos modernos. O que se necessita não é uma condenação desde a raiz nem um louvor desprovido de qualquer crítica, nem tampouco um intercâmbio cuidadosamente equilibrado. O que faz falta é um trabalho de recuperação, que ajude a restaurar a prática. Para conseguir isto Taylor destaca que precisa acreditar em três coisas, todas elas controvertidas: 1. que a autenticidade é um ideal válido; 2. que se pode argumentar razoavelmente sobre os ideais e sobre a conformidade da prática com estes ideais; 3. que estas argumentações engendram uma diferença.
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