Projeto de pesquisa, IFAL
MARCAS DE AUTORIA NO USO DO CHATGPT COMO “INTERLOCUTOR”: COMO OS ALUNOS DIALOGAM COM A MÁQUINA E VÃO SE CONSTITUINDO PERFORMATICAMENTE NESSE ESPAÇO DE INTERAÇÃO DISCURSIVA?
Descrição
Esta pesquisa investiga como estudantes constroem marcas de autoria ao interagirem com o ChatGPT, compreendido não apenas como ferramenta tecnológica, mas como um “interlocutor” inserido em práticas contemporâneas de produção discursiva. Parte-se da compreensão de que a autoria não se reduz à origem individual do texto, mas se constitui como um efeito discursivo produzido na relação entre vozes sociais, linguagens e contextos de enunciação. A fundamentação teórica articula contribuições da Análise Dialógica do Discurso e da Linguística Aplicada com diferentes perspectivas sobre linguagem, sujeito e produção de sentido. A partir de Mikhail Bakhtin (2011, 2016), Volóchinov (2017), entende-se que todo enunciado é atravessado por outras vozes e que a autoria emerge da responsividade do sujeito no diálogo social. Em diálogo com essa perspectiva, Sírio Possenti (1993, 2001) contribui com a noção de autoria como efeito de trabalho linguístico, marcado por deslocamentos, retomadas e gestos de singularização na linguagem. Ainda no campo bakhtiniano, mobiliza-se a noção de cronotopo para compreender como tempo e espaço das interações digitais com o ChatGPT configuram condições específicas de produção de sentido, nas quais o sujeito reconfigura continuamente sua posição enunciativa. Nesse ambiente híbrido, a escrita ocorre em fluxos temporais acelerados e em espaços discursivos mediados por inteligência artificial, produzindo novas formas de organização da experiência linguística. A pesquisa também dialoga com Judith Butler (1990, 2004), especialmente suas discussões sobre performatividade, para compreender a constituição do sujeito como efeito reiterado de práticas discursivas. Nesse sentido, os estudantes não apenas utilizam o ChatGPT, mas performam posições autorais ao selecionar comandos, aceitar, rejeitar ou transformar respostas, constituindo-se no próprio ato interacional. Complementarmente, mobiliza-se Jacqueline Authier-Revuz (1990, 1998) com as noções de heterogeneidade mostrada e constitutiva. A heterogeneidade mostrada refere-se às marcas explícitas de outras vozes no discurso, enquanto a constitutiva diz respeito à presença inevitável do outro na própria estrutura da linguagem. Metodologicamente, a pesquisa é de natureza qualitativa (ANDRÉ, 2004) e se insere no campo da etnografia (BOGDAN; BIKLEN 1997), buscando compreender práticas reais de uso do ChatGPT em contextos educacionais. Serão analisadas interações entre estudantes e a ferramenta, incluindo registros de prompts, respostas geradas, versões sucessivas de textos produzidos e observações do processo de escrita em situação. Por fim, Espera-se a elaboração de uma cartilha, enquanto uma tecnologia educacional de mediação do uso crítico, ético e autoral da inteligência artificial generativa, ao passo em as discussões apresentadas possam contribuir para a compreensão dos processos contemporâneos de autoria em ambientes digitais, evidenciando como a interação com inteligências artificiais reconfigura práticas de linguagem, modos de subjetivação e relações de sentido. Ao problematizar a ideia de autoria como propriedade individual, o estudo evidencia sua dimensão relacional, dialógica e performativa, marcada pela presença constitutiva do outro e pelas condições sociotécnicas do discurso.
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