Projeto de pesquisa, UERN
Impactos das Mudanças Climáticas em diferentes paisagens do Rio Grande do Norte: Novas evidências e vulnerabilidades locais.
Descrição
O Nordeste do Brasil se constitui como uma região bastante heterogênea no tocante às condições ambientais e socioeconômicas. Segundo Sá et al. (2004), a Geografia convencional trabalha com a divisão do Nordeste brasileiro em três zonas fisiográficas: litorânea, agreste e sertão, salientando que as zonas Agrestina e do Sertão formam a região Semiárida. Paiva e Campos (1995) destacam que as condições de semiaridez do Nordeste do Brasil se intensificaram a partir do Pleistoceno e foram agravadas pela ocorrência de periódicas secas registradas na região. Sá et al. (2004) trabalham com uma divisão para a região semiárida ou domínio da Caatinga baseada na interação entre vegetação e solo, propondo a divisão nas seguintes zonas: domínio da vegetação hiperxerófila (34,3%); domínio da vegetação hipoxerófila (43,20%), ilhas úmidas (9%); e, por fim, agreste e área de transição (13,40%). Percebe-se, assim, que o Nordeste brasileiro se apresenta bastante heterogêneo quanto às características de seus elementos naturais. O contexto do Semiárido nordestino é marcado tipicamente por uma superfície pediplanada, com predomínio das formas suaves onduladas que caracterizam a Depressão Sertaneja. Florenzano (2008) define a unidade como os terrenos situados abaixo da cota altimétrica das áreas do entorno, podendo ter diferentes origens e formas. A Depressão Sertaneja para Lins (1989) deve ser vista como um testemunho dos aplainamentos modernos ocorridos durante o Terciário e Quaternário, através dos ciclos intensos de erosão que atingiram grande parte do sertão nordestino. Comporta-se como um pedimento, partindo da base dos Planaltos Residuais ou mesmo Maciços dissecados em direção ao fundo dos principais vales. Quanto aos Planaltos, de acordo com o Manual Técnico de Geomorfologia/IBGE (2009), são unidades geomorfológicas definidas como conjunto de relevos planos ou dissecados, de altitudes elevadas, limitados por superfícies mais baixas. Na visão de Ross (2008), os Planaltos caracterizam a maior parte do território brasileiro, considerados como vestígios de antigas formações erodidas. São chamados de relevos residuais, como a ideia do que resultou do relevo atacado pela erosão. Os Planaltos Residuais são entendidos como áreas de relevo montanhoso, apresentando-se na forma de blocos isolados, separados entre si, em meio à Depressão Sertaneja. Nesta perspectiva destaca-se no espaço nordestino, a ocorrência do Planalto da Borborema, formado por maciços e outeiros altos, com altitudes variando de 650 a 1000 metros. Sua localização na região se estende do estado de Alagoas até o Rio Grande do Norte. De acordo com Prates et al. (1981), destacam-se sobre a topografia plana da Depressão Sertaneja, na forma de elevações residuais, constituída pelos Inselbergues ou Maciços Residuais. Os Inselbergues podem ser caracterizados como verdadeiras ilhas de rochas, cujos processos evolutivos estão condicionados ao clima seco, que propicia um tipo específico de erosão, a esfoliação esferoidal. Já os Maciços Residuais são definidos por Guerra e Guerra (1997) como um termo descritivo, utilizado para designar grandes áreas rochosas metamórficas que foram parcialmente erodidas. Sá et al. (2004) afirmam que os maciços mantêm suas altitudes oscilando entre os 300 e 800 metros e ocupam expressivas áreas nos estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Essa terminologia esteve por muito tempo atrelada a modelos denudacionais. Na porção superior das unidades dos Planaltos e Maciços Residuais encontram-se as Chapadas que correspondem à denominação para superfícies, geralmente horizontalizadas, com cotas altimétricas acima dos 600 metros de altitude. Guerra e Guerra (1997) salientam que, no Nordeste do Brasil, essas unidades geomorfológicas recebem a denominação de Chapadas Residuais, tendo em vista serem como testemunhos da antiga cobertura da área. Apresentam-se na forma tabular, o que identifica, do ponto de vista morfológico, a existência de um capeamento sedimentar. Sá et al. (2004) destacam também as Chapadas denominadas Altas, com altitudes superiores a 800 metros, formadas por extensos platôs, de localização restrita aos estados da Bahia e parte de Minas Gerais. Com base no exposto, percebe-se que os aspectos geomorfológicos são bem característicos nesta conjuntura regional, no entanto, partir-se-á do pressuposto de que o clima assume um papel preponderante nesse contexto. Autores como Gomes e Zanela (2023) afirmam que o clima semiárido é a característica da região Nordeste que mais a distingue e determina muitas outras características a ela impetradas (...) e afirmam que (...) em outras palavras, suas características principais e que permeiam todas as relações ambientais e sociais nessa área são climáticas: é uma região quente e seca. Tal sentença justifica-se pela ocorrência da região Semiárida que corresponde à área no interior do Nordeste do Brasil e norte de Minas Gerais (correspondente a aproximadamente 13% do território nacional) que tem suas características naturais fortemente atreladas à baixa pluviosidade – comumente menor ou igual a 800 mm anuais - e à ocorrência de secas. É uma região, portanto, interiorana – embora alcance o litoral em seu limite setentrional - e de baixas latitudes, fator este último que também a diferencia de outras regiões semiáridas do mundo, que costumam ocorrer em latitudes próximas aos trópicos. O regime chuvoso é concentrado em um período de três a cinco meses, tem elevadas médias anuais de temperatura (27 °C) e evapotranspiração potencial (2.000 mm/ano), apresentando balanço hídrico negativo em grande parte do ano (LIMA et al., 2011). Importante salientar que os critérios técnicos e científicos adotados pela SUDENE (2017) para a nova delimitação do Semiárido também perpassam por características climáticas, sendo: a) precipitação pluviométrica média anual igual ou inferior a 800mm (oitocentos milímetros); b) Índice de Aridez de Thorntwaite igual ou inferior a 0,50 (cinco décimos de inteiro); e c) percentual diário de déficit hídrico igual ou superior a 60% (sessenta inteiros por cento) considerando todos os dias do ano. Enfatiza-se que, ao atingir um desses critérios, o município passa a ser definido dentro da atual classificação de Semiárido. Marengo (2008) destaca que a região semiárida brasileira se apresenta como uma área bastante vulnerável e, portanto, exposta aos riscos das mudanças climáticas de forma mais intensa. Essa região é caracterizada por uma intensa variabilidade climática natural e marcada por cenários de múltiplas escassezes dos pontos de vista ambiental, social e econômico, havendo, assim, uma sobreposição de vulnerabilidades. Ademais, Dias e Pessoa (2020) escrevem sobre as ameaças climáticas no estado do Rio Grande do Norte, alertando que existe uma concordância entre estas e a literatura em escala global, e na região semiárida brasileira, alertando para 9 ameaças climáticas: aumento de temperatura, extremos de seca, extremos de chuva, extremos de calor, evapotranspiração, desertificação, incêndios, elevação do nível do mar e perdas de biodiversidade. Não podemos desconsiderar o que preconiza a Agenda 2030 com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, no tópico 13 especifica “Ação contra a mudança global do clima” objetivando a adoção de medidas urgentes que busquem combater as alterações climáticas e os seus impactos. Transpondo esta realidade para o estado do Rio Grande do Norte, salienta-se que insere-se em sua maior parte, na porção semiárida, e que segundo a Sudene (2017), abrange 49 mil km2, ou seja, 93% do território estadual, o que compreende 147 municípios, atingindo uma população de 1.922.440 habitantes Além da porção semiárida potiguar busca-se investigar também sobre municípios litorâneos, buscando o entendimento de que estes são de suma importância para o entendimento da dinâmica das mudanças climáticas, considerando aspectos como, muitas cidades litorâneas do RN estão em áreas de baixa altitude, o que as torna suscetíveis a inundações costeiras e erosão e, que estas cidades podem enfrentar tempestades mais intensas, ressacas e ciclones tropicais atípicos devido ao aquecimento do Atlântico. A problemática das mudanças climáticas é amplamente discutida na atualidade, evidenciando impactos crescentes nas dinâmicas ambientais, sociais e econômicas, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, 2022) e estudos como o de Artaxo (2014), indicam um aumento médio da temperatura global de aproximadamente 1,5 °C ao longo dos últimos 150 anos, com cenários ainda mais preocupantes para o Nordeste brasileiro, que possui uma das maiores vulnerabilidades climáticas do país segundo Angelotti (2015). A maioria dos municípios a serem estudados estão inseridas no contexto regional do Semiárido, uma área geográfica que exige uma compreensão aprofundada, conforme destacado por Lima (2011), porém destaca-se ainda aqueles inseridos no litoral. Estudos de Marengo e Valverde (2007) apontam para uma tendência de diminuição das chuvas e aumento significativo das temperaturas no Nordeste até o final do século XXI. Em relação ao estado do Rio Grande do Norte, Dias (2020) observa um aumento nas temperaturas ao longo dos anos, especialmente nas áreas do Semiárido. Esse cenário desperta preocupações, uma vez que as projeções climáticas indicam alta probabilidade de concretização, agravando uma situação já alarmante. Considerando que grande parte do território é vulnerável às mudanças climáticas, os impactos desses fenômenos poderiam afetar diretamente os recursos hídricos do estado. Este projeto visa aprofundar o entendimento sobre os impactos das mudanças climáticas ao longo do território potiguar, utilizando municípios representativos das diferentes regiões do estado para captar as prováveis variações climáticas locais, buscando entender as tendências gerais voltadas ao agravamento das iminentes emergências climáticas que o planeta vem sofrendo ao longo dos anos. É importante ressaltar que a presente proposta representa o desdobramento e a expansão da pesquisa iniciada na edição 2025/2026 do PIBIC/UERN, na qual foram analisados os municípios de Acari, Jardim do Seridó, Lagoa Nova, Macau, Nísia Floresta e São Miguel. Naquele ciclo, os resultados preliminares apontaram para uma tendência de intensificação do estresse hídrico e anomalias térmicas significativas nas áreas de Serra e litoral. Visando dar continuidade a esse monitoramento e ampliar a base de dados geoespacial do estado, a edição 2026/2027 avança para novas realidades paisagísticas. Sendo, portanto, escolhidos municípios inseridos em contextos ainda não explorados ou que requerem aprofundamento, como a Depressão Sertaneja em áreas de desertificação (Pau dos Ferros e Caicó), os Planaltos Residuais e 'Brejos de Altitude' (Martins), as zonas de transição do Agreste (Santa Cruz), além de novos pontos estratégicos no Litoral Setentrional (Areia Branca) e no Litoral Sul (Baía Formosa). O estudo apresenta elevado potencial para contribuir com a compreensão e ampliação das projeções climáticas futuras no estado do Rio Grande do Norte. Tendo em vista que a modelagem climática regional é um campo em constante aperfeiçoamento, pesquisas com este escopo possibilitam a identificação rigorosa de cenários de aumento térmico, redução de índices pluviométricos e a intensificação de eventos climáticos extremos. Tais resultados são fundamentais para subsidiar políticas públicas de mitigação e planos de adaptação municipal, atendendo diretamente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, com destaque para a Ação Contra a Mudança Global do Clima (ODS 13), Cidades e Comunidades Sustentáveis (ODS 11) e Fome Zero e Agricultura Sustentável (ODS 2).
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.