Projeto de extensão, UEMASUL
LIRA EM CENA (II) (EDITAL Nº 09/2025-PROEXAE/UEMASUL)
Descrição
A leitura intercambia a nossa forma de compreender o meio em que se vivemos, constituindo-nos como sujeitos pensantes que tomam ciência de si ao mesmo tempo em que interagem com seus semelhantes. Para além da mera decodificação das palavras, ler implica uma prática fundamental para o desenvolvimento crítico, cultural e social dos indivíduos e das sociedades. Em um quadro marcado, cada vez mais, pela fluidez das informações, a leitura se mostra como uma potencial ferramenta de descoberta de si, do outro e do mundo, criando uma laboriosa teia em que pensar nos conduz ao senhorio de nossas camadas mais profundas, bem como das orientações que estabelecem os (des)acordos que mobilizam a dinâmica social. Numa sociedade marcada pelos ciberespaços e pelas comunicações em redes sociais, o que se vê é um volume muito grande de oportunidades de leituras, porém, muitas delas, fragmentadas, urgentes e, não poucas vezes, voláteis, diluídas no caldo da pressa e da efervescência da obviedade. É sabido que a reflexão perante o que se lê é fundamental para o crescimento cognitivo, assim como para a compreensão do que norteia a interação social. Os textos, sejam verbais, imagéticos, pictóricos ou sonoros, exigem atenção e releituras para sua melhor absorção. Quando se ultrapassa a mera decodificação, é possível chegar a camadas de sentido mais profundas que a superficialidade leitora, como estratégia da ideologia dominante, deixa escapar. Quanto menos leitores e leitoras competentes, mais a estrutura de poder vigente se revigora. Não por acaso, a precariedade leitora de grande parte do alunado é uma laboriosa estratégia de dominação, fato que os olhares ingênuos não percebem. Desse modo, a realidade escolar mostra o sucateamento da prática leitora de alunos e alunas, seja no nível fundamental, médio ou mesmo no ensino superior. Trata-se de uma reação em cadeia que dificulta e/ou impede o crescimento discente em sua trajetória formativa e social, pois a vida humana não se dá sem a interação com pessoas e textos em todas as situações. Deste modo, entende-se que é papel da escola propiciar a navegação entre os mais diversos registros textuais, tendo em vista a formação de sujeitos conscientes que sejam capazes de enxergar e de questionar as disparidades camufladas que sustentam o (des)equilíbrio social. Neste cenário, o Projeto Lira em Cena (II), na condição de extensão universitária, propõe a prática leitora mediante o consórcio entre música e teatro, tendo em vista o caráter lúdico, estético e reflexivo que essas expressões artísticas comportam. No que toca à música, o projeto ressalta a audição de canções e a leitura/análise das letras, entendendo-se a música como um objeto sonoro-textual eficiente para se pensar questões sociais, como também os 3 mais diversos movimentos da alma humana. A música, por sua diversidade temática e de ritmos, aborda uma gama incontável de assuntos, tanto de ordem interior, emocional, política, social, ética, dentre outras. Desta forma, por ser um produto cultural presente no cotidiano das pessoas, torna-se relevante refletir acerca de sua presença em nosso meio, considerando como a recebemos em nosso cotidiano. Muitas vezes, as músicas são consumidas de forma alienada, o que leva as pessoas a introjetar ideias e preconceitos de modo até inconsciente. Por ser tão abrangente e acessível a todos os públicos, a música, não poucas vezes, resvala, ainda, para apelos comerciais, abrindo mão do teor estético. Por outro lado, há expressões musicais centradas no refinamento artístico, seja em relação à composição e/ou à execução, ou seja, a sua performance cantora. Desta forma, ela se mostra uma interessante ferramenta estético-pedagógica para se discutir temas atuais e emergentes, fazendo assim a ponte entre a palavra e o mundo, conforme propõe Paulo Freire quando diz que “A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto” (Freire, 2009, p. 11). Em relação ao teatro, atente-se que ele, além de sua profissionalização, tem uma função pedagógica interessante, podendo, por isso, ser utilizado com eficiência nos espaços escolares. Não é exagero dizer que onde há ser humano, tem-se a teatralização da vida, visto que os gestos, e não somente as palavras, são o ancoradouro da encenação. A prática teatral, mesmo no âmbito escolar, desenvolve habilidades que serão úteis em todos os campos da nossa existência, tais como: organização, respeito à coletividade, intersubjetividade, disciplina e criatividade, levando os sujeitos à descoberta de si, do outro e do meio em que habitam. Neste quadro, o Projeto Lira em Cena (II), tendo como foco alunos e alunas do Ensino Médio, pretende contribuir com a melhora da competência leitora do referido público por meio da audição, leitura e interpretação de canções, com posterior dramatizações das mesmas, como resposta estética às reflexões desenvolvidas no processo de letramento crítico dos estudantes, favorecendo, assim, o diálogo interartes como meio de construção de cidadania. Neste contexto, a ação extensiva proposta busca provocar o debate e a reflexão sobre variados temas, levando os discentes a um exercício de reflexão acerca dos produtos culturais a que todos estamos expostos diariamente. Criar consciências ativas e socialmente responsáveis é função da leitura. Nesta conjuntura, a ideia que norteia o projeto é que os(as) estudantes percebam o texto musical e a prática teatral como formas artísticas híbridas onde atuam e se associam os signos verbais, sonoros, visuais e cênicos. Deste modo, acredita-se que tomar consciência dos 4 sentidos e gestos que atravessam o texto musical e a encenação são uma potente ferramenta de cognição e de interação com o outro, com o meio e consigo mesmo. A ideia que norteia o projeto tem em mira que ler é a forma pela qual o indivíduo toma ciência da realidade. De fato, o ser humano só consegue se apropriar do mundo e de si mesmo mediante a linguagem, dado que “Linguagem e realidade se prendem dinamicamente” (Freire, 2009, p. 11), pois somos seres de e para a linguagem. Veja-se que nenhum dado da realidade vem diretamente ao ser humano, tudo é filtrado pelos signos (verbais e não verbais). Dado isso, entende-se que ler é conquistar a centralidade das coisas e da própria subjetividade. Assim, no mundo contemporâneo, tão marcado por apelos textuais, auditivos e imagéticos, as pessoas correm o risco de se perderem no turbilhão de informações que a todos e a todas assola diariamente, visto que a quantidade de dados a que os sujeitos estão expostos não significa que tais informações contribuam para o despertar da criticidade. Não basta apenas ter acesso a um texto, é preciso processar a leitura convertendo-a em um pensar/agir consciente. Em outros termos, é o que chamamos de letramento crítico, que tem no pensamento de Paulo Freire um de seus ícones. Assim, esse letramento, na definição de Kleiman (1995, p. 20), supõe a reflexão sobre os usos da escrita e da leitura na sociedade, questionando as ideologias e os valores que permeiam os textos. Mais do que decodificar, trata-se de compreender como os discursos se organizam e para que servem, possibilitando uma leitura crítica da realidade. Sob este prisma, entende-se que ler não é um ato mecânico e automático, pelo contrário, é um processo que vai da decodificação à interpretação, devolvendo o leitor e a leitora à realidade, pois o exercício eficaz da cidadania tem como premissa o domínio dos discursos que atravessam os espaços sociais. Tal concepção de leitura, chamada por Frantz (2005, p. 17) de cognitivo-sociológica, considera a leitura um processo de compreensão bem mais complexo que a simples decodificação, abarcando elementos emotivos, intelectivos, culturais, sociais, neurológicos, ideológicos, em suma, o todo do ser humano. O ato de ler, conforme o pensamento freireano, parte do mundo e a ele retorna, mas essa volta não é ingênua, espera-se que, pelo intermédio da leitura, o sujeito note o seu meio, a si mesmo e o semelhante com outro olhar, quer dizer, um despertar para as contradições que estruturam nossa sociedade. O papel da leitura, nesse campo, é decisivo para o desenvolvimento do indivíduo e de seu meio, contribuindo, assim, para a construção de uma sociedade mais justa e democrática. Isto se dá porque ler abre as portas para o novo, para a demolição de ideias pré-estabelecidas, 5 base da dominação ideológica. A leitura expõe as fissuras do frágil tecido social, suas contradições, pois “Se acredito que o mundo está absolutamente completo e nada mais pode ser dito, a leitura não faz sentido para mim. É preciso estar aberto à multiplicidade do mundo e à capacidade da palavra de dizê-lo para que a atividade da leitura seja significativa” (Cosson, 2009, p. 27). Ao ler, a pessoa está descerrando a cortina de fumaça que os donos do poder insistem em erigir em benefício próprio, em outras palavras, ler é um ato político e libertário, por isso, educativo. Portanto, a leitura “caracteriza-se com um dos processos que possibilita a participação do homem na vida em sociedade, em termos de compreensão do presente e passado e em termos de possibilidade de transformação sociocultural futura” (Silva, 2005, p. 24). Sendo um processo, o ato de ler é uma elaboração constante em que, quanto mais esforços demandados para sua consecução, mais resultados satisfatórios serão obtidos. Neste sentido, “A escola tem, portanto, um compromisso maior que é propiciar ao sujeito o desenvolvimento da sua capacidade de leitura do mundo. Assim, uma educação que se queira libertadora, humanizante e transformadora passa, necessariamente, pelo caminho da leitura” (Frantz, 2005, p. 21). Neste quadro, o presente projeto almeja contribuir com a formação dos(as) jovens leitores(as), despertando o senso crítico por meio da audição musical e da compreensão de seu teor, cujo ápice é a encenação da leitura, definida por seu criador, André Luís Gomes (UnB), como uma prática cênico-pedagógica que tem como objetivo pensar os textos do ponto de vista da cena teatral. Neste quadro, encenar o texto é a resposta crítica à sua leitura, tendo a particularidade de o texto escrito ser usado como objeto de cena (Gomes, 2012, 2020). Deste modo, a leitura encenada engloba decodificação, análise e teatralidade, sendo a encenação fruto de um trabalho coletivo, o que alia estética, sociabilidade e cognição
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