Projeto de extensão, UEMASUL
CLUBE LITERÁRIO DE DEBATES E PENSAMENTO CRÍTICO: UMA JORNADA PELA PALAVRA E PELO DIÁLOGO NA LITERATURA DE “MINORIA”. (EDITAL Nº 09/2025-PROEXAE/UEMASUL)
Descrição
A identidade no mundo moderno parece ser uma busca constante e universal por um sentido de pessoa e constitui-se a essência dos indivíduos. Stuart Hall entende que a identidade não possui uma essência, um núcleo estável. Para ele, a história, os conflitos e as diferenças produzem identidades, que estão sempre em trânsito: “essa concepção aceita que as identidades não são nunca unificadas; que elas são, na modernidade tardia, cada vez mais fragmentadas e fraturadas”. Tomaz Tadeu da Silva (2009, p. 96-97) diz que a identidade “não é uma essência, não é fixa, não é homogênea; é instável, contraditória, fragmentada; está sempre em construção, está ligada a estruturas discursiva e narrativa, está ligada à sistema de representação e tem estreitas conexões com relações de poder”. Renato Ortiz (2006, p. 08) também fala que “não existe uma identidade autêntica, mas uma pluralidade de identidades construídas por diferentes grupos sociais em diferentes momentos históricos”. Tanto para Hall como para Tomaz Tadeu da Silva, bem como para Renato Ortiz, a identidade não é estática, mas está sempre em trânsito, interagindo com os acontecimentos, sujeita às vicissitudes da história. Neste sentido, em muitos textos de autores africanos da lusofonia, tais como os romances de Mia Couto, Paulina Chiziane, José Eduardo Agualusa, Pepetela, Luandino Vieira, Noémia de Sousa, Ugulani Ba Ka Khosa, para citar alguns, refletem a concepção não-essencialista da identidade, apresentando um universo ficcional marcado pelo hibridismo cultural. Semelhante, ocorre com a escrita de autores brasileiros, tal como Luis Cuti, Esmeralda Ribeiro, Elio Ferreira e tantos outros, que têm lutado, por meio de suas escritas, por uma sociedade igualitária, em que a cor da pele não seja vetor de limites sociais. A partir da releitura e reescrita de narrativas nacionais, como subversão ao cânone, a literatura, esse “território contestado”, nos termos de Regina Dalcastagnè, tem sido desenvolvida como um esforço cultural pela descolonização e restauração de comunidades e identidades que, por muito tempo, foram silenciadas. E, como se percebe, esse apagamento da cultura do povo negro soa como um projeto, como esclarece Cuti: Se as conquistas da população negro-brasileira são minimizadas é porque o propósito de um Brasil exclusivamente branco continua sobrepujando as mentes que comandam a nação nas diversas instâncias do poder. Os maiores problemas que o país enfrenta hoje foram plantados ontem e seus cultivadores deixaram uma legião de descendentes e seguidores. (CUTI, 2010, p. 12) Regina Dalcastagnè (2003, p. 14) corrobora o pensamento de Cuti ao constatar que dois grupos específicos estão ausentes da literatura brasileira contemporânea: os pobres e os negros; tanto mais a africana. Há, pois, uma similitude nos pontos levantados por esses autores: a que a população negra ainda não é entendida como produtora de conhecimentos, e as ficções que essas pessoas são capazes de criar não encontram o mesmo acolhimento que a literatura canônica, formada por homens brancos de classe média em sua imensa maioria. Figurando pouco como agentes do próprio discurso, os povos negros são sufocados por uma produção literária de contornos coloniais, o que traz consequências que se abatem, naturalmente, sobre as temáticas e olhares que compõem a nossa literatura e nosso sistema de ensino. Há, pois uma clara e persistente injustiça epistêmica e cultural na sociedade. Nesse contexto, o projeto do Clube Literário de Debates e Pensamento Crítico, a ser desenvolvido com estudantes do ensino médio, emerge não apenas como um espaço de leitura, mas sim como um ato político e pedagógico de resistência e reparação. Assim, o clube prioriza, como foco central, a leitura de autores negros, indígenas, periféricos e de outras minorias – obras produzidas por autores e autoras que, por questões de raça, etnia, gênero, orientação sexual, origem social ou identidade de classe, foram historicamente marginalizados, invisibilizados ou excluídos do cânone literário tradicional. Isso não apenas expõe os participantes a novas narrativas, mas legitima esses textos como Literatura e como Conhecimento valiosos e central para a experiência humana, transformando o leitor em um cogerador de sentido, evidenciando que a excelência literária não reside apenas nos grandes nomes estabelecidos, mas pulsam com intensidade e urgência nas vozes tantas vezes relegadas à periferia. Isto posto, os pressupostos teóricos acima explanados adequam-se aos objetivos da pesquisa, possibilitando uma análise da (des)construção das identidades que, na contemporaneidade, estão em constante trânsito, com inevitáveis choques culturais decorrente desse processo. Para além disso, os construtos dos autores retrocitados permitem ainda que se produza conhecimento sobre as literaturas africanas de língua portuguesa e sobre a literatura afro-brasileira, indígena, feminina, da periferia, do presídio, do imigrante entre outras ditas de “minorias”, contribuindo para a dessacralização, desmontagem e subversão de discursos que enclausuraram os sujeitos e inviabilizam uma sociedade justa e democrática. Dentre os principais nomes, destacamos Maria Firmina dos Reis, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Eliana Alves Cruz, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, João do Vale, Salgado Maranhão, etc., Daniel Mundurucu, Samuel Rawet, entre outros, além de autores africanos mencionados em linhas atrás.
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