Projeto de pesquisa, UFABC
O Legado Pedagógico de Roberto Rossellini: Cinema, Cultura Digital e Construção do Conhecimento Histórico
Descrição
“É difícil falar disso hoje. O verdadeiro universo imaginativo é a internet. O ser humano não deve deixar escapar essa extraordinária aventura telemática. A internet deve servir ao homem, libertá-lo e fazê-lo crescer, abrindo-lhe novos interesses e novos horizontes; não deve esmagá-lo, reduzi-lo à servidão, nem o degradar” (Giovanni Andrea Semerano) A epígrafe deste plano de trabalho antecipa o modo como Giovanni Andrea Semerano aproxima Roberto Rossellini de um mundo já atravessado pelas novas tecnologias. Ao retomar Fantasia Sottomarina (1940), filme em que Rossellini recria artificialmente o ambiente marinho diante das limitações técnicas de sua época, Semerano chama atenção para um gesto recorrente na trajetória do diretor, isto é, a capacidade de transformar os meios disponíveis em instrumentos de invenção, conhecimento e ampliação da experiência humana. A solução encontrada para filmar um universo então inacessível não se reduz a um expediente técnico. Ela revela uma concepção de imagem capaz de produzir aproximações sensíveis com a realidade e de tornar visível aquilo que, em determinado contexto histórico, parecia escapar ao olhar. Essa leitura permite aproximar a invenção técnica de Rossellini da operação crítica de Semerano. Na entrevista imaginária publicada em Roberto Rossellini: l'uomo, la parola, l'immagine, o cineasta é colocado diante do horizonte da internet, do vídeo e das novas formas de produção audiovisual. Embora ficcional, o diálogo mantém forte coerência com suas reflexões sobre cinema, televisão e educação, sobretudo quando critica a perda do sentido da imagem e defende meios capazes de favorecer liberdade, conhecimento e formação humana. Nesse deslocamento, Rossellini deixa de ser retomado apenas como cineasta associado ao neorrealismo italiano e passa a ser compreendido também como pensador dos meios técnicos e da participação das imagens na formação do sujeito e na compreensão histórica do mundo. A hipótese central deste projeto é que o pensamento pedagógico de Rossellini permanece relevante para compreender os desafios da cultura digital. Mais do que revisitar sua filmografia como expressão do neorrealismo italiano, trata-se de investigar sua concepção de imagem como forma de conhecimento, capaz de articular história, realidade, autonomia intelectual e formação crítica do espectador. Nessa perspectiva, suas reflexões sobre cinema e televisão serão relidas diante da internet, dos serviços de streaming, dos algoritmos de recomendação e da inteligência artificial. A questão não se restringe aos modos como novas tecnologias modificam a circulação audiovisual, mas envolve compreender que relação com o saber elas favorecem, que formas de atenção produzem e em que medida podem contribuir para a emancipação intelectual ou para novas dependências cognitivas. O referencial teórico parte de Aprà, Semerano e Guarner, que evidenciam a unidade entre pensamento, palavra, imagem e educação na trajetória do diretor. A partir deles, a pesquisa compreenderá a imagem não como ilustração de ideias previamente formuladas, mas como linguagem autônoma de conhecimento. Filmes como O Medo (1954), Onde Está a Liberdade? (1954), Vanina Vanini (1961), India: Matri Bhumi (1959) e A Idade do Ferro (1965) serão analisados para observar como liberdade, técnica, alteridade e formação do olhar atravessam sua obra. A escolha desse conjunto permite acompanhar diferentes momentos da produção rosselliniana e perceber como a imagem, em contextos narrativos e formais diversos, pode organizar relações entre sujeito, história e realidade. Ao retomar Rossellini nesse horizonte, o estudo procura mostrar que sua contribuição ultrapassa a história do cinema e permite repensar, no presente, as relações entre educação, técnica e responsabilidade diante das imagens. Em uma cultura marcada pela abundância de conteúdos, pela velocidade da circulação audiovisual e pela mediação tecnológica dos processos de interpretação, interessa compreender como sua pedagogia da imagem pode orientar práticas voltadas ao conhecimento histórico, à autonomia intelectual e à formação humana. Assim, a atualidade de Rossellini não reside apenas em seus filmes, mas no modo como sua obra ajuda a interrogar criticamente as formas contemporâneas de ver, aprender e conhecer. É a partir desse problema que se justifica a continuidade da pesquisa, agora voltada a compreender como o legado pedagógico do diretor pode ser relido diante da cultura digital.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.