Projeto de pesquisa, UFAL
Memórias do intolerável: vestígios narrativos e impactos psicossociais de desastres socioambientais em Alagoas
Descrição
Trata-se de projeto de pesquisa que objetiva conhecer os impactos psicossociais decorrentes de atividades de mineração em Maceió e Craíbas, no estado de Alagoas, investigando os impactos na saúde mental e no bem-estar de populações vulneráveis. O contexto que motiva a investigação é de extrema gravidade social, histórica e ambiental: Maceió é palco do maior desastre de mineração em área urbana do Brasil, provocado pelo colapso de minas de sal-gema exploradas pela empresa Braskem, com mais de 200 mil pessoas atingidas e cerca de 60 mil deslocadas forçadamente de seus territórios, bairros e comunidades. Em Craíbas, município do Agreste alagoano, comunidades rurais enfrentam os efeitos devastadores da mineração de cobre, igualmente marcada por denúncias de violações socioambientais profundas, pela precarização das condições de vida e pelo silenciamento histórico das populações afetadas. Esses dois cenários, embora distintos em suas especificidades geográficas, nos tipos de atividade minerária envolvida e mesmo no reconhecimento institucional (em Maceió, há um desastre em curso, enquanto em Craíbas ainda não se pode dizer o mesmo oficialmente), compartilham uma dimensão comum e estrutural: a produção sistemática de sofrimento psicossocial em populações que já se encontravam em situação de vulnerabilidade. A perda do lar, do território, dos vínculos comunitários, das referências afetivas e simbólicas, bem como a ruptura das redes de sociabilidade e das condições materiais de existência, configuram um conjunto de violações que ultrapassam os danos físicos e materiais imediatos, atingindo profundamente a subjetividade, a identidade e a saúde mental dos sujeitos. É nesse cenário que o presente projeto se insere, propondo-se a continuar as investigações já em curso de alguns dos processos psicossociais que emergem dessas experiências. O objetivo geral da pesquisa é conhecer os relatos memorialísticos de pessoas atingidas pela mineração, compreendendo seus impactos sobre a saúde mental e o bem-estar psicossocial. Para tanto, os objetivos específicos incluem: investigar as condições de saúde mental das populações atingidas; analisar os impactos psicossociais a partir de uma perspectiva interseccional, considerando marcadores sociais como gênero, raça, classe, idade e orientação sexual; identificar recursos e estratégias comunitárias de enfrentamento e resistência; mapear as redes de apoio social existentes e suas potencialidades; e subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas à recuperação e à promoção da saúde mental das comunidades afetadas. A pesquisa se justifica pela urgência e pela relevância social do problema investigado. Os desastres socioambientais decorrentes da mineração predatória têm sido amplamente documentados em suas dimensões físicas, econômicas e ambientais, mas os seus efeitos sobre a saúde mental e o bem-estar psicossocial das populações atingidas ainda carecem de investigação sistemática e aprofundada, especialmente no contexto alagoano. A literatura científica nacional e internacional aponta que eventos traumáticos de grande magnitude, como deslocamentos forçados e destruição de territórios, estão associados a elevados índices de transtornos mentais, como depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), além de impactos significativos sobre os laços comunitários, a identidade coletiva e os projetos de vida individuais e familiares. Nesse sentido, a produção de conhecimento qualificado sobre esses processos é condição indispensável para a construção de respostas efetivas e humanizadas às necessidades das populações afetadas. A abordagem teórica que sustenta o projeto ancora-se na Psicologia Social, com especial atenção às contribuições da Psicologia Comunitária e da Psicologia da Libertação, que colocam no centro da análise as relações entre subjetividade, poder, território e transformação social. O referencial interseccional é adotado como lente analítica privilegiada, permitindo compreender como diferentes marcadores sociais se articulam e se sobrepõem na produção de vulnerabilidades específicas. Assim, a pesquisa dá atenção especial às experiências de mulheres, população LGBTQIAPNb+, pessoas idosas, crianças e adolescentes e trabalhadores informais, reconhecendo que os impactos psicossociais não se distribuem de forma homogênea, mas incidem de maneira desigual sobre corpos e sujeitos historicamente marginalizados. O conceito de territorialidade também ocupa lugar central no referencial teórico do projeto. O território não é compreendido apenas como espaço físico ou geográfico, mas como dimensão constitutiva da identidade, da memória e do pertencimento. A destruição ou o abandono forçado do território representa, portanto, uma forma de violência simbólica e subjetiva que precisa ser reconhecida e enfrentada. Nesse sentido, a pesquisa dialoga com os estudos sobre memória coletiva, trauma social e resiliência comunitária, buscando compreender como as comunidades constroem sentidos, elaboram perdas e produzem estratégias de resistência diante das adversidades impostas pelos desastres. Quanto ao delineamento metodológico, apoiamo-nos na Pesquisa-Intervenção Participativa (PIP), abordagem que promove a articulação entre produção de conhecimento e transformação social, reconhecendo os sujeitos da pesquisa não como meros objetos de investigação, mas como protagonistas ativos do processo. Essa escolha metodológica é coerente com os princípios éticos e políticos que orientam o projeto, na medida em que valoriza a participação, a horizontalidade e o compromisso com a emancipação das comunidades envolvidas. A PIP pressupõe uma relação dialógica entre pesquisadores e participantes, na qual o saber científico e o saber popular se encontram e se enriquecem mutuamente. Dentro dese entendimento, destacam-se as técnicas de produção de dados com forte inserção comunitária, como a etnografia, rodas de conversa, entrevistas narrativas e visitas a instituições do terceiro setor, entidades jurídicas, religiosas e movimentos sociais que acompanham as comunidades atingidas. A esse instrumental busca-se recorrer para acessar narrativas individuais e coletivas, mapear impactos psicossociais e identificar estratégias de resistência comunitária. As entrevistas narrativas permitem aprofundar a escuta das experiências singulares dos sujeitos, com atenção às dimensões afetivas, simbólicas e temporais das memórias relatadas. Ferramentas audiovisuais também poderão ser utilizadas como recurso metodológico complementar, favorecendo a expressão criativa e a produção coletiva de conhecimento. A análise dos dados recorrerá a abordagens qualitativas e quantitativas, de forma integrada e complementar. A análise qualitativa será orientada pela análise de conteúdo e pela análise narrativa, com atenção às dimensões discursivas, afetivas e políticas dos relatos. A análise quantitativa utilizará instrumentos validados de avaliação de saúde mental, permitindo dimensionar a prevalência e a intensidade dos impactos identificados. A articulação entre essas duas abordagens visa produzir um panorama abrangente e rigoroso dos efeitos psicossociais dos desastres nas comunidades investigadas. Com duração prevista de quatro anos, o projeto encontra-se em execução há um ano, concentrando diferentes eixos de pesquisa e etapas progressivas, que incluem a aproximação e pactuação com as comunidades, a produção e análise dos dados, a devolução dos resultados aos participantes e a elaboração de produtos técnicos e científicos. Alguns dos resultados já obtidos apontam para a necessidade de fortalecimento das redes de apoio social, para a qualificação das práticas de cuidado em saúde mental nos territórios afetados e para a formulação de políticas públicas voltadas à recuperação e à promoção da saúde mental das comunidades atingidas. em sua etapa atual, a pesquisa visa produzir conhecimento interdisciplinar que dialogue com as demandas sociais e científicas emergentes, promovendo a valorização das narrativas dos sujeitos atingidos como elementos centrais no enfrentamento às violações socioambientais e na construção de estratégias de justiça social e ambiental. Para isso, a disseminação dos resultados será realizada por meio de publicações científicas, eventos acadêmicos, materiais de comunicação acessíveis às comunidades e diálogos com gestores públicos e organizações da sociedade civil, reafirmando o compromisso do projeto com a produção de uma ciência socialmente responsável, engajada e transformadora.
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