Projeto de pesquisa, UFAL
Da autobiografia ao antilivro: hibridismo de gênero literário em "Livro do desassossego", de Fernando Pessoa e "Confissões de um poeta", de Lêdo Ivo
Descrição
No início do século XX, os estudos sobre gêneros literários surgem diante de uma crise da linguagem literária. O pensamento crítico perpassa por posições linguísticas e literárias que colocam a escrita artística diante do desafio da criação textual. Essa crise forma, na corrente do caminho da crítica literária, uma revisão do tratamento dado à obra de literária deste da Antiguidade, como a Poética, de Aristóteles, que concebeu a necessidade da categorização dos gêneros literários. É a partir dessa ideia, que este projeto toma como objeto de pesquisa o Livro de desassossego, de Fernando Pessoa, escrito entre 1913 e 1934, publicado postumamente em 1982, cerca de 47 anos após a morte do escritor português. Fernando Pessoa dá obra ao seu heterônimo Bernardo Soares, uma espécie de semi-heterônimo do autor, organizada a partir de fragmentos extraídos do seu espólio. Na mesma trilha, soma-se ao objeto de pesquisa o livro Confissões de um poeta, de Lêdo Ivo, de 1979, cuja trajetória formal impõe a autobiografia e o hibridismo de gêneros literários como gêneros abertos, flexíveis, assim como faz os livros de Pessoa e de Lêdo Ivo. A pesquisa se constituirá de base bibliográfica, descritiva, de aspecto qualitativo. O método dedutivo estabelece a formação do raciocínio lógico, fato que se seguirá na nossa pesquisa em literatura para cruzamento de textos organizados pela fortuna crítica dos autores e textos de análise proposta e escolhidos para subsidiar a pesquisa. A delimitação da pesquisa recai sobre a linguagem literária nas duas obras, tomando a autobiografia e o hibridismo de gêneros literários como projeto da autoria dos dois escritores, marcada pelo modo qualitativo, de base analítica e bibliográfica, fortalecida pela copilação de livros, artigos e ensaios sobre a forma do hibridismo na literatura. A partir disso, toma-se também a questão da ideia do antilivro (Zenith, 2023) e da maneira como os diversos textos no interior do livro se amparam para formar o sentido do texto literário. Isso quer dizer, por exemplo, que a forma do antilivro descontrói o sentido de leitura linear, simétrica, formada pelo sentido tradicional de leitura e também dos específicos gêneros literários, como o romance, a novela, a conto, a crônica etc. Com efeito, tanto Pessoa quanto Ivo assumem a quebra dos gêneros literários na proposta de autoria. Ao mesmo tempo, nos revela consciência quanto à forma criadora, deixando que a linguagem explore a capacidade criadora a partir de distribuir nos espaços da página a linguagem que o momento de escrita lhe convier. Como afirma Rezende e Plaza (2026, p. 2), “o hibridismo favorece um trabalho mais diverso, com maior liberdade de criação”. Na verdade, o Livro do desassossego é uma invenção de Pessoa, como afirma Zenith (2023), pois o livro “nunca existiu, propriamente falando, e que nunca poderá existir”. Ora se o livro não existe, nem poderá existir, o que temos nas mãos é um efeito mágico da criação literária? Claro, o livro existe, mas o que Zenith (2023) quer nos ensinar é que a potência do livro recai sobre a desconstrução do tempo e da própria linguagem artística. “O livro em plena ruína”, ou seja, o tempo em ruína, o sujeito em ruína, a busca de um tempo perdido. Dessa forma, pode-se perceber que “o Livro do desassossego foi, antes de tudo, vários livros (e afinal um só) de vários autores (e afinal só um), a própria palavra ‘desassossego’ mudou de significado com o decorrer do tempo” (Zenith, 2023, p. 11 – Grifos do Autor). Por outro lado, Lêdo Ivo publica Confissões de um poeta em 1979. Embora o surgimento do Livro de desassossego dois anos depois, as duas obras dialogam em recursos de quebra da crise implantada pela organização dos gêneros literários. Se o primeiro, nos leva uma comprovada relação híbrida de gêneros literários, marcada pelas imagens poéticas da infância, das relações com os escritores da época ou uma posição crítica sobre a “verdade” poética; o segundo nos revela a intencionalidade marcada pelo “livro-desespero, o antilivro, além de qualquer literatura” (Zenith, 2023, p. 7). Assim, esperamos que a pesquisa proporcione aos alunos da graduação em Letras-Língua Portuguesa, do Campus do Sertão, a produção de artigos na área da literatura, publicados em revistas internacionais e nacionais, promovendo a ascensão dos pesquisadores em programas de pós-graduação na UFAL.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.