Projeto de pesquisa, UFAL
Infância e Natureza em Territórios Urbanos
Descrição
O presente projeto insere-se em uma trajetória de pesquisas desenvolvidas ao longo do meu percurso como pesquisadora, com ênfase nas relações entre infância, educação, território, cultura e cidade.Entre 2016 e 2020, realizei uma pesquisa etnográfica no território indígena Wassu-Cocal, em Alagoas, com o objetivo de compreender as concepções de infância presentes nesse contexto, especialmente na relação das crianças com o território da aldeia. A investigação buscou captar não apenas a infância estruturada pelos modos de ser e viver próprios do aldeamento indígena, mas também as transformações provocadas pela influência de elementos da cultura não indígena, especialmente aqueles introduzidos pelo currículo escolar formal. Os dados evidenciaram que parte significativa do material didático e pedagógico pouco explorava a cultura Wassu-Cocal. Além disso, a pesquisa revelou aspectos importantes sobre o brincar entre as crianças, destacando a centralidade do território e da natureza como espaços mediadores das brincadeiras e fundamentais para a vida no aldeamento. A partir desse estudo, compreendi que o brincar intrínseco à natureza e a ressignificação criativa de elementos naturais — como galhos, folhas, pedras e água — constituem não apenas atividades recreativas, mas práticas culturais que sustentam a sociabilidade, a aprendizagem e a identidade indígena desde a infância. Nessas experiências, não há separação rígida entre brincar e aprender, nem entre lazer e vida coletiva. Ao mesmo tempo, crescia no Brasil uma forte preocupação com os rumos das infâncias na relação com as cidades, considerando a crescente ausência das brincadeiras nas ruas e o aumento do tempo de tela entre as crianças. Nesse contexto, ganha destaque o debate em torno do chamado Transtorno do Déficit de Natureza (LOUV, 2005), conceito que alerta para os impactos negativos da falta de contato com a natureza no desenvolvimento infantil. Contudo, a experiência da pesquisa entre o povo Wassu-Cocal permite problematizar os próprios sentidos atribuídos às ideias de “natureza” e “área verde”, especialmente a partir das críticas de Ailton Krenak (2020) ao paradigma utilitarista de apropriação da natureza. Tal questão torna-se ainda mais relevante diante das transformações contemporâneas da infância, marcadas pelo aumento expressivo do tempo de exposição às telas e pela redefinição das formas de experiência e sociabilidade das crianças. Mais recentemente, desenvolvi a pesquisa “Cidade(s), infância(s) e natureza(s) em perspectiva antropológica”, voltada à análise das práticas de brincar em parques infantis urbanos em Braga, Portugal, em diálogo comparativo com os dados produzidos junto às crianças Wassu-Cocal. Durante a pesquisa em Braga, além de observar as práticas de brincar, também mapeei parques urbanos e analisei a presença e a qualidade das áreas verdes nesses espaços. Ao circular pela cidade, chamou minha atenção a presença significativa de vegetação no entorno de muitas escolas, o que motivou comparações exploratórias com escolas de educação infantil em Maceió-AL. Percebi, então, a importância de ampliar o olhar sobre a dimensão da natureza para além dos parques, alcançando também o entorno escolar, entendido como território vivido cotidianamente pelas crianças pequenas. Nesse sentido, a presente pesquisa, intitulada “Infância e Natureza em Territórios Urbanos”, configura-se como um desdobramento dessas investigações anteriores. O estudo parte do entendimento de que a infância acontece em territórios e de que o entorno escolar constitui parte do ambiente educativo. Assim, busca compreender de que maneira a presença ou ausência de áreas verdes próximas às escolas de educação infantil de Maceió atravessa as experiências cotidianas das crianças, especialmente no que se refere às oportunidades de interação, deslocamento, brincar e contato com a natureza. A pesquisa é orientada pelas seguintes questões: quais são as condições ambientais do entorno escolar das escolas de educação infantil de Maceió-AL? Quais padrões territoriais podem ser identificados na distribuição das áreas verdes e de que modo esses padrões expressam desigualdades socioespaciais? Como a incorporação de indicadores territoriais pode ampliar a compreensão das condições materiais que estruturam o funcionamento das instituições de educação infantil? E de que maneira esses dados podem contribuir para processos de planejamento educacional e formulação de políticas públicas alinhadas ao Objetivo 8 do Plano Nacional de Educação — Sustentabilidade Socioambiental na Educação? Diante desse cenário, o objetivo geral da pesquisa é analisar a presença de áreas verdes no entorno de escolas de educação infantil na cidade de Maceió-AL, tomando o território como dimensão constitutiva das experiências infantis e das condições educativas, de modo a tornar visíveis aspectos ambientais frequentemente invisibilizados nas análises educacionais tradicionais. Além disso, o projeto busca identificar e mapear parques urbanos voltados ao uso das crianças na cidade de Maceió-AL. O estudo inscreve-se no campo das relações entre educação, território e infância, partindo do reconhecimento de que as experiências educativas não se restringem ao espaço escolar interno, mas são também constituídas pelas condições ambientais e territoriais do entorno. A literatura internacional tem demonstrado que o ambiente no entorno escolar afeta a saúde e o bem-estar das crianças, indicando que escolas localizadas em áreas com mais vegetação tendem a apresentar melhores indicadores relacionados à infância. No contexto brasileiro, especialmente em cidades como Maceió, ainda são limitados os estudos que sistematizam dados territoriais sobre a presença de vegetação no entorno de instituições educativas, particularmente na educação infantil. A pesquisa caracteriza-se como um estudo de abordagem interdisciplinar, de natureza exploratória e analítica, articulando procedimentos das Ciências Sociais com técnicas de análise espacial e sensoriamento remoto. O campo empírico será constituído pelas escolas de educação infantil localizadas em Maceió-AL, tomando como base os dados do Censo Escolar do INEP. As instituições serão identificadas, organizadas e georreferenciadas para compor uma base de dados espacial. A partir de imagens de satélite Sentinel-2, acessadas por meio da plataforma Google Earth Engine, será calculado o índice de vegetação por diferença normalizada (NDVI), utilizando buffers territoriais no entorno das escolas para estimar a presença e densidade de cobertura vegetal. Os dados produzidos permitirão identificar padrões territoriais na distribuição das áreas verdes e analisar como diferentes regiões da cidade apresentam variações nas condições ambientais do entorno escolar. Importa destacar que a análise não se limita à mensuração da cobertura vegetal, mas busca interpretar esses dados à luz do referencial teórico da pesquisa, compreendendo o território como parte das condições materiais da experiência infantil. Embora esta fase inicial concentre-se na análise territorial e na produção de indicadores objetivos, reconhece-se que a compreensão substantiva do entorno escolar exigirá, em etapas futuras, a escuta e a participação ativa das crianças, observando seus deslocamentos, brincadeiras, percursos e narrativas sobre o território. Além disso, a pesquisa incorporará a identificação e o georreferenciamento de parques urbanos e parques infantis de Maceió-AL, buscando compreender sua distribuição territorial, acessibilidade e condições de utilização. Pretende-se também analisar os usos e contra usos desses espaços pelas crianças, considerando práticas de brincar, circulação, permanência e apropriação dos parques no contexto urbano contemporâneo. Além de sua relevância científica e social, o projeto apresenta importante potencial formativo para estudantes de graduação e pós-graduação, ao proporcionar experiências interdisciplinares envolvendo educação, antropologia da infância, estudos urbanos, geoprocessamento e análise territorial. O projeto também poderá fortalecer os cursos de graduação e pós-graduação da UFAL, especialmente Pedagogia, Ciências Sociais, Geografia e o Programa de Pós-Graduação em Sociologia-ICS bem como o Programa de Pós-Graduação em Educação-CEDU , contribuindo para a consolidação de redes interdisciplinares de pesquisa no âmbito da universidade.
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