Projeto de pesquisa, UFAL
Repertórios mobilizados por jovens mulheres, tornando-se estudantes universitárias no curso de Pedagogia: mapeamento e análise dos seus sentidos na vida universitária e aprofundamento teórico
Descrição
Parte-se do pressuposto de que somos sujeitos inacabados (Chartot, 2000). Quando nascemos adentramos a um mundo existente e que para a apropriação dos modos de ser e estar neste mundo é preciso aprender. Este mundo é desigual, com suas relações de poder e disputas para legitimação de determinados bens materiais e simbólicos. Portanto, as atividades, as práticas sociais, culturais as quais temos acesso, construídas socialmente, a partir dos grupos nos quais nos inserimos, é que permitem nossa construção como sujeitos sociais-singulares. Ao vivenciarmos as atividades de diferentes espaços sociais, com suas lógicas específicas de aprender, apropriamos os repertórios, saberes que se articulam, produzem determinados sentidos e servem de referências para novas vivências. Neste estudo os repertórios socioculturais são focalizados a partir dos modos como os sujeitos sociais singulares interpretam e os mobilizam para dar sentido ao vivido. Portanto, destaca-se nesta pesquisa o lugar das narrativas de si como potencializadora do acesso aos sentidos dos repertórios das jovens estudantes. Conforme Charlot “faz sentido para o sujeito algo que lhe acontece e tem relação com outras coisas da sua vida, coisas que ele já pensou, questões que ele já se propôs [...] o que produz inteligibilidade sobre algo [...], é comunicável e pode ser entendido na troca com os outros” (Charlot, 2000, p. 56). Desse modo, estudar tal processo não é algo simples e esta pesquisa se agrega aquelas que se interessam por tal desafio pois, concordamos com Charlot (2000, p. 56) ao afirmar que sentido é produzido pelo estabelecimento de relações, dentro de um sistema, ou nas relações com o mundo e com os outros”. Se os sentidos das atividades vivenciadas produzem nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos, tal processo não ocorre diretamente. Eles são perpassados pelas narrativas construídas pelos sujeitos singulares sociais. O estudo focalizará narrativas orais, transformadas em escrita; narrativas escritas nos trabalhos de conclusão de curso, tendo como referência os repertórios socioculturais mobilizados por jovens mulheres na vida universitária, no curso de Pedagogia para dar sentidos aos seus processos formativos e suas construções como estudantes e realizará um aprofundamento teórico-analítico sobre estes processos, focalizando especialmente a noção de repertórios socioculturais nos textos teóricos que embasam a teoria da relação com o saber, conforme Bernard Charlot e a pesquisa (auto)biográfica, especialmente a partir dos estudos de Christine Delory-Momberger. Procedimentos de pesquisa, suas especificidades e proposta de análise Revisão de literatura Realizaremos uma revisão de literatura do tipo sistêmica, conforme Cavalcante e Oliveira (2020) e em Codina (2024), porque inicia-se com a formulação de uma pergunta central, no segundo semestre de 2025 e no primeiro de 2026. Os textos para composição do corpus desta análise serão artigos científicos publicados em periódicos, no período entre 2020 e 2024, identificados e disponibilizados pela plataforma Google Acadêmico e a pergunta central refere-se ao mapeamento e análise dos estudos foram produzidos que tratam direta ou indiretamente das relações entre os repertórios socioculturais e os processos formativos e/ou construções de jovens mulheres como estudantes na universidade. Tal questão será aprimorada no processo de pesquisa. Definidas as fontes, ocorrerá o detalhamento sobre a estratégia de busca dos artigos científicos e realiza-se uma avaliação crítica para identificar dentre os achados os exemplares relevantes para o estudo. Por fim, os dados e as informações serão coletados e analisados, realizando sua interpretação a partir das leituras procedidas. A revisão para esta pesquisa propõe contabilizar e apresentar características diversas dos artigos analisados. A revisão será organizada de acordo com Trancoso (2012, 2024) e Zanella e Titon (2005), com a definição de quatro etapas do procedimento para o tratamento do corpus da análise: exploratória, garimpagem, refinamento e análise (Trancoso, 2024). A etapa exploratória buscará artigos científicos, entre os anos de 2020 a 2024 para a retirada da amostra para a análise. Na etapa da garimpagem ocorrerá a triagem dos artigos, a partir de sua leitura flutuante, para identificar aqueles que comporão o corpus da revisão de literatura; na terceira etapa ocorrerá o estudo dos artigos componentes do corpus, seus metadados e conteúdo, este por meio também de leituras flutuantes; na quarta e última etapa, denominada análise os artigos, serão organizados em quadros, com análises descritivas, com a identificação dos aspectos sejam relevantes para a apropriação dos conhecimentos produzidos sobre a temática de pesquisa, as possíveis lacunas e os diálogos com as questões de nosso estudo. Análises explicativas interpretativas das entrevistas de pesquisa biográfica Primeiramente haverá a interpretação hermenêutica de cada uma das dez entrevistas de pesquisa biográfica realizadas com jovens mulheres do curso de Pedagogia, transformadas em textos (com a supressão das perguntas). Serão selecionadas o conjunto das entrevistas realizadas na pesquisa anterior, realizadas no segundo semestre de 2024, tendo como critério, serem pesquisas com jovens mulheres, no final do curso, após ter recentemente finalizado, com as quais ainda temos possibilidade de contato. Vale ressaltar que as entrevistas de pesquisa biográfica foram realizadas de acordo com os pressupostos de Christine Delory-Momberger. Trata-se de um diálogo sobre eixos propostos pelo/a pesquisador/a, com poucas questões sobre uma temática estudada, construídas para que suas respostas se expressem de modo narrativo, com a evocação da memória, configuração e reconfiguração do vivido (Delory-Momberger, 2012). Após a realização de cada entrevista, o material é transcrito e organização em texto (entrevistas textualizadas), com a supressão das perguntas e cada texto em seu conjunto, após várias leituras, passa por análises explicativas interpretativas13. Retomaremos a análise de cada entrevista tendo como os repertórios socioculturais mobilizados pelas jovens estudantes para sua construção como estudantes no curso de Pedagogia. Análises explicativas interpretativas dos textos dos trabalhos de conclusão de curso Este procedimento de pesquisa consiste em retomar a análise do estudo realizado para um dos objetivos específico da pesquisa “Sentidos das experiências realizadas na vida universitária para a formação de si e para a relação com a docência”. Tal objetivo se configurou como plano de trabalho de iniciação científica, com a análise dos trabalhos de conclusão de curso defendidos entre 2019 e 2023 no curso de Pedagogia (UFAL) para identificar se haveria relação entre as escolhas das temáticas escolhidas e os processos formativos vivenciados no percurso de formação na Pedagogia entre os anos de 2019 e 2023. A proposta é partir deste levantamento realizado, ampliá-lo até o ano de 2026, identificar destes estudos quais deles foram produzidos por jovens mulheres, estudantes de Pedagogia e, a partir de novas leituras e análises explicativas-interpretativas, identificar e analisar quais os repertórios socioculturais mobilizados para a produção das questões de pesquisa destes trabalhos de conclusão de curso. Também para cada análise dos trabalhos de conclusão de curso será organizado um mosaico com as temáticas que se sobressaem, aquelas que se articulam a ela e se conectam com outras. A partir destas temáticas serão identificados os indícios das atividades, práticas culturais e sociais e dos repertórios mobilizados delas recorrentes, configurando as razões construídas no processo de construção de si das jovens como estudantes universitárias. Neste processo, também, na medida do possível serão privilegiadas as mesmas categorias utilizadas no estudo das entrevistas de pesquisa biográfica: a identificação dos tipos de repertórios socioculturais acionados e como foram construídos; o contexto nos quais emergem (se no território da vida universitária ou em outros espaços sociais); as razões, motivos que provocam tais mobilizações, os sentidos e as articulações com outros repertórios e suas ressignificações. Análises explicativas interpretativas de estudos referências para a teoria da relação com o saber e da pesquisa biográfica: aprofundamento teórico sobre “repertórios socioculturais” A proposta deste procedimento de pesquisa é o aprofundamento teórico das articulações entre a teoria da relação com o saber e da pesquisa biográfica em relação aos sentidos dos repertórios socioculturais mobilizados por mulheres jovens estudantes da Pedagogia. Trata-se da continuidade de esforços empreendidos em estudos anteriores que buscam aproximar estes constructos teórico-metodológicas. Esta pesquisa tem como um dos seus objetivos aprofundar tais diálogos, pois identifica-se que se trata da “configuração de campos teórico-metodológicos de pesquisa com suas especificidades, mas também os pontos de diálogo concernentes às suas questões de pesquisa e, em especial, pelo interesse recíproco teórico-epistemológico em estudar a construção dos indivíduos como sujeitos singulares/sociais, a partir de abordagens socioantropológicas” (Reis, 2021, p. 1). Identificamos que tanto as abordagens crítico-dialéticas, identificadas com maior ênfase à Charlot (2013), como a abordagem da fenomenologia-hermenêutica, que é mais focalizada em Delory-Momberger (2019, 2021) “partilham o princípio da contextualização”, isto é, os fenômenos devem ser estudados considerando seu entorno, seus ambientes naturais, os contextos em que se desenvolvem e têm sentido” (Gamboa, 2015, p. 126). Ambas as teorias, ao partirem da mesma pergunta, sobre como nos tornarmos sujeitos, submergem no contexto das relações de poder e de desigualdade sociais nos quais estamos inseridos e buscam suas respostas em abordagens críticas em relação à educação. Desse modo, pode-se afirmar que “as dimensões da atividade, experiência vivida e experiência realizada pelas narrativas estão dialeticamente imbricadas” (Reis, 2021, p. 14). As experiências vividas são interpretadas “porque elas estão perpassadas por atividades vivenciadas, enquanto processos sociais, culturais, econômicos que são diferentemente partilhados em razão de disputas econômicas, políticas e simbólicas” (Reis, 2021, p. 14).
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