Projeto de pesquisa, UFAL
Novos mapas da esperança: figurações utópicas na distopia contemporânea (Ciclo 2)
Descrição
Em 1960, o escritor e crítico Kingsley Amis publicou uma das primeiras análises relevantes daquilo que, à época, era conhecido como “antiutopia”, isto é, obras literárias que pareciam virar pelo avesso a tradição utópica iniciada pelo humanista inglês Thomas More no século XVI: se, na utopia, imperava a descrição de sociedades melhores, caracterizadas pelo aumento qualitativo de vida de seus cidadãos e cidadãs, na antiutopia, conforme teorizada por Amis, o que se tinha era uma versão piorada das sociedades, em textos que observavam criticamente o cenário contemporâneo para projetar futuros sombrios. Assim, Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley, imaginou como seria um mundo em que o princípio do fordismo fosse aplicado à sociedade como um todo, erradicando por completo o livre-arbítrio; e em 1984, George Orwell, impactado pelos horrores da Segunda Guerra Mundial e pela ascensão de líderes políticos tiranos — como Stálin e Hitler —, imaginou um futuro em que a obediência cega ao Estado se tornou algo inescapável, com a vigilância ostensiva de seus cidadãos e cidadãs a fim de captar qualquer sinal de desvio das doutrinas do Partido. Tendo como corpus estas e outras narrativas, não por acaso, Kingsley Amis intitulou seu estudo seminal de New maps of hell — ou seja, novos mapas do inferno. Desde a década 1960, a distopia (que é o termo que, desde os anos 1970, passou-se a adotar para se referir a essas obras que descrevem mundos piorados) avançou em diferentes frentes, tanto na literatura quanto em outras artes e mídias, dando origem a obras que também vieram a se tornar clássicos modernos, como é caso de O conto da aia, de Margaret Atwood, e A parábola do semeador, de Octavia E. Butler. Na contemporaneidade, sobretudo nessas primeiras décadas do século XXI, a distopia se tornou uma ferramenta estética e política por meio da qual os medos latentes da sociedade são observados como se a partir de uma lente de aumento. E muitos são os medos, do que é prova a profusão de obras distópicas produzidas e consumidas nos mais diversos formatos e suportes. Em um cenário contemporâneo marcado por crises globais, o projeto de pesquisa “Novos mapas da esperança: figurações utópicas na distopia contemporânea” propõe uma investigação diferenciada sobre a ficção distópica do século XXI. Partindo da reflexão inicial elaborada por Kingsley Amis, mas invertendo seu eixo em 180º, a presente pesquisa propõe o seguinte: embora a distopia seja comumente associada a futuros sombrios e decadentes, o que se busca explorar aqui é sua capacidade de expressar preocupações sociais atuais e de oferecer vislumbres de esperança a partir desses cenários funestos. Dessa forma, o projeto desafia a visão predominante de que a distopia serve apenas para incutir medo. Em vez disso, ele se concentra nas figurações utópicas — estratégias de resistência, sobrevivência e agência — que emergem dentro dessas narrativas. Dialogando com pensadores contemporâneos como Ailton Krenak e Donna Haraway, a pesquisa busca “ideias para adiar o fim do mundo” e “fazer parentesco” em um mundo em crise, afastando-se do niilismo e do desespero comumente associados à ficção distópica. O projeto ora apresentado trata-se de uma continuidade do projeto homônimo, aprovado para o biênio 2025-2026, constituindo um segundo ciclo desta pesquisa em andamento, conforme explicado na sessão seguinte.
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