Projeto de pesquisa, UFAL
Coinfecção tuberculose/HIV no Brasil (2020-2024): perspectivas epidemiológicas, sociais e programáticas
Descrição
tuberculose/HIV como um importante problema de saúde pública no contexto brasileiro, considerando sua magnitude epidemiológica, seus determinantes sociais e os desafios relacionados à organização do cuidado e das políticas públicas no Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta parte do reconhecimento de que a tuberculose permanece entre as principais causas de morte entre pessoas vivendo com HIV em escala global e nacional, mantendo estreita relação com desigualdades sociais, vulnerabilidades estruturais e fragilidades na integração das ações de vigilância e assistência em saúde. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde apontam que, em 2023, aproximadamente 10,8 milhões de pessoas adoeceram por tuberculose no mundo, com registro de 1,25 milhão de óbitos relacionados à doença, configurando o maior número desde o início do monitoramento global em 1995. Entre os fatores associados a esse recrudescimento destacam-se os impactos da pandemia de COVID-19 sobre os serviços de saúde, as dificuldades de acesso ao diagnóstico e tratamento, o crescimento da tuberculose multirresistente e as persistentes desigualdades socioeconômicas. No cenário da coinfecção, estima-se que, em 2023, cerca de 660 mil pessoas apresentaram tuberculose associada ao HIV, sendo a região africana responsável por aproximadamente 70% desses casos. A literatura evidencia que pessoas vivendo com HIV apresentam risco significativamente maior de adoecimento e morte por tuberculose, além de maior vulnerabilidade às formas graves e resistentes da doença. No Brasil, estudos recentes demonstram que a coinfecção tuberculose/HIV permanece fortemente associada a contextos de vulnerabilidade social. Pesquisa realizada no Espírito Santo identificou predominância de casos entre homens (71%), adultos jovens de 20 a 39 anos (52%), pessoas pardas (59%) e indivíduos com baixa escolaridade. O estudo também evidenciou importantes marcadores de vulnerabilidade, como uso de álcool (29%), drogas ilícitas (26%) e tabagismo (37%). Em relação aos desfechos, apenas 44% dos casos evoluíram para cura, enquanto aproximadamente 20% abandonaram o tratamento. Outro estudo desenvolvido em um centro de referência do município de São Paulo identificou 745 casos de coinfecção entre 2007 e 2016, dos quais 76,6% ocorreram em homens e 67,8% em indivíduos de 30 a 49 anos. Embora tenha sido observada redução percentual dos casos ao longo do período analisado, os autores destacam que a coinfecção ainda apresenta elevada relevância epidemiológica e importantes desafios assistenciais, especialmente relacionados à mortalidade e à continuidade do cuidado. No estado de Alagoas, o cenário também revela aspectos preocupantes. Entre os anos de 2020 e 2024, dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) registraram 6.013 casos confirmados de tuberculose. Desse total, 829 casos foram identificados como coinfecção tuberculose/HIV, evidenciando a permanência da associação entre as duas doenças no território alagoano. Observa-se ainda uma tendência de crescimento dos casos de coinfecção entre os anos de 2021 e 2024, sendo o ano de 2024 responsável pelo maior número de notificações, com 244 casos, correspondendo a aproximadamente 29% do total registrado no período. Esses dados refletem não apenas a persistência epidemiológica da coinfecção, mas também os desafios sociais e programáticos que atravessam o cuidado em saúde, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais, dificuldades de acesso aos serviços e fragilidades na continuidade do tratamento. Além dos aspectos epidemiológicos, o projeto pretende discutir como a baixa escolaridade, racismo estrutural, estigma, as questões relacionadas ao gênero, dificuldades de acesso aos serviços e fragilidades na coordenação do cuidado contribuem para a persistência da coinfecção e para os desfechos desfavoráveis relacionados ao tratamento e à mortalidade. Também serão analisados os desafios programáticos relacionados à qualidade do cuidado, à integração entre os programas de tuberculose e HIV, à ampliação do diagnóstico oportuno e à implementação de estratégias de prevenção e adesão terapêutica. Ao integrar perspectivas epidemiológicas, sociais e programáticas, o estudo pretende produzir evidências capazes de subsidiar o fortalecimento das políticas públicas e da organização da rede de atenção à saúde no SUS, contribuindo para a redução das desigualdades em saúde e para o enfrentamento da coinfecção tuberculose/HIV no Brasil.
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