Projeto de pesquisa, UFAL
Cronodisrupção e saúde mental: desdobramentos translacionais do modelo de fotoperíodo transicional no suicídio e no puerpério
Descrição
O comportamento suicida é uma das principais causas evitáveis de mortalidade no mundo e mantém trajetória ascendente sustentada no Brasil ao longo das últimas duas décadas. Uma síntese recente da literatura conduzida pelo nosso grupo (de Andrade et al., 2026a) identifica a cronodisrupção como fator de vulnerabilidade transdiagnóstico para a crise suicida, articulando elementos distais (polimorfismos em genes do relógio, cronotipo vespertino) a gatilhos proximais (fotoperíodo, luz à noite, jet lag social, transições crepusculares). A presente proposta organiza essa hipótese geral em três frentes complementares de investigação. O primeiro eixo, populacional, caracteriza o perfil diurno dos óbitos consumados por suicídio no Brasil entre 2010 e 2019, a partir dos microdados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, com aplicação de Cosinor, MetaCycle JTK e análise espectral, e quantificação dos ângulos de fase entre as acrofases observadas e os zeitgebers solares de referência. O segundo eixo, molecular, estima a fase circadiana de diferentes regiões cerebrais em dados transcriptômicos públicos provenientes de indivíduos com histórico de suicídio e seus respectivos controles, mediante algoritmos de inferência temporal, e quantifica os ângulos de fase intercerebrais como medida de dessincronização interna. O terceiro eixo, clínico-perinatal, investiga marcadores de cronodisrupção no puerpério, período de elevada vulnerabilidade psiquiátrica e de risco aumentado de depressão pós-parto em puérperas. A articulação das três frentes sob um mesmo arcabouço teórico permite triangular evidência em escalas distintas (populacional, molecular e clínica), tornando o projeto particularmente robusto à validação cruzada de hipóteses comuns. Esperam-se, como produtos integrativos, a primeira caracterização nacional sistemática da arquitetura temporal do suicídio consumado no Brasil, a primeira estimativa em dados humanos do grau de dessincronização interna entre regiões cerebrais associada ao comportamento suicida, e a delimitação de janelas temporais de vulnerabilidade no puerpério, com implicações para a vigilância epidemiológica e para a cronoterapia preventiva. Esta proposta está vinculada ao projeto “Modelagem in vivo de variações sazonais no comportamento suicida: tomada de decisão e análise circadiana de vias neuronais alteradas em fotoperíodo transicional”, financiado pelo CNPq, o qual estabeleceu o modelo experimental de cronodisrupção induzida por fotoperíodo transicional, com alterações comportamentais, moleculares e de fase circadiana em regiões cerebrais associadas ao comportamento suicida. A presente proposta expande essa linha para três eixos complementares em humanos — epidemiológico, transcriptômico e clínico-perinatal — utilizando o mesmo arcabouço teórico de dessincronização circadiana interna como mecanismo de vulnerabilidade em saúde mental.
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