Projeto de pesquisa, UFAL
Experimentos de pensamento e metáforas na confluência entre filosofia e ciência
Descrição
Este projeto pretende realizar um estudo interdisciplinar entre os campos da Filosofia e da Ciência, através da análise sobre o uso que estas áreas fazem de um instrumento teórico chamado “experimento de pensamen-to”. Mais precisamente, pretendemos focar nossas investigações sobretudo na questão de como o conheci-mento teórico pode ser veiculado através dos experimentos de pensamento e também de outro recurso, mui-tas vezes confundido com ele, a saber, as metáforas. Os experimentos de pensamento, ou experimentos mentais, estão presentes na história da Filosofia desde a Antiguidade, mas ganham notável interesse apenas no período contemporâneo. Por ser um elemento presente em diversas áreas do saber (Newton e Einstein, mas também Aristóteles e Galileu eram conhecidos “experi-mentadores do pensamento”), é difícil apresentar uma definição do termo que contemple os diferentes usos que dele são feitos nestas diferentes disciplinas. No entanto, podemos compreendê-lo como sendo um recur-so teórico que auxilia na explicação de uma tese ou conceito de difícil compreensão, através da construção de um cenário imaginário, fictício, que descreva o problema teórico em questão de maneira lúdica, visual e di-nâmica. Assim, temos que tanto a chamada Alegoria da Caverna platônica pode ser vista como uma experi-mentação mental que constrói um cenário facilitador das teses de Platão, como também, de maneira similar, o experimento da Torre de Pisa idealizado por Galileu para demonstrar a tese sobre a aceleração na queda dos corpos foi o elemento que lhe permitiu “mostrar” que os corpos caem na mesma velocidade no vácuo, já que isso não poderia ser demonstrado de maneira factual, na época. Época mesma em que o saber hoje dito “cien-tífico” era legado à esta disciplina chamada de Filosofia Natural. O ponto de interesse aqui é o fato de que, mesmo o experimento mental possuindo instâncias desde o surgimento da filosofia ocidental, os estudos so-bre seu modo de “atuação” e sua função específica dentro das teorias permanece obscuro e é muitas vezes confundido com uma metáfora, outro recurso muitas vezes relegado ao âmbito da linguística ou da retórica, mas que possui elementos interessantes relacionados à sua capacidade de atuar em nosso processo de apren-dizado e conhecimento. Neste contexto, nosso projeto visa estabelecer uma nova chave de leitura para este elemento tão correntemen-te utilizado na especulação científica e filosófica, a saber, o uso da ficção através do recurso do experimento de pensamento ou da metáfora. Neste ponto, nossa investigação também abre as portas para a interdisciplina-ridade, já que, uma vez o experimento mental e as metáforas representando este esforço imaginativo para elaborar uma narrativa visual mental que auxilie na investigação teórica, se torna importante questionarmos igualmente em que medida um tipo especial de corrente literária, a saber, a ficção científica, não representaria ela também um recurso epistemológico facilitador na compreensão de teses científicas e filosóficas. O projeto propõe partir de uma análise teórica das sistematizações contemporâneas a respeito dos experimen-tos mentais, i.e. o estudo da “taxonomia” feita pelo autor James Robert Brown (1991), que classifica os expe-rimentos de pensamento de acordo com a função que estas narrativas imaginadas desempenham em uma da-da teoria. A partir dessa base teórica a respeito do estatuto filosófico e do uso sistemático de experimentos mentais por disciplinas como a Filosofia, mas também a Física e demais ciências naturais, pretendemos avali-ar exemplos de textos – filosóficos, literários e científicos – onde o uso de experimentos mentais sugere um apagamento das fronteiras que demarcam estes campos, apontando para a tão valiosa interdisciplinaridade e abertura entre os saberes. Quanto às metáforas, caberá explorar em que medida estas diferenciam-se dos ex-perimentos mentais enquanto instrumentos metodológicos e, para isso, nos serviremos sobretudo das teorias propostas por Lakoff & Johnson (1980;1999) a respeito do papel fundamental do discurso metafórico não apenas para nossa linguagem científica e cotidiana, mas para nossa própria compreensão do mundo. Assim, a partir destas articulações teóricas, revelando as aproximações, mas também as tensões entre a pro-dução filosófica, científica e literária, buscaremos demonstrar a relevância e a eficácia das narrativas imaginá-rias envolvidas nos experimentos mentais e nas metáforas para alargar o alcance epistêmico das teses às quais elas estão vinculadas. Este esforço corrobora a necessidade de se pensar outros modos possíveis de se “con-tar” teorias, de se “veicular” o saber teórico para além dos textos formais, muitas vezes obscuros ou mesmo herméticos. Por outro lado, visaremos tornar explícitos os benefícios em se cultivar, tanto na pesquisa quanto no ensino de Filosofia, a abertura para outros campos do saber, como o científico e o literário ou artístico, somando forças para tornar o saber acadêmico/formal mais acessível, mais presente e tangível também para a comunidade em geral.
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