Projeto de pesquisa, UFAL
Às margens da fé e nos confins da humanidade: a representação bestial dos heréticos na exegese hispânica do Apocalipse na Alta Idade Média.
Descrição
O projeto propõe ampliar a pesquisa desenvolvida no ciclo PIBIC 2025/2026, voltada à análise de como a tradição exegética do Apocalipse mobilizou o saber sobre os animais na defesa da ortodoxia e na refutação de doutrinas divergentes. Para tanto, será incorporado ao corpus documental o Comentário ao Apocalipse de Apríngio de Beja, redigido no século VI. Produzida na Península Ibérica, a obra de Apríngio exerceu influência decisiva, em termos estruturais, textuais e doutrinários, sobre parcela significativa da tradição exegética hispânica. Diversas passagens do comentário beatiano, por exemplo, retomam quase literalmente formulações presentes nesse texto, o que atesta não apenas sua circulação, mas também a autoridade hermenêutica que lhe foi conferida no interior da cultura cristã ibérica alto medieval. Tal prestígio é igualmente corroborado pelo testemunho de Isidoro de Sevilha, que reconhecia em Apríngio um exegeta dotado de profundo domínio das Escrituras e dos procedimentos interpretativos vigentes em seu tempo. O Comentário ao Apocalipse de Apríngio insere-se na tradição exegética consolidada a partir da leitura do donatista Ticônio, segundo a qual cada passagem do Apocalipse comporta um significado eclesiológico. Essa perspectiva interpretativa permitiu ao autor elaborar uma leitura do texto bíblico voltada à defesa da ortodoxia nicena. Seu comentário distancia-se das interpretações literalistas e milenaristas do Apocalipse e aproxima-se das tendências espirituais e alegóricas desenvolvidas por comentaristas latinos anteriores. É preciso ter presente que as representações do fim dos tempos exerceram papel decisivo na construção das categorias de ortodoxia e heresia no cristianismo tardo-antigo. Desde os primeiros séculos, a expectativa sobre o juízo final e a consumação da história serviu como critério para distinguir doutrinas consideradas verdadeiras daquelas classificadas como falsas. As divergências interpretativas em torno do Apocalipse — simbólicas, espirituais ou literais — frequentemente alimentaram acusações de erro doutrinal e mecanismos de exclusão religiosa, como ocorreu nos debates envolvendo montanistas e gnósticos (NORELLI, 2022). Os comentários dedicados ao livro do Apocalipse de João assumem, portanto, especial relevância no processo de construção da relação entre ortodoxia e heresia, uma vez que a tradição de leitura dessa escritura bíblica, entre os séculos II e XI, foi marcada por interpretações eclesiológicas que situaram o texto no centro das controvérsias doutrinais. O comentário bíblico constituiu, nesse sentido, um gênero fundamental para a formação clerical e para a defesa da “verdadeira fé”, já que as heresias eram frequentemente compreendidas pelos autores cristãos como resultado de interpretações equivocadas das Escrituras. É nesse horizonte que se insere o interesse desta pesquisa pelas representações animais presentes na tradição exegética do Apocalipse. Figuras como bestas, serpentes e dragões foram associadas, pelos comentaristas cristãos, àqueles considerados desviantes da fé — hereges, cismáticos, falsos profetas e pecadores. Interessa compreender de que modo a tradição exegética hispânica desse livro bíblico mobilizou representações animais na construção discursiva da ortodoxia e na definição da alteridade herética. Ao incorporar ao corpus documental o Comentário ao Apocalipse de Apríngio de Beja (século VI), somando-se ao texto do Beato de Liébana (século VIII), já examinado na pesquisa desenvolvida no ciclo PIBIC 2024/2025, buscamos ampliar nossa investigação acerca dos usos e as apropriações do saber sobre os animais na tradição exegética hispânica medieval. Pretende-se analisar de que modo as imagens bestiais presentes no Apocalipse foram reinterpretadas pelos comentaristas cristãos na construção de discursos de autoridade, exclusão e defesa da fé ortodoxa. A escolha de comentários produzidos em momentos distintos da história da Igreja hispânica permite investigar simultaneamente permanências e transformações na tradição exegética ligada ao Apocalipse. A comparação entre essas obras torna possível observar a circulação e a continuidade de repertórios textuais, simbólicos e teológicos associados às representações animais herdadas da Antiguidade tardia, bem como as diferentes formas pelas quais esses elementos foram apropriados em contextos históricos específicos. Desse modo, o recorte temporal adotado possibilita compreender como a Igreja, em distintas conjunturas políticas, sociais e religiosas da Península Hispânica, reelaborou continuamente seus mecanismos de definição da ortodoxia e de combate às heresias. Mais do que simples repetições de uma tradição textual, os comentários revelam atualizações discursivas que evidenciam as mudanças nas preocupações doutrinais e nas estratégias de legitimação da autoridade cristã ao longo do tempo. Nossa investigação será desenvolvida em duas etapas. Na primeira, voltaremos nossa atenção ao Comentário ao Apocalipse de Apríngio de Beja, com o objetivo de investigar os usos do léxico animalesco na construção da figura do herético. A proposta consiste em articular essas informações àquelas já levantadas na etapa anterior da pesquisa (PIBIC 2025/2026), a propósito da obra de Beato de Liébana, a fim de compreender as transformações e permanências na elaboração argumentativa relativas ao problema das heresias. Na segunda etapa, em continuidade à investigação sobre a obra de Beato de Liébana, voltaremos nossa atenção para as iluminuras do códice do mosteiro de Lorvão (1189). Pretende-se examinar como duas práticas culturais que se articulam nesse manuscrito iluminado — a escrita e a imagem — atuaram na formulação de uma representação de mundo voltada à defesa de uma fé cristã tida como “correta”, bem como compreender de que modo os animais integram essa construção discursiva. A relação entre escrita e imagem exige atenção aos usos e às práticas que envolvem essas atividades. Partindo do pressuposto formulado por Jérôme Baschet, segundo o qual a imagem deve ser compreendida como imagem-objeto — isto é, em sua materialidade, em sua inserção espacial e nas formas de poder e autoridade que a ela aderem —, tomaremos como fio condutor da análise os sentidos atribuídos a esse objeto cultural pela sociedade que o produziu. Interessa-nos compreender quais práticas de escrita e leitura envolveram a produção do códice; qual era o estatuto de autoridade da palavra escrita e da imagem; quais efeitos de sentido decorriam das formas de circulação e recepção da obra; e como a comunidade se relacionava com esse manuscrito. As imagens presentes no códice levam-nos a investigar como as representações animais mobilizadas pela exegese apocalíptica se estruturam nos arranjos figurativos das iluminuras e, sobretudo, como essas imagens reelaboram representações animais construídas pela tradição exegética escrita. Isso porque, tanto em seu aspecto material quanto semântico, a imagem pode concordar com o texto, mas também dele se distanciar e produzir, dialeticamente, novos significados. Portanto, será necessário observar os aspectos materiais da inserção das miniaturas na página: sua estrutura composicional, o arranjo relativo entre figuras humanas e animais, suas dimensões e gestualidades, a escolha e a distribuição das cores, os modos de inscrição da escrita na imagem e, inversamente, as relações estabelecidas entre texto e imagem. Cumpre ainda considerar que a produção de um códice — compreendido em sua dimensão textual e imagética — constitui um processo marcado por constantes transações entre a obra e o mundo social. Desse modo, não se deve dissociar a análise das significações simbólicas das formas materiais que as veiculam. A percepção do social não ocorre de maneira neutra, mas por meio da construção de estratégias e práticas religiosas, escolares e políticas. Por fim, um elemento central desta investigação reside no fato de que o próprio termo “heresia” passou por um processo histórico que o transformou em sinônimo de divisão doutrinal, revelando como, no cristianismo nascente, a noção de escolha — primeiro significado do termo grego hairesis — foi progressivamente associada à ideia de ruptura com a verdade e com a comunhão eclesial. Esse deslizamento semântico expressa uma transformação profunda na relação entre liberdade de pensamento e autoridade doutrinal. Como destaca Norelli (2022), o conceito de heresia estruturou-se como parte constitutiva do processo de formação da identidade cristã, no qual a distinção entre “verdadeira fé” e “doutrina falsa” tornou-se elemento central na definição da comunidade. É nesse contexto que o comentário bíblico, enquanto gênero literário, assume papel decisivo, uma vez que intervém nas disputas doutrinais e nas polêmicas que atravessam os diferentes posicionamentos ideológicos da sociedade medieval.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.