Projeto de pesquisa, UFAL
Escuta Conexa: Plataformas Digitais, Corporeidades, Territorialidades e Narrativas Culturais
Descrição
O presente projeto propõe uma abordagem interdisciplinar para a análise da música em ambientações digitais a partir de uma articulação entre os estudos de plataforma (D’ANDRÉA, 2020; POELL; NIEBORG; VAN DIJCK, 2020; WATSON; LEYSHON, 2022; ZHANG; NEGUS, 2021) e das redes sociotécnicas (DE SÁ, 2014; PIRES, 2019b) que conformam as escutas musicais contemporâneas (JANOTTI JR, 2020). Vários pesquisadores vêm discutindo ao longo dos últimos anos como as plataformas digitais têm atuado de forma decisiva no segmento musical e como essa agência tem transformado, por exemplo: a) as práticas produtivas do mercado da música (JÚNIOR, 2021; PIRES; JANOTTI JR, 2022; RIOM, 2023); b) a produção de shows musicais ao vivo (ARRUDA; CONTER; PIRES, 2021; GUTMANN; DALLA VECCHIA, 2022; PIRES, 2019a; PIRES; JANOTTI JR, 2021; PIRES; SOARES, 2022); c) os modos como valorizamos as playlists e a curadoria musical (JANOTTI JR, 2020; SANTOS, 2020); c) os modos como produtores vendem ingressos para shows e festivais de grande demanda (BEHR; CLOONAN, 2020; HOLMSTROM, 2019; KUSHNER, 2022; PIRES, 2023a); d) a vivência de temporalidades distintas e diferentes regimes de simultaneidade (HUI, 2021; PIRES, 2021, 2023b). O eixo fundante do presente projeto é pensar as dinâmicas, práticas e produtos do universo da música como materialidade dos processos comunicacionais. Ou seja, pensando o campo musical de maneira ampla e complexamente mediada, bem como suas implicações sociais, econômicas e políticas, como redes que articulam diferentes agentes e contextos (BORN, 2005; PIEKUT, 2014). Assim, procura-se entender em que medida essas articulações apontam para transformações nos modos de produção, circulação e consumo da música e dos produtos culturais contemporâneos. A proposta parte da noção de escuta conexa (JANOTTI JR, 2020), entendida como uma prática relacional que articula múltiplos dispositivos, sujeitos, contextos e mediações, deflagrados a partir do ato de ouvir música. Ao considerar os atravessamentos de corporeidades, territorialidades e narrativas midiáticas, propõe-se investigar como a escuta musical contemporânea é condicionada e tensionada por essas mediações, que operam tanto no ambiente digital quanto nos espaços urbanos, nos corpos em performance e nas formas de narrar a cultura musical em veículos especializados e mídias sociais. Se nos últimos anos as pesquisas se dedicaram a compreender as transformações operadas pelas plataformas digitais na produção, circulação e consumo musical — destacando o papel dos algoritmos, das playlists e dos regimes de simultaneidade mediados pela conectividade — este projeto pretende dar continuidade a essas reflexões, mas propondo deslocamentos. A intenção é incorporar, também, os agenciamentos operados pelas experiências corporais e situadas de escuta, pelas mediações territoriais (como festas, shows e ocupações urbanas) e pelos discursos jornalísticos e culturais que atribuem valor e organizam sentidos no campo musical. Ao adotar uma perspectiva comunicacional e relacional, o projeto propõe pensar conjuntamente: a) as práticas de mercado e seus modelos de negócio; b) os usos sociais e as affordances das plataformas digitais; c) os regimes de simultaneidade e temporalidades construídas em rede; d) as mediações corporais, espaciais e discursivas que configuram formas específicas de escuta musical; e) as narrativas do jornalismo cultural e seu papel na legitimação e consagração de determinadas práticas e gêneros musicais.
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