Projeto de pesquisa, UFAL
Garotas que debatem: um estudo comparativo sobre as capacidades deliberativas de adolescentes
Descrição
O presente projeto compõe uma pesquisa nacional, iniciada no final de 2025, que investiga como estudantes do ensino médio de Alagoas, Sergipe e Minas Gerais deliberam em diferentes situações, com foco nas variáveis gênero, tema, região e modalidade — seja de modo presencial ou online. A pesquisa tem atualmente dois financiamentos: (1) da Fundação de Apoio à Pesquisa e Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (FAPITEC), oriundo do Programa Meninas nas Ciências (Edital nº 13/2025); e (2) da Chamada Interna PROPEP Ufal – bolsa de mestrado -, oriunda da Chamada Pública CNPq nº 12/2025 - Programa Institucional de Bolsas de Pós-Graduação (PIBPG), ciclo 2025-2026. A proposta parte da constatação de que a presença de mulheres na política ainda é um tema que enfrenta muitos desafios. Mesmo que haja um discurso em prol da igualdade de gênero na liderança política, dados recentes divulgados pela União Interparlamentar (UIP) e ONU Mulheres em 2025 demonstram que, na prática, a mudança ainda é muito limitada. No caso brasileiro, a baixa representação parlamentar de mulheres evidencia a permanência de desigualdades históricas que se reproduzem nos espaços de participação, decisão e poder. Nesse sentido, a construção da compreensão da política como um espaço para todas e todos precisa ser trabalhada na adolescência, considerada uma fase da vida na qual esse público começa a construir sua percepção política e se aproxima da idade em que já é possível exercer o direito ao voto. Partimos da premissa de que a relação que as(os) adolescentes estabelecem com a política e com os processos de debate e participação também é fruto de dinâmicas sociais, culturais e comunicacionais, muitas vezes marcadas por discursos que homogeneízam as juventudes, diminuem suas agências e naturalizam a falta de interesse dessa faixa etária nos processos políticos, recaindo sobre as garotas tanto o critério geracional quanto o de gênero. A pesquisa se situa no campo da Comunicação e Política, mais especificamente nos estudos sobre deliberação democrática, participação política juvenil, gênero e interações em ambientes digitais. Trata-se de uma perspectiva que incorpora valores da democracia deliberativa, como igualdade de participação, reciprocidade, valorização do melhor argumento e busca do interesse público/ bem comum. Por capacidades deliberativas, entendemos habilidades e competências que permitem aos participantes fornecer justificativas, envolver-se reciprocamente com os pontos de vista uns dos outros, tratar os interlocutores com respeito mútuo e estar abertos à inclusão de outros temas, visões e perspectivas em discussão. Compreender as formas e os fatores que intervêm nas discussões políticas presenciais e online é ainda mais importante quando se trata de adolescentes e jovens em processo de formação política; isto porque, a médio e longo prazo, é a cultura deliberativa dessa geração que tende a modelar o debate público. Trata-se de uma geração amplamente conectada, mas que nem sempre percebe a internet como espaço para participação política ou debate sobre temas de interesse público. Além disso, pesquisas anteriores desenvolvidas pela equipe – “Entre tretas e lacrações: um estudo sobre a participação dos jovens em debates políticos online” (2024-2025) e “Letramento transmídia em contextos formais de aprendizagem: Um estudo comparativo dos adolescentes brasileiros” (2023-2025) – indicam que garotas demonstram interesse em participar de discussões políticas, sobretudo quando inseridas em ambientes percebidos como horizontais, respeitosos e inclusivos. A pesquisa adota uma abordagem metodológica baseada na short-term ethnography (Pink; Morgan, 2013), que prevê incursões curtas e intensas junto às comunidades e grupos investigados. A coleta de dados vem sendo realizada em escolas de Sergipe e Minas Gerais desde o início do ano, junto a estudantes da segunda e terceira séries do ensino médio. Em Alagoas, a pesquisa será conduzida pelo Laboratório de Estudos em Tecnologia e Sociedade (LETS), vinculado ao curso de Jornalismo da UFAL, tendo como espaços de realização das etapas de campo o Instituto Federal de Alagoas (IFAL), Campus Maceió (no Centro), e o IFAL, Campus Murici. Pretendemos, ao selecionar adolescentes de duas escolas, diversificar a amostra tentando abarcar características do interior do Estado que possam ser intervenientes na participação (ou não) das mulheres na política. O desenho metodológico prevê a aplicação de questionários, sessões deliberativas presenciais, debates online via grupos de WhatsApp e entrevistas individuais semiestruturadas. Em cada escola são formados dois grupos, um composto apenas por garotas e outro misto, formado por garotos e garotas, a fim de isolar a variável gênero. Para cada grupo, conduzimos experiências de deliberação presenciais e online, com temas de interesse público suficientemente controversos para gerar debate, contemplando tanto pautas identitárias e sociais quanto temas ligados à política institucional/partidária. As sessões de deliberação são estruturadas em três momentos: informação, discussão livre e tomada de decisão. A etapa de informação é fundamental para que o debate possa se desenvolver com orientações para a prática deliberativa consciente, a partir de dados, evidências e exemplos amplamente reconhecidos, além das opiniões e experiências pessoais dos participantes. A pesquisa também incorpora atividades lúdicas, por meio do jogo didático “Que Perfil é Esse?”, criado pelo Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública (EME) da UFMG. Os dados coletados serão analisados seguindo o método DTM (Deliberative Transformative Moments) — Momentos Transformadores da Deliberação —, tipo de análise de conteúdo desenvolvido por Steiner (et al., 2017). Trata-se de uma abordagem qualitativa criada para captar a natureza dinâmica dos debates em pequenos grupos, observando o efeito de cada proferimento sobre o fluxo da interação: se aproxima ou se afasta das normas deliberativas de inclusão, respeito, reciprocidade e troca de razões. Com essa abordagem, será possível identificar quais comportamentos discursivos levam a mudanças no fluxo da discussão, mapeando tendências de avanço ou deterioração da qualidade deliberativa. Além de contribuir para o avanço das pesquisas sobre deliberação democrática, juventudes, gênero e participação política, o projeto pretende produzir subsídios para políticas públicas voltadas à educação política e midiática de adolescentes. Entre os resultados esperados estão a produção de artigos científicos, apresentação em eventos acadêmicos, elaboração de um documento com recomendações para políticas públicas e ações de divulgação científica em diferentes plataformas. O projeto também fortalece a articulação entre graduação e pós-graduação, promovendo a formação de bolsistas de iniciação científica em atividades de pesquisa, análise de dados, produção científica e divulgação dos resultados. Além do LETS, a pesquisa em rede envolve a Universidade Federal de Sergipe (UFS), por meio do grupo Contempo – Comunicação, Tecnologias e Política, liderado pela professora Tatiana Güenaga Aneas; e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por meio do Grupo de Pesquisa em Mídia e Esfera Pública (EME), liderado pela professora Rousiley Maia. Essas articulações fortalecem a cooperação interinstitucional e a produção científica especialmente em torno dos estudos sobre deliberação democrática, juventudes e gênero.
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