Projeto de pesquisa, UFAL
Arte e psicopatologia na obra de Jean Martin Charcot: o problema do diagnóstico retrospectivo
Descrição
Nos últimos anos de sua vida, entre 1887 e 1892, Jean-Martin Charcot, eminente professor da escola da Salpêtrière e um dos fundadores da psiquiatria, dedicou três obras ao estudo das relações entre arte e doença, avançando notadamente no campo das obras religiosas que retratavam possessões demoníacas, mas também deformidades em geral. O intuito dessas obras era o de investigar possíveis relações entre os fenômenos retratados nas artes plásticas e quadros nosológicos descritos pela medicina de fins do século XIX. Neste contexto, o autor dedicou-se especialmente à associação entre histeria e possessão demoníaca, tendo em vista os gestos típicos que ele encontra nas pinturas dessas possessões e o que via no dia a dia do hospital, em seu contato com pacientes histéricos. Esta prática de análise de patologias por meio da arte pode ser pensada, no quadro da epistemologia positivista da época, a partir do que Émile Littré denominou "diagnóstico retrospectivo", operador teórico largamente utilizado nas três obras que constituem o objeto de nossa investigação, e que depois será também incorporado no pensamento freudiano. O objetivo desta pesquisa é catalogar e analisar em detalhes as fontes artísticas e teóricas convocadas por Charcot para a construção de seus trabalhos, bem como investigar os modos de articulação entre essas obras e os operadores teóricos utilizados para interpretá-las, sobretudo a histeria. Esta pesquisa faz parte de um projeto de tradução das três obras mencionadas e tem a intenção de compor um panorama detalhado da relação entre arte, ciência e religião, dentro do escopo da psiquiatria nascente do século XIX, o que tem fundamental importância na história da psicologia, tendo em vista o lugar central que a escola da Salpêtrière ocupou nos primórdios da psicologia clínica.
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