Projeto de pesquisa, UFPE
A neurose brasileira: as implicações da democracia racial nas subjetividades negras
Descrição
O meu projeto promove um diálogo entre a psicanálise e a filosofia com vistas a compreender certas questões raciais. Ele tem um duplo foco: por um lado, esboçar os principais vetores que poderiam caracterizar a neurose racial no seio do pensamento de algumas teóricas brasileiras; por outro, investigar como a neurose racial incide nos processos de subjetivação das pessoas negras com o discurso da democracia racial. A minha tese é de que a psicanálise produzida por pensadoras negras, referenciadas ao longo do projeto, aponta para a anterioridade subjetiva do racismo na formação da neurose das pessoas negras, e esta, por sua vez, está no centro dos processos de subjetivação destas pessoas, e impacta diretamente o relato por meio do qual essas pessoas negras se percebem em suas respectivas singularidades. A minha hipótese é de que a noção de democracia racial aprofunda a neurose racial, porque constrange as pessoas negras a um processo de culpabilização; como se o processo de segregação econômica e social que as pessoas negras sofrem fosse um problema individual. Para dialogar com essa tese, seguirei uma investigação das obras de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista, cujos textos estão entre alguns dos mais influentes na literatura sobre o tema, com vistas a apontar que o cerne que elas guardam em comum é apostar que a neurose no Brasil não pode ser compreendida sem o recorte da racialidade e do gênero. Ressalta-se, contudo, que o presente projeto se voltará mais às questões de raça do que de gênero, e sobre como a neurose racial impacta de modo geral nas subjetividades negras na forma específica da democracia racial. Resumo do Projeto Objetivo central O projeto estabelece um diálogo entre psicanálise e filosofia para investigar como a democracia racial – ideologia de um suposto paraíso racial no Brasil – impacta os processos de subjetivação de pessoas negras, aprofundando o que o pesquisador chama de neurose racial. Tese principal Pensadoras negras brasileiras (Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Neusa Santos Souza e Isildinha Baptista) apontam que o racismo é anterior à constituição edípica na formação da subjetividade negra. A neurose racial está no centro desses processos e é agravada pela democracia racial, que individualiza a culpa pela exclusão social e econômica. Hipótese A democracia racial aprofunda a neurose racial ao fazer com que pessoas negras se sintam culpadas por sua própria segregação, como se o problema fosse individual e não estrutural. O ideal do ego, na psicanálise freudiana, é racialmente branco – o que gera frustração, inibição, autodepreciação e, em casos extremos, pulsões autodestrutivas. Referencial teórico O projeto se ancora em autoras negras brasileiras e em Frantz Fanon (especialmente os conceitos de sociogênese e crítica ao Édipo), contrapondo-se à pretensa universalidade da psicanálise freudiana. Propõe-se uma revisão racial de conceitos psicanalíticos como ideal do ego, neurose e melancolia. Metodologia e produção esperada Levantamento sistemático das obras das quatro pensadoras. Redação de três artigos e um livro (título provisório: A democracia racial: a produção da neurose brasileira). Orientações de IC, TCC, mestrado, doutorado e pós-doutorado. Atividades de extensão (ex.: projeto Racismo Estrutural e Interdisciplinaridade). Atuação em coletivos clínicos (Rede de Escutas Marginais, Pontes da Psicanálise – Recife). Contribuições esperadas Para a teoria psicanalítica: refundar suas bases epistêmicas a partir da raça, mostrando os limites da branquitude em conceitos centrais. Para a clínica: fomentar uma prática antirracista que acolha a singularidade de pessoas negras sem violência epistêmica. Para a filosofia e o debate público: fortalecer o pensamento negro brasileiro, combater o epistemicídio e ampliar a presença de pessoas negras na academia (o pesquisador é presidente da ANPOF e criou o GT Filosofia e Raça). Palavras-chave racismo, filosofia, psicanálise, negritude, subjetividade.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.