Projeto de pesquisa, UFPE
PROGRAMA DE AUTORREGULAÇÃO MEDIADO POR CHATBOT PARA ADOLESCENTES ADICTOS À MÍDIAS SOCIAIS: DESENVOLVIMENTO E VALIDAÇÃO
Descrição
A adicção à mídia social refere-se ao uso disfuncional de plataformas online, caracterizado pelo desejo excessivo e descontrole de uso, que resultam em prejuízos significativos na vida do indivíduo. Embora termos como "uso problemático de mídias sociais" sejam empregados na literatura, a presente investigação adota a expressão "adicção à mídias sociais", considerando as evidências empíricas que sustentam a utilização do termo, identificando como usuários adictos aqueles que manifestam desejo excessivo de utilizar plataformas online, com dificuldade de regular o uso, ainda que o comportamento possa impactar negativamente seus estudos, trabalho e relações sociais. Para assegurar coerência metodológica, adotam-se os seis critérios propostos por Griffiths (2005) como referência para a identificação da adicção às mídias sociais: saliência, modificação de humor, tolerância, conflito com outras atividades, abstinência e recaída. Atualmente, não há uma compreensão holística sobre o desenvolvimento da adicção às mídias sociais, o que dificulta a elaboração de práticas preventivas e de intervenção. Diante desse cenário, a presente investigação adota o modelo Interaction of Person-Affect-Cognition-Execution (I-PACE) como referencial teórico para a compreensão da adicção a mídias sociais, considerando sua consistência empírica e seu alinhamento com os objetivos propostos. De acordo com o modelo I-PACE, o comportamento adictivo resulta da interação de características centrais de uma pessoa, com variáveis moderadoras e mediadoras, como respostas afetivas e cognitivas a condições emocionais ou externas e função executiva. Em uma relação dinâmica e gradual, esses aspectos contribuem para que decisões cognitivamente controladas se tornem aparentemente automáticas e compulsivas, por meio de mecanismos de condicionamento de gratificação e de compensação. O desenvolvimento e manutenção da adicção é compreendido em caráter processual, evoluindo de comportamentos antes voluntários em hábitos compulsivos. O primeiro grupo de variáveis que compõem o I-PACE refere-se às vulnerabilidades individuais, subdivididas em aspectos disposicionais gerais (constituição biopsicológica, experiências adversas, condições psicopatológicas, traços de personalidade e estilos de enfrentamento) e aspectos disposicionais específicos de comportamento. O segundo conjunto de variáveis corresponde aos fatores moderadores e mediadores, ou seja, aos componentes afetivo, cognitivos e de execução subjacentes à tomada de decisão em situações específicas. Com base no modelo neurobiológico de sistemas duplos, o I-PACE conceitua que a decisão de se engajar em um comportamento específico é guiada por um sistema impulsivo e um sistema reflexivo. Tendo em vista que esses componentes estão incluídos no ciclo interno da dependência, seus mecanismos divergem a depender do estágio do comportamento adicto. No estágio inicial, as respostas afetivas e cognitivas são fortemente influenciadas pela necessidade de recompensas imediatas e por estilos de enfrentamento predominantemente maladaptativos, como a busca de alívio rápido para estados emocionais negativos, sendo o sistema de recompensa cerebral ativado, gerando sensações de prazer ou gratificação que favorecem a repetição do comportamento. Com o tempo, em estágios mais avançados, as respostas passam a ser influenciadas fundamentalmente pelo viés atencional e por pistas situacionais, mecanismos automáticos que reduzem o controle inibitório específico, tornando o indivíduo mais vulnerável ao comportamento compulsivo mesmo diante de consequências negativas. O presente estudo tem como objetivo geral desenvolver e validar um programa de treinamento em autorregulação, mediado por Chatbot, para fortalecer as Funções Executivas e reduzir os sintomas de adicção à mídias sociais em adolescentes. Como objetivos específicos, busca-se desenvolver e validar um Chatbot específico para adolescentes adictos à mídias sociais; desenvolver um programa de intervenção, mediado por Chatbot, com foco no aprimoramento da autorregulação; investigar evidências de validade de conteúdo e aparente do programa, por meio da análise de juízes especialistas e da avaliação semântica pelo público-alvo; e analisar a validade com base na relação com variáveis externas e a eficácia do programa, a partir da comparação dos níveis de autorregulação, funções executivas e adicção antes e após a intervenção. O estudo adotará um delineamento quantitativo, transversal e correlacional, de natureza explicativa, inserindo-se na matriz epistemológica nomotética e quantitativa, voltada à testagem empírica de hipóteses. A execução do projeto acontecerá em três etapas. O Estudo 1 consistirá no desenvolvimento e validação de conteúdo do chatbot Reflex, dividido em três fases: aprofundamento teórico sobre o tema para estruturar o comportamento do chatbot a partir de um arcabouço teórico previamente definido; construção da versão preliminar do chatbot, estruturada a partir do modelo teórico de autorregulação emocional e comportamental fundamentado na distinção entre funções executivas frias e quentes; e análise da ferramenta por juízes especialistas, utilizando o Índice de Validade de Conteúdo (IVC-I e IVC-S) para verificar se a estrutura e respostas estão adequadas à teoria proposta. O chatbot será treinado para reconhecer padrões linguísticos relacionados a estados de desregulação e responder dentro das funções previstas pelo modelo interventivo, conduzindo o adolescente à identificação da situação, reconhecimento emocional, monitoramento cognitivo, pausa reflexiva e reavaliação e tomada de decisão. O Estudo 2 consistirá na construção e validação interna do programa de intervenção, realizado em quatro etapas: aprofundamento teórico por meio de uma revisão sistemática sobre intervenções em Funções Executivas; desenvolvimento preliminar da estrutura do programa, que seguirá uma sequência estruturada de quatro etapas principais (apresentação de situação-problema relacionada ao uso de mídias sociais, dinâmica de consciência cognitiva e emocional, interação com o Chatbot, discussão e reflexão em grupo); análise por juízes especialistas; e análise pelo público-alvo, com adolescentes que atendam aos critérios de inclusão (faixa etária de 13 a 18 anos, cursando o Ensino Médio, possuir dispositivo móvel próprio e conta ativa em mídia social). Na análise pelo público-alvo, serão utilizados o questionário sociodemográfico e a Bergen Social Media Addiction Scale (BSMAS), composta por seis itens que mensuram os critérios de adicção segundo Griffiths (2005), respondidos em escala Likert de cinco pontos. O Estudo 3 terá como objetivo investigar a eficácia do programa de intervenção em autorregulação, bem como reunir evidências de validade a partir de sua relação com variáveis externas. Participarão 27 adolescentes adictos à mídias sociais, com tamanho amostral determinado por cálculo no G-Power (teste t dependente, tamanho de efeito médio de 0,50, 80% de poder estatístico e nível de significância de 0,05). Os critérios de inclusão incluem apresentar pontuação de três ou mais para pelo menos quatro dos seis itens na BSMAS. Serão utilizados como instrumentos o questionário sociodemográfico, a BSMAS, a Escala de Desregulação Emocional Infantojuvenil (EDE-IJ) e a Tarefa Go-NoGo com estímulos neutros e relacionados a mídias sociais, para medir o controle inibitório frio e quente. A intervenção será estruturada em sessões semanais de 1 hora e 30 minutos, realizadas em ambiente escolar, com grupos de adolescentes distribuídos aleatoriamente. A aplicação dos instrumentos ocorrerá antes e após intervenção. Os procedimentos de análise de dados incluirão estatística descritiva, teste de Shapiro-Wilk para verificação de normalidade, teste t pareado para comparação pré e pós intervenção com cálculo do d de Cohen para tamanho de efeito, regressão linear simples para investigar associação entre mudanças na autorregulação e melhorias em funções executivas, e regressão linear hierárquica para verificar a contribuição incremental das mudanças em funções executivas na explicação da variância das mudanças nos níveis de adicção. O projeto será submetido ao Comitê de Ética em Pesquisas da Universidade Federal de Pernambuco, respeitando os preceitos éticos das Resoluções nº 466/12 e nº510/16 do CNS e as Orientações para Procedimentos em Pesquisas em Ambiente Virtual. O cronograma prevê a execução das atividades entre 2026 e 2029, contemplando aprofundamento teórico, submissão ao CEP, desenvolvimento dos três estudos, escrita da tese e defesa. Diante do exposto, o projeto apresenta mérito científico, relevância acadêmica e viabilidade de execução, possuindo potencial para contribuir com o avanço da pesquisa em intervenções para adicção à mídias sociais na adolescência.
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