Projeto de pesquisa, UFCG
Terapia de Aceitação e Compromisso na maternidade atípica: uma revisão sistemática
Descrição
RESUMO: A Terapia de Aceitação e Compromisso (Acceptance and Commitment Therapy – ACT) constitui uma das principais abordagens das terapias comportamentais contextuais da chamada terceira onda, destacando-se por sua ênfase na promoção da flexibilidade psicológica, da aceitação das experiências internas e do engajamento em ações orientadas por valores pessoais. Fundamentada no Contextualismo Funcional e na Teoria dos Quadros Relacionais, a ACT propõe uma compreensão do sofrimento humano centrada na relação estabelecida pelos indivíduos com seus pensamentos, emoções e experiências, em oposição às tentativas de controle ou eliminação desses eventos. Nas últimas décadas, essa abordagem vem acumulando evidências científicas robustas quanto à sua eficácia no manejo de diferentes condições de sofrimento psicológico, incluindo transtornos de ansiedade, depressão, estresse e condições crônicas de saúde. Nesse sentido, a literatura científica tem demonstrado que familiares e cuidadores de pessoas com condições crônicas de saúde apresentam elevados níveis de sofrimento psíquico, sobrecarga emocional e vulnerabilidade social. Entre esses grupos, destacam-se as mães de crianças neurodivergentes, especialmente aquelas que exercem o papel de cuidadoras principais de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros transtornos do neurodesenvolvimento. Essas mulheres frequentemente enfrentam demandas intensas de cuidado, dificuldades econômicas, limitações na participação profissional, isolamento social, estigma e desafios relacionados ao acesso aos serviços de saúde e educação. Como consequência, observa-se elevada prevalência de sintomas ansiosos e depressivos, estresse parental crônico, exaustão emocional e comprometimento da qualidade de vida. Embora existam evidências consistentes acerca da utilização da ACT junto a pessoas em sofrimento crônico e seus familiares, ainda são limitados os estudos que investigam especificamente suas contribuições para a compreensão e o cuidado em saúde mental de mães de crianças neurodivergentes. Nesse contexto, torna-se relevante examinar de forma sistemática o conhecimento científico produzido sobre essa temática, identificando as potencialidades, limitações e possibilidades de aplicação da ACT junto a essa população. Diante disso, o presente projeto tem como objetivo geral analisar, por meio de uma revisão sistemática da literatura publicada nos últimos vinte anos, as contribuições e limitações da Terapia de Aceitação e Compromisso para a compreensão e a promoção da saúde mental de mães de crianças neurodivergentes, verificando a adequação de seus princípios teóricos e clínicos às condições de saúde e adoecimento psíquico vivenciadas por essa população. Especificamente, pretende-se identificar e caracterizar os estudos publicados sobre a temática, descrever as principais condições de sofrimento psíquico e fatores de vulnerabilidade apresentados por essas mães, analisar a utilização dos processos centrais da ACT na compreensão dessas experiências, avaliar a adequação contextual da abordagem e identificar desafios, limitações e lacunas existentes na literatura científica. Metodologicamente, trata-se de uma revisão sistemática conduzida conforme as recomendações do protocolo PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). A busca será realizada nas bases de dados PubMed e Portal de Periódicos CAPES, utilizando descritores padronizados em saúde provenientes do Medical Subject Headings (MeSH) e dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados por meio de operadores booleanos. Serão incluídos artigos originais publicados nos últimos vinte anos, revisados por pares, disponíveis nos idiomas português, inglês ou espanhol e que abordem diretamente a relação entre ACT e saúde mental de mães de crianças neurodivergentes. Serão excluídos estudos piloto, revisões de literatura e trabalhos que tratem da temática apenas de forma tangencial. Espera-se que os resultados contribuam para ampliar a compreensão acerca das condições de saúde e adoecimento psíquico vivenciadas por mães de crianças neurodivergentes, bem como para avaliar a pertinência da ACT como referencial teórico e clínico para o desenvolvimento de intervenções contextualizadas e baseadas em evidências. Além disso, a pesquisa poderá subsidiar futuras investigações, práticas clínicas, ações de promoção da saúde mental e programas de apoio psicossocial voltados a essa população, fortalecendo a produção científica nacional sobre terapias contextuais comportamentais e saúde mental de cuidadores. Palavras-chave: Terapia de Aceitação e Compromisso, Maternidade atípica, Neurodesenvolvimento INTRODUÇÃO: A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) tem se consolidado como uma das abordagens da chamada "terceira onda" das terapias comportamentais. Diferente das abordagens que visam à supressão de sintomas ou à reestruturação do conteúdo cognitivo, a ACT enfatiza que a flexibilidade e a aceitação consistem em condições fundamentais para a saúde psíquica, assim como o comprometimento é indispensável para os processos de mudança comportamental (Hayes, Strosahl & Wilson, 2012; Hayes et al., 2006). Historicamente, a trajetória das terapias de base comportamental pode ser dividida em três períodos distintos, denominados usualmente como: primeira onda, segunda onda e terceira onda. A “primeira onda” surgiu no início do século XX, fundamentada nos princípios de aprendizagem clássica e operante estabelecidos por Watson e Skinner, cujo foco residia em comportamentos observáveis e no manejo de contingências ambientais, em detrimento dos chamados “eventos privados” (denominação utilizada para se referir aos atos de pensar e sentir, por exemplo), devido às limitações metodológicas relacionadas à ausência das condições de objetividade consideradas necessárias para o estudo dos referidos fenômenos (Barbosa & Murta, 2014). Nesse contexto, a ascensão do cognitivismo marcou o início da chamada “segunda onda”, quando se buscou preencher a lacuna deixada anteriormente. A perspectiva cognitivo-comportamental propôs a modificação dos conteúdos de pensamentos e sentimentos como condição terapêutica para o trabalho com a saúde psíquica. Embora essa perspectiva tenha representado um avanço, críticas surgiram com relação ao seu progressivo distanciamento dos princípios da ciência comportamental, que se contrapõem à premissa de que a mudança cognitiva seria causa necessária para as mudanças comportamentais (Barbosa & Murta, 2014). As abordagens terapêuticas comportamentais da chamada “terceira onda”, na qual a ACT se insere, retomam os princípios contextuais propostos pelos estudiosos pioneiros, mas expandem seu escopo para lidar com temas complexos relacionados ao comportamento verbal, tais como: identidade, valores e espiritualidade, por exemplo. A ênfase deixa de ser o conteúdo ou a forma dos eventos psicológicos (privados ou públicos) e passa a ser a sua função e o contexto em que ocorrem (Barbosa & Murta, 2014). O Contextualismo Funcional consiste na base filosófica da ACT. Nessa perspectiva, pressupõe-se que o comportamento nunca ocorre “no vácuo”, sendo ele visto um ato em contexto, sobre o qual repercutem a história, a cultura das pessoas e seus contextos de vida, assim como os aspectos situacionais. Outro tópico fundamental a ser considerado nessa filosofia consiste na influência do pragmatismo sobre seus princípios: Na perspectiva analítico-funcional, de base contextual, uma análise é considerada válida na medida em que consegue se fazer útil para alcançar objetivos específicos (funcionalidade). No contexto clínico, isso significa que, ao terapeuta, não interessa se um determinado pensamento é “bom” ou “ruim”, "verdadeiro" ou "falso", mas, sobretudo, interessa entender se agir de acordo com esse pensamento é útil e coerente com a vida que o sujeito deseja levar. Além disso, o contextualismo funcional prioriza variáveis contextuais cujas modificações implicam possíveis repercussões sobre o comportamento que também se façam úteis e coerentes com os objetivos estabelecidos terapeuticamente, reconhecendo que tentativas de mudanças de pensamentos e sentimentos, sem as devidas alterações no contexto, não resultam em mudanças sustentáveis (Vandenberghe & Cunha, 2025). A ACT diferencia-se ainda por possuir uma base teórica robusta sobre a linguagem e a cognição humana: a Teoria dos Quadros Relacionais. Essa teoria postula que a essência da linguagem humana é a capacidade aprendida de relacionar eventos de forma arbitrária. Segundo a Teoria dos Quadros Relacionais, os seres humanos podem derivar relações entre estímulos sem que haja intencionalidade em fazê-lo, o que resulta em implicações sobre as funções desses estímulos. Por exemplo, uma criança pode aprender que o som da palavra "cobra" está relacionado ao animal físico; futuramente, apenas ouvir a palavra pode eliciar o mesmo medo que o animal real. Essa habilidade linguística, embora essencial para a sobrevivência e o desenvolvimento da civilização, recai sobre dois grandes problemas: a Fusão Cognitiva (tendência de lidarmos com as representações simbólicas como se fossem a própria realidade concreta, sem a devida diferenciação) e a Evitação Experiencial (tentativa de evitar, suprimir ou eliminar pensamentos e sentimentos aversivos, o que tende a aumentar sua frequência e intensidade, resultando em sofrimento psíquico e rigidez comportamental) (Vandenberghe & Cunha, 2025; Barbosa & Murta, 2014). Por isso, o objetivo central do trabalho com a ACT consiste em promover a flexibilidade psicológica, que remete à nossa capacidade de aceitação da realidade como ela é, com suas possibilidades e limitações, considerando ainda a importância de desenvolvermos habilidades que nos permitam nos centrarmos em nós mesmos e no momento presente, buscando agir de acordo com nossos valores e propósitos, mesmo diante de experiências internas difíceis (Oshiro & Ferreira, 2021; De-Farias, Fonseca & Nery, 2018; Saban, 2015). O modelo de flexibilidade psicológica proposto pela ACT é composto por seis processos centrais interconectados, sendo eles: 1. Aceitação (Em oposição à evitação experiencial, consiste na postura de abertura e disponibilidade para vivenciar eventos internos conforme eles surgem e são, sem tentativas de controle); 2. Desfusão Cognitiva (Envolve técnicas para alterar a função dos pensamentos, permitindo que o indivíduo os perceba como representações simbólicas e não como verdades absolutas); 3. Atenção ao Momento Presente – Mindfulness (O contato consciente e sem julgamento do "aqui e agora", evitando a ruminação sobre o passado ou a ansiedade pelo futuro); 4. Self como Contexto (Desenvolvimento de uma perspectiva de "observador", onde o indivíduo percebe que ele é o lugar onde as experiências ocorrem, transcendendo rótulos e autoconceitos rígidos que o definem e limitam enquanto self conceitual); 5. Valores (Remete à clarificação e à identificação dos norteadores de vida do sujeito, escolhidos livremente por ele, e que dão sentido e propósito à sua existência); e 6. Ação Compromissada (A busca pelo exercício de padrões de comportamento coerentes com os valores identificados, de forma compromissada e consistente, evitando assim, a dissonância cognitiva e o sofrimento decorrente dela) (Oshiro & Ferreira, 2021; De-Farias, Fonseca & Nery, 2018; Saban, 2015).
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