Projeto de pesquisa, UFCG
O AMOR COMO SINTOMA? O SOFRIMENTO AMOROSO FEMININO NA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA
Descrição
A experiência amorosa ocupa lugar central na subjetividade contemporânea e constitui um dos motivos mais frequentes de sofrimento psíquico que levam sujeitos a buscar escuta clínica. Paralelamente, a música popular brasileira figura como um dos principais veículos de circulação social dos discursos sobre o amor, fornecendo roteiros afetivos que os sujeitos incorporam, repetem e, por vezes, contestam. Este projeto de pesquisa propõe investigar, a partir do referencial psicanalítico de orientação lacaniana, como o sofrimento amoroso feminino é representado em letras de canções populares brasileiras compostas entre as décadas de 1940 e 2020. Parte-se da hipótese de que, em grande parte desse cancioneiro, o amor romântico se apresenta como uma formação sintomática por meio da qual o sujeito busca, no parceiro, suprir uma falta que a psicanálise lacaniana considera estrutural e irredutível, o que se articula aos conceitos de sintoma, gozo, falta e objeto a. A pesquisa pretende construir um corpus de canções de diferentes gêneros (samba, MPB, sertanejo, entre outros) que tematizem explicitamente o amor e o sofrimento amoroso, submetendo-as a uma leitura orientada pela escuta psicanalítica do material textual, atenta a significantes recorrentes, repetições, idealizações e formações de compromisso presentes nas letras. Não se trata de diagnosticar sujeitos empíricos a partir das canções, nem de reduzir a criação artística a uma simples ilustração da teoria, mas de utilizar o instrumental lacaniano como lente de leitura que permita extrair, do material musical, elementos relevantes para a compreensão dos modos de subjetivação amorosa na cultura brasileira. O projeto dialoga com um campo de estudos ainda incipiente sobre as relações entre psicanálise e música, no qual a obra de Lacan oferece conceitos como o de objeto-voz e pulsão invocante, e busca contribuir especificamente para a leitura psicanalítica do amor tal como performado pela canção popular, tema já abordado por outras perspectivas teóricas e de gênero, mas ainda pouco explorado pela psicanálise lacaniana de forma sistemática. Espera-se, como contribuição, oferecer uma reflexão crítica e fundamentada sobre os discursos amorosos veiculados pela música, de interesse tanto para a formação do pesquisador em psicologia quanto para o debate acadêmico sobre cultura, subjetividade e sofrimento psíquico no Brasil contemporâneo. Reconhece-se, como limitação do estudo, que a análise de letras de música não substitui a escuta clínica de um sujeito em análise, e que as conclusões alcançadas dizem respeito a um nível de leitura cultural e discursiva, e não a um diagnóstico clínico individual. Como possíveis desdobramentos futuros, aponta-se a ampliação do corpus para outros gêneros musicais e períodos, a investigação da recepção dessas canções pelos próprios ouvintes, e a articulação dos resultados com a clínica psicanalítica contemporânea, na qual referências musicais frequentemente comparecem na fala de pacientes.
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