Projeto de pesquisa, UFCG
O USO DE TEORIAS CONSPIRATÓRIAS EM DISCURSOS DE ÓDIO DE ATIVISTAS DE EXTREMA DIREITA NA REDE SOCIAL X
Descrição
No universo digital contemporâneo, teorias conspiratórias têm desempenhado papel decisivo na transformação de desconfiança, medo e ressentimento em hostilidade politicamente orientada. Elas oferecem narrativas aparentemente coerentes para acontecimentos complexos, nomeiam inimigos, atribuem intenções ocultas a grupos específicos e apresentam certos sujeitos como vítimas de uma ameaça permanente. Nesse processo, elites políticas, instituições democráticas, imprensa, minorias e adversários ideológicos podem ser construídos como parte de um plano secreto de dominação ou destruição da sociedade. O discurso conspiratório, desse modo, não apenas interpreta o mundo: ele produz alvos legítimos para a indignação e para o ódio. O estudo aqui proposto parte da psicologia social discursiva para examinar essa articulação entre teorias conspiratórias e discurso de ódio. Teorias conspiratórias são tomadas como formas retórico-discursivas que organizam identidades coletivas, estabelecem fronteiras identitárias, produzem suspeita sistemática contra instituições e transformam grupos tidos como inimigos em agentes perigosos e degenerados. A pesquisa parte da compreensão de que o discurso conspiratório pode funcionar como um importante operador de legitimação do ódio. Ao apresentar os adversários como conspiradores, traidores ou instrumentos de forças ocultas, esse tipo de discurso fornece uma justificativa moral para a hostilidade. O ataque deixa de parecer preconceito ou intolerância e passa a se apresentar como defesa necessária contra uma ameaça. Além disso, mensagens conspiratórias digitais muitas vezes são vagas, fragmentárias e multimodais, estimulando os usuários a completar sentidos e a participar ativamente da produção coletiva da denúncia. Essa forma de participação é relevante porque o discurso conspiratório não depende sempre de enunciados fechados ou demonstrativos. Ele pode funcionar por insinuações, perguntas retóricas e fragmentos apresentados como pistas de uma verdade censurada. Assim, a teoria conspiratória se constrói simultaneamente como narrativa, método de suspeita e prática identitária. Aquele que adere à denúncia passa a ocupar a posição de sujeito crítico e corajoso, em oposição aos que não conseguem ver a verdade, cúmplices ou inimigos. O objetivo geral da pesquisa é analisar o uso de teorias conspiratórias em discursos de ódio de ativistas de extrema direita na rede social X. Os objetivos específicos são os seguintes: identificar os tipos de teorias conspiratórias construídas por esses grupos; examinar os recursos retórico-discursivos e multimodais por meio dos quais tais teorias desumanizam, inferiorizam ou tornam perigosos os grupos tidos como inimigos; e analisar as funções identitárias, políticas e afetivas dessas narrativas na construção de pertencimentos, inimigos, vítimas e ameaças. Trata-se de um estudo qualitativo e documental, orientado pela análise de discurso da psicologia social discursiva. O corpus será constituído por postagens públicas coletadas na rede social X durante o mês de setembro de 2026, por meio da API oficial da plataforma. A coleta buscará formar um banco de aproximadamente 2.000 postagens analisáveis, após a exclusão de duplicatas, repostagens sem comentário próprio, spam, materiais irrelevantes e conteúdos sem relação direta com os objetivos do estudo. Serão analisados textos, imagens, memes e e outros elementos semióticos relevantes para a compreensão das postagens. A análise envolverá leituras, e visualizações repetidas do material, codificação inicial e seleção de extratos particularmente reveladores para análise aprofundada. O ChatGPT poderá ser utilizado como ferramenta auxiliar na organização do corpus, na sistematização preliminar de categorias e no apoio à descrição de recursos retóricos e multimodais, sem substituir a interpretação do pesquisador. A relevância social do projeto decorre do fato de que teorias conspiratórias podem corroer a confiança em instituições democráticas, ampliar a estigmatização de grupos sociais e normalizar formas de violência simbólica. Sua relevância científica reside em articular teorias conspiratórias, discurso de ódio, identidade coletiva, multimodalidade, pós-verdade e extremismo político em uma abordagem discursiva.
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