Projeto de pesquisa, UFCG
A língua SEM CORPO: UMA ANÁLISE DA LINGUAGEM NA ESFERA DIGITAL
Descrição
O corpo é uma dimensão que se entrelaça à linguagem e à comunicação. É de se supor que, se a língua não fosse produzida por um ser humano que tem essa e não outra estruturação corpórea – uma estruturação bípede, com o sentido da visão apontado para o topo –, certamente outra forma teria a língua. Muito além da estrutura, ademais, a linguagem deixa-se marcar pelo corpo e com ele se entrelaça. A comunicação é um fenômeno corpóreo que envolve representações e expressões do meu eu e do outro como ser também corpóreo que para mim se apresenta. Vejo e celebro o mundo pelo meu corpo, conforme assinala Merleau-Ponty (2018). Vejo e sinto o outro e as coisas a partir dessa dimensão tátil e pulsional que se estabelece em mim em um nível pré-objetivo. Há um fenômeno que, todavia, cada vez mais se põe em relevância nos dias atuais: trata-se da linguagem que não emana de corpo algum; da linguagem produzida por um algoritmo, mera instrução matemática. A linguagem e a comunicação digital, segundo pontua Byung-Chul Han (2018), carecem de tatilidade e de corporeidade. O autor sul-coreano argumenta que a comunicação digital traz mais comodidade e eficiência, mas, ao mesmo tempo, essa forma de comunicação “sem corpo e sem rosto” tem trazido uma consequência para a vida humana difícil de mensurar: a banição de toda forma de negatividade, entendendo-se por “negatividade” como sendo tudo aquilo que não diz respeito a mim, isto é, o outro. Este novo problema se apresenta, pois, à linguística e à filosofia da linguagem: a linguagem humana é essencialmente corpórea e referencial – trata-se da linguagem que emana de um corpo e para outro corpo se dirige. A linguagem da máquina, por seu turno, não emana de nenhum corpo. Ali, na linguagem da máquina, estamos diante do código produzido por uma instrução matemática, que desconhece as relações subjetivas, que rompe os limites do tempo e que elide qualquer marcação espacial. Frente a essa nova dimensão da linguagem e da comunicação, o presente projeto de pesquisa é motivado pelas questões: quais são as diferenças, no que concerne à corporeidade, entre a linguagem humana e a comunicação analógica e a linguagem maquínica e a comunicação digital? Se a linguagem humana é essencialmente uma linguagem corpórea e referencial, podemos considerar também a linguagem da máquina uma “linguagem” análoga à humana? Para responder a esses questionamentos, selecionamos Merleau-Ponty como pensador que teorizou a relação entre a língua e o corpo no século XX, para que analisemos essa relação pertinente à linguagem humana. Para pensarmos sobre a linguagem e a comunicação numa dimensão que vai para “além do humano”, que perde cada vez mais sua tatilidade e sua corporeidade, buscaremos em Byung-Chul Han (2018; 2022) reflexões que se fazem pertinentes. Este projeto é pautado pelo objetivo geral de discutir, a partir das ideias traçadas por Merleau-Ponty (2018) e Byung-Chul Han (2018; 2022), diferenças, no que concerne à corporeidade, entre a linguagem humana e à linguagem algorítmica, bem como entre a comunicação analógica e a comunicação digital. Especificamente, os seguintes objetivos são propostos: 1. Analisar a dimensão corpórea da linguagem humana em dois escritos de Merleau-Ponty (1980; 2018). 2. Analisar a dimensão da perda da tatilidade e da corporeidade da linguagem em duas obras de Byung-Chul Han (2018; 2022). 3. Comparar as ideias dos dois pensadores acerca da correlação entre linguagem-corpo-comunicação, considerando os lugares teóricos e temporais distintos a partir dos quais ambos os autores formulam suas ideias. 4. Refletir sobre as diferenças entre a linguagem humana e a linguagem “não-humana” da máquina no que concerne aos aspectos de corporeidade e tatilidade. A metodologia adotada circunscreve-se na abordagem de natureza qualitativa, entendida como aquela que parte do pressuposto de que a realidade é simbolicamente construída. O corpus proposto compõe-se de fontes primárias, em uma primeira etapa, e de fontes secundárias, na segunda etapa, caracterizando a pesquisa como bibliográfica e interpretativa. Espera-se, com esta pesquisa, contribuir com as discussões contemporâneas acerca da linguagem e da comunicação em uma esfera “incorpórea” e desreferencializada, como o é a esfera digital. Acreditamos que a banição do corpo da língua têm múltiplas dimensões que precisam ser entendidas e discutidas. Este projeto buscará estabelecer algumas linhas de reflexão.
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