Projeto de pesquisa, UFCG
A construção "já deu o que tinha que dar" no Português Brasileiro
Descrição
Este projeto tem como objetivo analisar a construção “já deu o que tinha que dar” no português brasileiro a partir dos pressupostos teóricos da abordagem construcional de Goldberg (1995; 2003; 2006) e Traugott e Trousdale (2013), e dos estudos cognitivos-funcionais de Bybee (2016). De acordo com Goldberg (1995; 2006), todas as construções de uma língua se organizam em um inventário estruturado, ou seja, em uma rede hierárquica, de forma que cada construção representa um nó ligado a um nível mais alto de abstração. Em usos emergentes, a construção focalizada constitui uma expressão com alta fixidez lexical e conjuga um significado pragmático de encerramento, esgotamento ou término. Barbosa (2023; 2025) evidencia que construções com o verbo dar tem se revelado um terreno fértil para análises construcionistas, pelo fato de passarem por alterações sintático-semânticas, aproximam-se dos usos convencionalizados de parar e bastar. No continuum da mudança, a autora apresenta que, ao passar por processo de metaforização, construções como “já deu de trabalhar” e “já deu de sofrer”, passam a articular sentidos de término ou interrupção e não mais de transferência. Presume-se que o uso de “já deu o que tinha que dar” constitui uma construção lexicalizada que denota sentidos como “já deu”, “chega”, “acabou”, “não há mais o que fazer”. Para a análise empírica dessa construção, serão extraídas ocorrências entre os séculos XVIII ao XXI, no Corpus do Português (www.corpusdoportuguês.org), podendo ser complementada a amostra pela Rede X (Rede (@UseRede) / X). Para análise das propriedades formais, serão investigados (i) se os elementos da construção podem ser substituídos por outros da mesma categoria semântica ou gramatical, (ii) a presença/ausência do advérbio “já”, para identificar se ele constitui um elemento essencial, (iii) as restrições morfossintáticas da construção, (iv) os graus de composicionalidade, esquematicidade e produtividade, (v) a função pragmática e (vi) os domínios situacionais em que a construção ocorre, a fim de mapear possíveis padrões de uso. Presume-se que a aplicação dos parâmetros estabelecidos sobre os dados encontrados permitirá não apenas uma descrição sistemática da construção, mas também uma compreensão mais ampla de seu funcionamento na rede construcional de construções avaliativas do PB. Dessa forma, espera-se contribuir para o refinamento dos critérios de análise de expressões idiomáticas e para o debate teórico sobre os limites entre léxico e gramática, especialmente no que diz respeito às construções de baixa esquematicidade e alta fixidez que se conectam à rede por meio de relações de herança e extensão analógica.
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