Projeto de pesquisa, UFCG
Sistemas alimentares em tempo de policrises: mudança climática e governança e no semiárido brasileiro
Descrição
Em artigo publicado no ano de 2024, pesquisadores analisaram a insegurança alimentar em espaços rurais do Norte do Brasil. Neste estudo, problematizaram a relação entre insegurança alimentar, aumento do acesso a alimentos por compra e a redução de sua disponibilidade nos territórios em função dos constrangimentos que limitam o acesso às áreas, à exaustão dos recursos e às consequências da emergência climática. Essa pesquisa revelou que a base da alimentação em territórios específicos, particulares resulta da combinação de alimentos tradicionais com ultraprocessados, cujas hipóteses explicativas seriam a influência da redução das atividades agroextrativistas, a oferta e disponibilidade de produtos industrializados nos mercados locais; o acesso à renda, através de políticas públicas de transferência de rendas (aposentadoria e bolsa família) e a diminuição de alimentos da agrofloresta em razão das mudanças climáticas (Mota, et al., 2024). Em janeiro de 2026, no agreste da Paraíba, em entrevista realizada com agricultores assentados da reforma agrária no P.A Oziel Pereira, no município de Remigio, espaço reconhecido como território da agroecologia, uma assentada relatou: “aqui, a maior parte do que se come é comprado no supermercado, tenho uma neta que só janta se for macarrão e calabresa, os outros só querem lanchar biscoito e salgadinho. Agora é o tempo mais crítico, né? Mas quem guardou feijão né, ainda tem. Mais o tempo é mais difícil por causa da chuva, a gente nessa época, nós não produz... Só quem trabalha com irrigação” (A.P.F assentada, 55 anos). Os fragmentos acima evidenciam um quadro de restrição e pouca disponibilidade de alimentos saudáveis, corroborando para o aprofundamento de desigualdades no acesso ao que se tem denominado “alimento de verdade”, assim como, de exclusões quase imperceptíveis, que camuflam vivências de fomes relacionadas aos efeitos das mudanças climáticas. Inspirada nos trechos acima e no conhecimento acumulado pela sociologias rural, da alimentação e das políticas públicas, observamos o Semiárido brasileiro, enquanto um território de sacrifícios no que se refere aos efeitos cumulativos das mudanças climáticas, desmatamento, extração excessiva de produtos florestais, queimadas, sobrecarga animal, uso intensivo do solo e desinformação, contribuindo para o aumento das temperaturas e geração de Gases de Efeito Estufa (GEE), que impactam a construção e manutenção de sistemas alimentares sustentáveis e resilientes, em contexto de policrises – climática, alimentar, sanitária, econômica e política –; que convergem para uma ordem escalar de desafios os quais suscitam questionamentos que temos a pretensão de explorar durante a execução desse projeto de pesquisa, quais sejam: Como a agricultura familiar do semiárido têm percebido as mudanças climáticas? Como agricultores familiares, assentados têm planejado as atividades laborais, considerando a imprevisibilidade do tempo da chuva? Quais estratégias de adaptação climática têm sido adotadas, ou demandadas para enfrentar os desafios das mudanças climáticas? Como as famílias assentadas têm racionalizado as atividades laborais ligadas à produção, uma vez que os saberes tradicionais, costumeiros não são suficientes para racionalizar as atividades e os tempos de plantio e de colheita? Quais as mudanças nos hábitos e na dieta alimentar do grupo? Quais as formas de acesso aos alimentos? É possível relacionar o aumento e/ou surgimento de doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, obesidade) com os alimentos que compõem a dieta básica das famílias?
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