Projeto de pesquisa, UFRA
Legitimação Epistêmica e Coordenação Pública sob Conflito de Evidências: Modelagem Estrutural Aplicada à Saúde, Sustentabilidade e Ecossistemas Digitais
Descrição
As democracias contemporâneas enfrentam crescente tensão entre a produção de conhecimento científico especializado e a contestação pública da autoridade epistêmica da ciência. Controvérsias envolvendo políticas de saúde pública, mudanças climáticas, sustentabilidade ambiental e regulação tecnológica evidenciam que a aceitação ou rejeição de consensos científicos não pode ser explicada apenas por níveis de informação, orientação ideológica ou confiança institucional. Em muitos casos, indivíduos com acesso à educação formal e informação qualificada divergem profundamente quanto ao estatuto da evidência científica, ao papel da expertise e aos critérios legítimos para fundamentar decisões coletivas. Nas últimas décadas, uma ampla literatura internacional tem buscado compreender esses fenômenos a partir de explicações centradas em fatores como desinformação, raciocínio motivado, polarização política e déficits de confiança nas instituições científicas (KAHAN et al., 2012; LEWANDOWSKY; ECKER; COOK, 2017; NISBET; SCHEUFELE, 2009; VAN DER LINDEN et al., 2020). Estudos recentes também destacam o papel de identidades culturais e dinâmicas comunicacionais na formação de atitudes divergentes em relação à ciência e às políticas públicas baseadas em evidências (SCHEUFELE; KRAUSE, 2019; GAUCHAT, 2012). Embora essas abordagens ofereçam contribuições importantes, elas frequentemente deixam em segundo plano um aspecto fundamental do problema: as estruturas cognitivas e normativas por meio das quais indivíduos avaliam evidências, reconhecem autoridade epistêmica e distinguem entre diferentes tipos de justificativa em contextos de controvérsia pública. O projeto NEXOS–LE (Estruturas Internas de Legitimação Epistêmica) parte da hipótese de que diferenças sistemáticas na forma como indivíduos organizam seus critérios de diferenciação epistêmica e avaliação da autoridade do conhecimento influenciam significativamente suas atitudes diante da ciência, da expertise e de políticas públicas baseadas em evidências. Em particular, o projeto investiga como diferentes configurações cognitivas se relacionam com a capacidade de distinguir entre evidências empíricas, juízos normativos, opiniões leigas e conhecimento especializado, bem como com a disposição para reconhecer a autoridade epistêmica da ciência em contextos de desacordo entre especialistas. Do ponto de vista teórico, a pesquisa dialoga com abordagens que enfatizam a dimensão intersubjetiva da justificação do conhecimento e o papel das práticas discursivas na coordenação social em sociedades complexas (HABERMAS, 1999; 2003). Nesse quadro, a legitimação epistêmica da expertise científica não é entendida como mera deferência à autoridade técnica, mas como resultado de processos socialmente mediados de avaliação da qualidade das justificações apresentadas em arenas públicas de deliberação. O objetivo central da pesquisa é desenvolver e validar um instrumento psicométrico destinado a medir dimensões relevantes dessas estruturas de legitimação epistêmica. O instrumento buscará captar diferentes aspectos do julgamento epistêmico em contextos de conflito de evidências, incluindo a avaliação da expertise científica, a diferenciação entre tipos de justificativa e as formas pelas quais indivíduos interpretam desacordos entre especialistas. A pesquisa será conduzida por meio do desenvolvimento teórico do modelo conceitual, da elaboração de itens de medida e da aplicação de questionários estruturados em amostras de participantes adultos. Os dados obtidos serão analisados por meio de técnicas estatísticas apropriadas para validação de instrumentos psicométricos, incluindo análises fatoriais exploratórias e confirmatórias, bem como testes de consistência interna e validade de construto (DEVELLIS, 2017; BOATENG et al., 2018). Do ponto de vista científico, o projeto busca contribuir para o avanço dos estudos sobre confiança na ciência, percepção pública da expertise e legitimação epistêmica em sociedades contemporâneas. Ao propor um modelo conceitual integrado e um instrumento empírico capaz de medir dimensões cognitivas frequentemente negligenciadas na literatura, a pesquisa pretende ampliar as bases analíticas disponíveis para compreender a relação entre ciência, sociedade e tomada de decisão pública. Do ponto de vista institucional e social, os resultados do projeto poderão contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais eficazes de comunicação científica, educação científica e formulação de políticas públicas baseadas em evidências. Esses desafios assumem relevância particular em regiões caracterizadas por elevada complexidade socioambiental, como a Amazônia, onde decisões públicas frequentemente dependem da interpretação de evidências científicas relacionadas à conservação ambiental, mudanças climáticas, saúde coletiva e desenvolvimento sustentável.
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