Projeto de extensão, UFRA
Percepções e perspectivas de melhorias de bioconstruções em paisagens aquáticas da Amazônia
Descrição
O projeto de extensão tem como objetivo geral compreender as percepções comunitárias sobre as bioconstruções na Ilha do Combu, Área de Proteção Ambiental (APA) criada em 1997, e propor, de forma participativa, melhorias construtivas que ampliem a durabilidade, o conforto ambiental e a sustentabilidade dos biomateriais utilizados. A Ilha do Combu está inserida em um ecossistema de várzea que abriga uma rica biodiversidade e sustenta atividades tradicionais como o extrativismo do açaí, cacau e andiroba, além da pesca e do turismo. No entanto, transformações socioambientais impulsionadas pelo turismo desordenado e pela ausência de um plano de manejo efetivo têm afetado as práticas construtivas locais, gerando desafios para a preservação da arquitetura vernacular e para a integração harmônica das edificações com a paisagem aquática. As bioconstruções na região amazônica caracterizam-se pelo uso de materiais de origem vegetal disponíveis localmente, como madeiras nativas, bambu, tronco de açaí, palha de palmeiras e cipós. Esses materiais conferem identidade cultural às comunidades ribeirinhas, além de oferecerem vantagens térmicas, acústicas e ambientais. Contudo, observa-se que a durabilidade dessas construções está diretamente associada ao tratamento prévio dos biomateriais. Enquanto madeiras de alta densidade como acapu e angelim apresentam elevada resistência natural ao ataque de organismos xilófagos e fungos, materiais como bambu e tronco de açaí demandam técnicas específicas de beneficiamento para garantir maior longevidade. Na ausência desses tratamentos, verifica-se redução significativa na vida útil desses materiais, comprometendo a segurança e o conforto das edificações. O projeto estrutura-se em três eixos extensionistas interligados. O primeiro eixo consiste no diagnóstico participativo das percepções locais sobre o desempenho das bioconstruções, incluindo a identificação de materiais mais utilizados, técnicas construtivas empregadas, principais problemas enfrentados (como degradação biológica, intemperismo, infiltrações e goteiras) e expectativas da comunidade em relação a melhorias. Serão realizadas rodas de conversa comunitárias, dinâmicas de grupo para mapeamento colaborativo das edificações e caminhadas guiadas pelos moradores, utilizando equipamentos como GPS e câmeras fotográficas para registro das construções e de seus detalhes construtivos. Nessas atividades, os comunitários serão convidados a compartilhar suas vivências, saberes e anseios relacionados às suas moradias e estabelecimentos, em um ambiente de diálogo horizontal e troca de conhecimentos. O segundo eixo prevê a realização de oficinas práticas voltadas ao beneficiamento de biomateriais alternativos, com ênfase no bambu (Bambusa vulgaris) e no tronco do açaizeiro (Euterpe oleracea). Essas oficinas abordarão desde a coleta e seleção dos materiais até técnicas de tratamento como lixiviação por imersão em água corrente, substituição de seiva, secagem ao ar livre e aplicação de preservativos naturais de baixo impacto ambiental. Serão demonstrados também métodos construtivos simples, como encaixes manuais, amarrações e sistemas de fixação que valorizam a estética vernacular e dispensam o uso excessivo de insumos industrializados. A capacitação atenderá a uma demanda manifestada pela comunidade local, que demonstrou interesse em aprender técnicas que aumentem a durabilidade do bambu e do açaí diante da dificuldade de acesso a madeiras de maior durabilidade no mercado regional. O terceiro eixo consiste na proposição colaborativa de diretrizes de melhoria para bioconstruções em ambientes de várzea. A partir dos diagnósticos e das oficinas, a comunidade, em conjunto com a equipe extensionista, elaborará um conjunto de recomendações práticas que considerem: a seleção adequada de espécies conforme a exposição à umidade; a periodicidade de manutenção e substituição de componentes degradados; e estratégias de manejo sustentável de bambuzais excedentes como fonte renovável de material construtivo. Como resultados esperados, o projeto visa fortalecer a autonomia comunitária na gestão dos materiais construtivos, aumentando a capacidade local de produzir, tratar e aplicar biomateriais de forma consciente e sustentável. Espera-se também ampliar a vida útil das edificações, reduzindo custos com reformas e reposições, bem como diminuir a pressão sobre madeiras nobres de alto valor comercial, que vêm se tornando escassas e de difícil acesso. Adicionalmente, busca-se aprofundar o conhecimento comunitário sobre as propriedades das diferentes espécies madeireiras, identificando quais apresentam maior resistência natural à umidade, ao ataque de fungos e a insetos xilófagos, permitindo sua aplicação mais adequada não apenas nas construções, mas também em mobiliários, ferramentas, embarcações e outros artefatos de uso cotidiano. O projeto também almeja gerar subsídios técnicos para que os moradores possam avaliar a durabilidade esperada de cada biomaterial em diferentes condições de exposição (áreas cobertas, áreas abertas, contato direto com o solo ou com a água), orientando escolhas mais assertivas e economicamente vantajosas. Por fim, busca valorizar a arquitetura vernacular como patrimônio cultural e ambiental amazônico, promovendo o diálogo entre o saber tradicional e o conhecimento técnico-científico, e contribuindo para a implementação do Plano de Manejo da APA Ilha do Combu, recentemente apresentado à comunidade. O projeto dialoga diretamente com os objetivos de desenvolvimento sustentável, especialmente no que tange à conservação ambiental, à promoção de comunidades sustentáveis e à valorização de culturas tradicionais. A metodologia participativa adotada garante que as soluções propostas sejam socialmente apropriadas, culturalmente sensíveis e ecologicamente responsáveis, fortalecendo a resiliência das comunidades ribeirinhas frente às transformações socioambientais em curso.
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