Projeto de extensão, UFG
Biopolítica do Digital: O Dispositivo de Inclusão 60+ e as Tecnologias de Si na Senescência
Descrição
1.1. As condições de possibilidade A arqueogenealogia das práticas de inclusão na UFG cartografa o projeto Letramento Digital 60+, não como uma abstração teórica, mas como resposta a um acontecimento biopolítico que reconfigurou o corpo e o saber na instituição: a eclosão da pandemia de COVID-19 em 2020 e a consequente suspensão das atividades presenciais. Sob o amparo da Resolução CONSUNI nº 33/2020, que instituiu o Ensino Remoto Emergencial (ERE) na UFG, os espaços de saber-poder e as modalidades de interação didática sofreram uma reorganização compulsória e virtualizada, forçando uma nova modulação na gestão da presença. Nesse campo de forças de digitalização acelerada, um contingente expressivo de discentes de graduação com idade igual ou superior a 60 anos — que já enfrentava margens de exclusão histórica — viu-se diante do risco iminente de invisibilização discursiva e desfiliação acadêmica, dada a exigência abrupta de manuseio de interfaces virtuais e ferramentas de aprendizagem em rede. Nessas condições sócio-históricas, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) mapeou a necessidade de formular uma política de inclusão digital voltada a salvaguardar a permanência acadêmica desses discentes. Em paralelo, a Coordenação de Inclusão e Permanência (CIP) iniciou um movimento de mapeamento das trajetórias desse público, com o propósito de catalogar as suas fissuras de acesso, o sentimento de isolamento e as barreiras metodológicas enfrentadas no cotidiano do ensino remoto. O diagnóstico oriundo desse processo fez emergir que as respostas institucionais puramente instrumentais eram insuficientes, impondo a necessidade de constituição de uma equipe multidisciplinar capaz de articular o acolhimento subjetivo, o suporte técnico e a acessibilidade digital como um agenciamento integrado. Ao diagnosticar que o Instituto de Informática (INF-UFG) operava uma ação de extensão voltada à análise crítica dos dispositivos tecnológicos, estabeleci um movimento de convergência. Articulei essa demanda ao Programa de Extensão Educação Digital: Políticas, Leitura, Produção Textual, Identidade, Subjetividade e Letramento Digital com Trabalhadoras/es Terceirizadas/os da UFG. O propósito norteador do programa Educação Digital está assentado no potencializar as práticas de letramento como tecnologias de si. Compreendo que cada enunciado e cada prática de escrita constituem-se como formas de subjetivação, em que a linguagem funciona como ferramenta de autogoverno. Ao inserir os estudantes da UFG com idade igual ou superior a 60 anos neste dispositivo, instituo um encontro intergeracional de saberes que fissura as certezas técnicas e o tecnicismo instrumental do INF, tecendo uma rede solidária que problematiza a cisão entre ensino, pesquisa e extensão. 1.1. A Intervenção Biopolítica e o Cumprimento da LDB e ACEx A LDB, em seu Art. 43, inciso VII, estabelece a urgência de promover a extensão como via de compartilhamento do conhecimento com a sociedade [105]. Em consonância, a Resolução CNE/CES nº 7/2018 e o regulamento de ACEx da UFG tornam obrigatória a destinação de, no mínimo, 10% da carga horária total dos cursos de graduação para a extensão [104]. O Letramento Digital 60+ materializa essa exigência legal ao intervir diretamente em uma população historicamente marginalizada pela aceleração tecnológica: os estudantes com idade igual ou superior a 60 anos [93]. Como pontuo na justificativa do projeto, a ausência de letramento digital produz "sujeitos infames" [328]— sujeitos sem fama, desprestigiados, invisibilizados pelo dispositivo acadêmico e social, cuja historicidade só é registrada pelas dobras do arquivo burocrático quando estas se tornam objeto de regulação ou de políticas de assistência frias, seletivas e tutelares [329, 330]. A exclusão digital funciona aqui como um operador de censura discursiva e isolamento social, destituindo o idoso de sua soberania e do direito de exercer agência nos campos de força que constituem o espaço público.1.2. A Insurreição dos Saberes Sujeitados contra o Etarismo Tecnológico Ao recusar a visão do envelhecimento como um estado de déficit cognitivo ou passividade intelectual, situo a análise sob a ótica da arqueogenealogia discursiva. Sob essa perspectiva, o etarismo e o capacitismo operam como tecnologias de biopoder que classificam, segmentam e hierarquizam os corpos, determinando quem está apto a habitar a contemporaneidade hiperconectada e quem deve ser descartado por obsolescência produtiva [81, 87]. Para produzir uma fissura nesse dispositivo de silenciamento, o projeto promove o que Foucault chama de insurreição dos saberes sujeitados [92]. Os participantes com 60 anos ou mais não são tratados como recipientes vazios de um dispositivo de normalização pedagógica. Pelo contrário, as suas memórias históricas, os seus saberes tradicionais e as suas vivências singulares são articulados taticamente à lógica algorítmica. O encontro intergeracional desestabiliza o habitus tecnicista dos graduandos do INF, forçando-os a compreender que a computação só adquire sentido ético quando se coloca a serviço da constituição de um “ethos” de cuidado e do bem-viver do Outro [171, 188]. [171, 188].
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