Projeto de pesquisa, UFRRJ
Bilinguismo no Brasil: uma análise das experiências e percepções neurodiversas com a linguagem
Descrição
A mente humana é um construto complexo e subjetivo, envolvendo funções cognitivas essenciais ao desenvolvimento da potência individual e social de cada ser. A linguagem é uma dessas funções, permeando as relações sociais e a construção de nossa identidade. Considerando-se o impacto da globalização nas relações acadêmicas e virtuais, o ensino-aprendizagem de língua estrangeira, no último século, passou a ganhar destaque. O bilinguismo ou multilinguismo se tornou a regra, seja em ambientes familiares multiculturais ou em ambientes sociais, especialmente acadêmico-educacionais, com a emergência de escolas bilíngues ao redor do mundo. Essa valorização do respeito ao múltiplo, ao diverso, também se manifesta na defesa de políticas de inclusão social, especialmente no nosso país, nas últimas décadas. Para uma vivência saudável de nossa sociedade, é urgente e imperativo que a aprendizagem seja estudada do ponto de vista da (neuro)diversidade para que estratégias de ensino inclusivas possam ser pensadas e disseminadas, de modo que não só se acolha a diversidade, mas também se promova o desenvolvimento da potência individual e social de cada estudante. O presente projeto de pesquisa, inserido na área de Letras e Linguística, interessa-se, especificamente, por investigar o bilinguismo brasileiro, abarcando a relação entre neurodiversidade e línguas estrangeiras no percurso desses sujeitos, a partir de seu ponto de vista. Especificamente, espera-se investigar (i) os usos pessoais e sociais da língua inglesa por sujeitos adultos neurodiversos com escolaridade superior completa ou incompleta; (ii) a percepção metacognitiva de sujeitos neurodiversos sobre o seu conhecimento e a aprendizagem da língua inglesa; (iii) a percepção metacognitiva de neurodiversos sobre o possível impacto da aprendizagem de língua estrangeira sobre o desenvolvimento de suas funções executivas. Ressalta-se que o uso do termo "neurodiversos" considera a possibilidade de haver padrões distintos ou não entre neurotípicos e neurodivergentes (especificamente, pessoas com transtorno do espetro do autismo, transtorno do déficit de atenção e superdotação ou altas habilidades). Assumindo-se que o processo de aprendizagem não é linear e universal, é preciso investigar a relação de neurodivergentes com aprendizagem, conhecimento e usos pessoais/sociais de línguas estrangeiras. Será essa relação divergente da relação de neurotípicos? Se sim, em que aspectos? Além disso, a literatura indica possíveis benefícios do bilinguismo para o desenvolvimento cognitivo linguístico e não linguístico, inclusive para neurodivergentes. Especificamente para autistas, esse impacto se revela também em benefícios para bem-estar psicológico. Os benefícios metacognitivos do aprendizado de língua estrangeira poderiam estar relacionados ao desenvolvimento de habilidades sociais ou ao desenvolvimento da autoconsciência sobre seus estados emocionais, haja vista a tomada de consciência sobre a diversidade cultural relacionada às relações intra e interpessoais. Todavia, há uma escassez de pesquisas sobre a relação de pessoas neurodivergentes com a aprendizagem, o conhecimento e os usos pessoais/sociais da língua estrangeira, especialmente envolvendo a participação de indivíduos adultos, capazes fornecer seu ponto de vista também sobre o possível impacto da aprendizagem de uma língua estrangeira para seu neurodesenvolvimento. Por isso, espera-se que este estudo exploratório, de caráter qualiquantitativo, contribua para a compreensão da relação entre língua estrangeira e neurodiversidade. O presente projeto caracteriza a última etapa da pesquisa que vem sendo desenvolvida nos últimos anos, no bojo do projeto "Língua Estrangeira e Neurodiversidade", aprovado pelo CEP, via Plataforma Brasil, envolvendo a realização de entrevistas semiestruturadas, que complementam as informações coletadas via questionário virtual. Nas etapas anteriores, avaliaram-se, principalmente, a autoavaliação de proficiência e preferências por práticas linguísticas on-line ou off-line. Quanto à auatoavaliação de proficiência, constatou-se uma diferença quantitativa na percepção de neurodivergentes ao se compararem intergrupo: (i) as quatro habilidades na L1; (ii) o padrão de autoavaliação das habilidades na L1 em relação à L2. Em relação à L1, observou-se que neurotípicos se avaliam melhor nas habilidades de Fala, Escuta e Leitura. Nesse grupo, identifica-se uma diferença significativa entre essas três habilidades e a Escrita, que é avaliada como mais baixa. Já no grupo de neurodivergentes, Leitura se destaca, com 75% dos participantes se autoavaliando com a nota máxima numa escala de 1 a 5 e nenhuma autoavaliação dessa habilidade abaixo de 3. Além disso, diferentemente do observado no grupo neurotípico, não há diferença estatisticamente significativa entre Escrita e as outras habilidades, já que a média da autoavaliação de Fala e Escuta foi mais baixa que a do grupo supostamente neurotípico. Por outro lado, em relação à L2, observa-se um padrão semelhante de autoavaliações de ambos os grupos nas quatro habilidades. A habilidade de Leitura é a melhor avaliada em relação às outras habilidades, com diferença estatisticamente significativa, especialmente em comparação à Escrita. A interpretação desses dados levou a três importantes conclusões. A primeira é que, comparativamente ao perfil neurotípico, pessoas com perfil neurodivergente apresentam uma percepção de proficiência da L2 semelhante à do grupo de perfil neurotípico. A segunda é que, apesar disso, na L1, neurodivergentes percebem seu desempenho como mais baixo em atividades on-line (Fala e Escuta), que envolvem resposta imediata, e mais alto em Leitura, considerada uma habilidade off-line. E a terceira é que os dados parecem corroborar a intuição geral de que o perfil bilíngue brasileiro - com mais uso de línguas estrangeiras envolvendo habilidades receptivas de Leitura e Escuta - levaria a uma percepção de proficiência mais elevada da Leitura, independentemente do perfil cognitivo. Todavia, os dados do questionário envolvendo usos sociais das línguas não foram específicos o suficiente para permitir um cruzamento entre práticas de uso das duas línguas e essas percepções metacognitivas. Logo, as entrevistas semiestruturadas são de suma importância para uma análise mais consistente do perfil bilíngue brasileiro na perspectiva da neurodiversidade.
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