Projeto de pesquisa, UFRRJ
Escrevivências e dororidades na literatura negro-brasileira de autoria feminina contemporânea (séculos XX-XXI)
Descrição
Este projeto de pesquisa tem como objetivo refletir e analisar a produção literária de mulheres negras no âmbito da literatura negro-brasileira, com foco nas obras produzidas entre os séculos XX e XXI. A motivação parte do reconhecimento de que, historicamente, essa literatura foi marginalizada tanto nos currículos da Educação Básica quanto no Ensino Superior, sendo tratada de forma superficial e, por vezes, negligenciada. Durante décadas, autoras como Maria Firmina dos Reis, pioneira da literatura abolicionista na América Latina e autora do romance Úrsula (1859), foram invisibilizadas por um cânone literário branco e masculino, que delimitou o acesso e a valorização de determinadas produções culturais. A obra Úrsula, por exemplo, só foi redescoberta e integrada aos estudos literários por volta da década de 1960. Nesse mesmo período, ganha destaque Carolina Maria de Jesus, com o impactante Quarto de Despejo, obra que, embora tenha sido traduzida para mais de 13 idiomas, teve seu reconhecimento acadêmico tardio, alcançando maior projeção apenas no século XXI, especialmente após a promulgação da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas. Mais recentemente, nomes como o de Conceição Evaristo se tornaram fundamentais para a consolidação de uma literatura negra feminina. A autora mineira cunhou o conceito de escrevivência, termo que une escrita e vivência para nomear uma literatura que parte da experiência coletiva e ancestral das mulheres negras. Associado a esse conceito, emerge também a ideia de dororidade (uma solidariedade forjada a partir da dor comum), elaborado por Vilma Piedade, que permite uma leitura crítica e sensível das marcas deixadas pelo racismo, sexismo e pelas desigualdades estruturais nas trajetórias dessas autoras e personagens. Dessa forma, a pesquisa propõe-se a analisar obras de escritoras negras contemporâneas à luz dos conceitos de escrevivência e dororidade, entendendo-os como complementares. A escrevivência revela uma escrita do "nós", que rompe com o individualismo e se ancora na coletividade da experiência negra feminina; já a dororidade aponta para um vínculo de empatia e resistência compartilhada, surgido a partir das dores comuns vividas por essas mulheres. Ambas as ideias se entrelaçam e fundamentam a produção literária em análise, revelando a potência estética, política e existencial dessas vozes. Assim, diante da urgência em ampliar e aprofundar os estudos sobre a literatura negro-brasileira de autoria feminina, esta pesquisa se justifica não apenas como um exercício acadêmico, mas como um gesto de reconhecimento, reparação e valorização dessas narrativas historicamente silenciadas
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