Projeto de pesquisa, UFRRJ
As transformações do capitalismo global
Descrição
O presente projeto de pesquisa investiga as transformações do capitalismo global após a crise financeira de 2008, tendo como foco o debate contemporâneo sobre a possível transição para um novo sistema econômico, que alguns autores denominam “tecnofeudalismo”. Partindo da caracterização da “Era de Ouro” do capitalismo (1945-1975) e sua crise, situamos a emergência de um capitalismo global financeirizado, marcado pela atuação de corporações transnacionais, pela centralidade do capital fictício e pela crescente transformação de dimensões da vida humana e natural em ativos negociáveis. A crise de 2008 e a resposta dos bancos centrais, com políticas de salvamento financeiro (quantitative easing), são apontadas como catalisadoras de um novo padrão de acumulação de capital, impulsionado pela expansão da cibernética e pela onipresença de dispositivos como o smartphone. Nesse contexto, emergiu a interpretação do tecnofeudalismo, sintetizada por Yanis Varoufakis, que argumenta que as grandes empresas de tecnologia (Big Techs) teriam substituído a lógica do lucro e da concorrência pela busca de rendas monopolistas, análogas às dos senhores feudais, por meio do controle do “capital-nuvem” e da modulação do comportamento dos usuários em suas plataformas. O objetivo geral da pesquisa é, portanto, examinar as interpretações que defendem a emergência do tecnofeudalismo e as críticas a elas dirigidas, buscando, assim, compreender a natureza das mudanças no capitalismo contemporâneo. Para isso, a investigação se concentrará em três objetivos específicos: (i) compreender os argumentos centrais do debate sobre o tecnofeudalismo, (ii) compilar a literatura sobre o modo de acumulação das Big Techs e (iii) aprofundar a discussão sobre as características do sistema econômico atual. Metodologicamente, a pesquisa é qualitativa e teórica, baseada em revisão bibliográfica. Ancorada na teoria marxiana do valor, a partir da releitura de Marx proposta por Moishe Postone (2003), a hipótese central da pesquisa é a de que o crescente poder das Big Techs e a proeminência da renda representam não um novo sistema, mas um desdobramento intrínseco ao desenvolvimento contraditório do próprio capital, marcado pela concentração e centralização de capitais e pelo que Postone chama de “anacronismo do valor” – a desmedida crescente entre a produção de riqueza material e sua medida em valor-trabalho, particularmente intensa nos setores intensivos em conhecimento. Em sua fundamentação filosófica, o projeto rejeita perspectivas relativistas que negam a possibilidade de conhecimento objetivo da realidade social. Amparado pelo realismo crítico de Roy Bhaskar (1998), defende que os sistemas socioeconômicos são estruturas reais, estratificadas e abertas, cujos mecanismos geradores podem ser apreendidos pela teoria por meio do debate e da crítica imanente. A conclusão preliminar sugere que a investigação pode revelar que as transformações em curso, ao aprofundarem a individualização e deteriorarem os contrapesos sociais, como a democracia, reforçam as formas sociais capitalistas, fazendo-as parecer naturais e eternas.
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