Projeto de pesquisa, UFRRJ
Considerações acerca da pergunta “O que é metafísica?”
Descrição
I Queremos perguntar: O que é metafísica? Porém, quando insistimos nessa pergunta, outras duas ressoam desde o seu fundo: 1) Qual a sua proveniência? 2) Para onde ela nos conduz? A pergunta que assim se impõe, como tarefa dada ao pensamento, sempre a partir de um recolhimento, já não espera de si uma resposta objetiva, antes a abandonou. No abandono dessa possível resposta, entretanto, surge um lento caminhar à deriva, pois a tradição até então sofre uma ruptura e, com isso, suas determinações são abaladas. No roldão da ruptura e dos abalos o pensamento tem a possibilidade de ir se constituindo no espaço livre em que a pergunta se desdobra e se oferece àquele que a ela se dispõe. Sobre as duas perguntas acima, uma parece andar para trás, enquanto a outra para frente. Entre elas estamos nós, aqueles que perguntam, num presente que parece sempre e cada vez mais se distender. No entanto, é preciso que se observe, essa distensão se choca com a ideia de uma eliminação do passado e uma ausência de futuro, pois, caso o pensamento que daí sobrevenha seja radical, aquilo que é – ou que foi e nunca deixou de ser – o passado, é retomado, "repassado" num movimento de "futurização", de abertura ao porvir, ao que dessa experiência sobrevém. Entre uma e outra pergunta encontramo-nos no meio, com a possibilidade de um salto. Se o daremos ou não, se abriremos caminho para essa possibilidade é o que precisa estar em jogo no percurso que propomos, cujos riscos assumimos desde que nos insinuamos de maneira insistente a perguntar pela essência da metafísica. II Proveniência fala de origem. A partir de onde a pergunta pela metafísica pode ser feita, caso não venha a ser apenas uma pergunta retórica e nem mesmo uma que pretenda respostas objetivas cujas finalidades sejam, por exemplo, aquelas que atendam a interesses de disciplinas de cursos de filosofia ou ainda aquelas de colocá-la em livros de história da filosofia para uma eventual comercialização? Não há outro caminho para a elaboração da pergunta a não ser a partir de uma experiência, de uma experiência fundamental, anterior a quaisquer outros interesses. O acréscimo “fundamental” se dá apenas para ressaltar que tal experiência não é uma qualquer, mas aquela que põe em xeque os fundamentos de toda a realidade, isto é, que nos deixa suspensos entre toda possibilidade de ser e de não ser de tudo o que é e há. III Em “A teoria platônica da verdade” , Heidegger, procurando pensar a essência da verdade, parte da experiência do agrilhoado no fundo da caverna platônica, cujo texto encontra-se na República, no livro sétimo . O agrilhoado, assim como todos os que se encontram na caverna, creem que as sombras que aparecem ao fundo, e para as quais eles sempre estiveram voltados, são o que há de mais verdadeiro. Tudo ali, então, se faz de maneira ordinária, isto é, todos os acontecimentos se dão naturalmente e a vida segue sem maiores questionamentos. Entretanto, eis que, de repente, o agrilhoado é solto de seus grilhões e volta o seu olhar para trás, sendo ferido por um lúmen de fogo que se encontra no lado oposto à sua mirada anterior. Ele, então, tomado por este clarão, sente dor. Quer imediatamente retornar à sua condição anterior. Mas como isso seria possível depois de ter experimentado a proveniência das sombras a partir do clarão que o incendiou? Ao dirigir seu olhar para o lúmen de fogo, ele caiu em experiência. A queda aqui implica uma impossibilidade de retomada do modo de ser anterior. Essa experiência, por ser fundamental, num primeiro momento, o paralisou. Os fundamentos desde os quais sua vida era constituída sofreram um abalo e tudo veio abaixo. Passa a não reconhecer mais as coisas como elas antes a ele se revelavam. Toda a realidade como ele a concebia se afastou e um abismo surgiu diante dele. Encontra-se agora em presença de um sem fundo, de um vazio, diante do Nada. O longo caminho que ele vai percorrer não está previamente dado, mas, antes, é o que vai se abrindo ao longo de uma jornada de busca de um sentido que se perdeu. É em meio a tropeços, desejos de parar, de desistir, de retornar, que ele segue para o outro lado, num movimento que vai do menos verdadeiro para o mais verdadeiro, das sombras do interior da caverna para a luminosidade de seu exterior. Esse movimento em direção ao mais verdadeiro, à luminosidade – no caso de Platão, ao mundo das ideias – podemos chamá-lo de metafísica. IV Metafísica, neste caso, é transcendência. É um movimento em que o antes agrilhoado e agora liberto se dispõe a atravessar a esfera do ente em direção ao que o funda como o ente que ele mesmo é. Trata-se de um dispor-se para um caminho que vai para além (meta) do ente em sua totalidade (phýsis). Essa disposição é aquela com a qual o filósofo, justamente por ser filósofo, traz junto a si e a partir da qual encaminha aquilo que se impõe como o necessário a ser pensado. Eis que o agora liberto salta para fora da caverna, achando-se no mundo das ideias, tendo que a ele se habituar: habituar-se à claridade que inunda tudo, todas as coisas. Ele, inicialmente, vê o reflexo delas nas águas, acostumando-se a elas lentamente, até poder olhá-las plenamente, observando como elas são iluminadas pelo sol, pela suprema ideia, a ideia das ideias. Essa manifestação da realidade, a partir da presença do mundo das ideias, faz com que o liberto compreenda, desde o fundo, o mundo em que antes vivia e que é necessário a ele retornar, pois é o lugar em que ele, enquanto humano, deve habitar. O problema se encontra, segundo Heidegger, nesse retorno. Isso que é outorgado a partir das ideias e de sua experiência passa a valer como o próprio fundamento de tudo. O dado, o outorgado, afasta-se, com isso, do dar-se, do outorgar-se. Trata-se, agora, de se fixar o que foi revelado a partir da experiência com o mundo das ideias. Nessa fixação, a ideia ela mesma, melhor, o seu ser, já se retirou e, com sua retirada, ficou presente um pensamento que a ele corresponde como o reto, o correto – sempre diante do manifestado, apartado ele mesmo da manifestação. Essa trajetória de pensamento, proveniente da representação daquilo que foi dado, doado pelo ser, funda uma compreensão de realidade não mais a partir da experiência originária que veio à tona inicialmente do sem fundo do abismo, mas sim do que a partir daí se revelou como o ente fundador de todos os outros entes, do ente em sua totalidade. A radicalidade de um pensar que não mais se satisfaz em buscar um ente como fundamento de todo ente está em um assentimento ao abismo a partir do qual experimenta-se o retraimento de sentido de tudo o que é doado, outorgado como fundamento. Por isso mesmo, ainda segundo Heidegger, este retraimento e seu mistério permanecem impensados na metafísica. Nesse sentido, intentaremos, com esse projeto, investigar esse retraimento, o seu movimento e significado, no âmbito da questão que pergunta pelo ser da metafísica e de sua história.
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