Projeto de pesquisa, UFRRJ
Sistemas de representação literários e museológicos: Racismo, Ruptura e Reparação - Prática Pedagógica de Políticas Públicas Antirracistas
Descrição
“... o romance e o jornal proporcionariam os meios técnicos ideais para ‘re-presentar’ o tipo de comunidade imaginada a que corresponde uma nação” . Lilia Moritz Schwarcz, pág. 12. In: Anderson, Benedict. “Apresentação” E “... não se pode descurar da importância da imaginação museológica e dos serviços arqueológicos coloniais que se conformaram como instituições de poder e de prestígio.” P. 15 In: Anderson, Benedict. “Apresentação”. No clássico do pensamento social intitulado Comunidades Imaginadas, de Benedict Anderson, um dos capítulos trata do “Censo, mapa e museu” descrevendo o papel dessas três práticas do Estado para tornar oficial o que interessa ao poder. Não é casualidade que este mesmo livro, em capítulos anteriores, tenha se dedicado longamente a explicitar o prestígio das línguas nacionais, bem guardadas nas literaturas canônicas nacionais, e o vínculo das línguas com a religião e com o imaginário-guia dos povos. Com imaginário-guia refiro-me aqui a uma certa operação de controle do imaginário que a Igreja fez durante séculos em nome do colonialismo e que o mercado e o fetiche da mercadoria fazem hoje, nesse tempo entendido como pós colonial. Até a classificação do tempo presente como “pós colonial” nos obriga a uma digressão volumosa para nos posicionarmos entre a variedade de classificações que usa a palavra “colônia” para nos situar temporal e espacialmente. Além do pós colonial temos o anticolonial (com Eduardo Lourenço), o contracolonial (com Nego Bispo) e o decolonial (com Françoise Vergès). Mencionamos aqui um autor para cada uma dessas classificações não porque cada um deles encerre o assunto dessas palavras, mas porque abrem para uma discussão necessária que vai para muito além da terminologia, abrindo nosso imaginário para perceber o mundo fragmentado e mal narrado em que vivemos. Cada vez mais mal narrado no que depender das novas tecnologias, que organizam em IA as narrativas em textos gramaticalmente aceitáveis mas que não contemplam toda a sociobiodiversidade, muito menos a diversidade subjetiva que produz sentido a um determinado território, seja o de uma comunidade virtual ou presencial, seja um país, uma aldeia ou um quilombo. Não vamos nesse momento do projeto nos ater à palavra “imaginário” mas é nossa intenção que uma das etapas dessa pesquisa se detenha sobre esse conceito e sobre, especialmente, os “imaginários” que se configuram no campo literário e museológico. Vamos aqui utilizar a metáfora do “campo de provas”, expressão compartilhada pelos desenvolvedores de software, militares e engenheiros que “imaginam”, põem em movimento determinados “imaginários” para conduzir coletivos e sociedades ao futuro, ou a um determinado futuro. O futuro está em disputa, já sabemos. E quem nos diz isso sem sombra de dúvidas é o uso cada vez mais amplo da palavra “inovação” que vem se tornando um conceito e uma prática, inclusive acadêmica, como se fosse um exercício que garantisse ou tentasse garantir o valor de uso para o futuro de nossos experimentos e ou investigações. Mais que isso, como se garantisse que estamos fazendo bom uso do nosso próprio temo de vida porque iremos “otimizar” uma prática ou encurtar o caminho para alguma descoberta. É curioso trabalhar com os testemunhos de povos e comunidades tradicionais e sermos confrontados cotidianamente com termos como esse, inovação, como já desde tempos anteriores, há muitas décadas, éramos confrontados com o tremo “desenvolvimento”. Os povos da floresta na Amazônia, no Congo ou na China nunca precisaram de uma ideia de inovação ou desenvolvimento para saberem exatamente quais conhecimentos utilizarem para continuarem reproduzindo florestas sociobiodiversamente. Dito isso, vamos direto, para o “campo de provas”, ou para o “trabalho de campo” citando autores, livros, patrimônios e museus com os quais pretendemos trabalhar. Esta investigação só é possível situada nas fronteiras disciplinares de diversos campos do conhecimento com os quais venho trabalhando nos últimos vinte anos, a saber: Literatura, Antropologia e História. Pois a História Canônica da Literatura Brasileira tratou pouco ou nada da região amazônica, a não ser quando trata do conjunto de textos que se convencionou chamar “Literatura de Viagens”. Por exemplo, Nimuendaju, nome guarani do pesquisador alemão Curt Unckel, sobr eo qual publiquei um ensaio (link no final do texto). No Brasil, foi a Antropologia quem melhor revelou as vozes da floresta que agora queremos ver aqui representadas na Literatura e nos Museus. O discurso literário e o discurso curatorial moldaram por séculos o que deveria ser imaginado como memória oficial da nação. Ouçamos, agora, o que as vozes dos sujeitos pertencentes a identidades coletivas subalternizadas têm a dizer do espaço comum que é o país e suas instituições. E do quanto desse questionamento discursivo implica reconhecimento da dívida história e da necessidade de formulação de políticas públicas de reparação para todos os campos, como forma, inclusive, de fortalecimento do sistema democrático. Todo este projeto se desenvolverá em diálogo com a pesquisadora que está sob minha supervisão no Programa de Pós Graduação em Letras; Estudos de Linguagem e de Literatura. A pesquisadora em questão é a Dra. Maria Lúcia Vignoli Rodrigues de Moraes, que é professora no INES – Instituto Nacional de Surdos e nos proporcionará o diálogo com a Cultura Surda necessário para compreender como esses discursos da nação no campo literário e museológico chegam a esse grupo social. Entre os autores que iremos trabalhar estão: Joel Rufino dos Santos, historiador, professor de Literatura durante décadas na UFRJ, escritor ganhador de dois prêmios Jabuti, ficcionista e ensaísta, escritor de literatura infantil nomeado para o Prêmio Hans Christian Andersen, preso e exilado político durante a ditadura civil militar das décadas de 60 a 80. Dalcídio Jurandir, escritor marajoara, ensaísta e romancista que escreveu 11 romances, dez deles sobre a região amazônica, ganhador do principal prêmio literário de sua época o Prêmio Machado de Assis, com seu primeiro romance, a quem foi atribuído o prêmio pelo conjunto da obra na década de 70 do século XX pela Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual não fazia parte, e que se recusou a ir receber porque seria entregue por um oficial do governo militar do Brasil à época. Foi preso político nas duas ditaduras brasileiras do século XX. Ambos os escritores são negros e usam parte de suas biografias para construir o imaginário que consta de seus textos. Também trataremos das escritoras brasileiras Sony Ferseck, indígena macuxi de Roraima, também editora da única casa editorial indígena do Brasil, Como editora, já conta com mais de 40 livros publicados, em sua maioria de autoria indígena ou temática indígena escrita por pesquisadores não indígenas. É possível que, ao longo da pesquisa, outras escritoras apareçam. Os museus brasileiros a serem visitados serão aqueles que contém acervo indígena e afrodiaspórico, ou, como Joel Rufino preferia caracterizar, acervo “negro brasileiro”. Esta pesquisa é desdobramento de pesquisas anteriores comprovadas por textos publicados e exposições realizadas. Links comprobatórios: https://site.unibo.it/letterature-patrimoni-musealizzazione-decolonialita/it/progetto https://www.museocivicomodena.it/en/news/from-the-amazon-to-the-museum https://www.plural.digitalia.com.br/index6c09.html?option=com_content https://tidsskrift.dk/bras/article/view/25190
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.