Projeto de pesquisa, UFRRJ
Umbanda angolana? Religiões tradicionais e catolicismo africano: o que mostram os relatórios episcopais do bispado de Luanda (XVIII – XIX)
Descrição
O presente projeto tem por objetivo investigar as práticas sagradas desenvolvidas entre bacongos, ambundos, ovimbundos, entre outros, na África Centro-Ocidental, entre o século XVIII e primeira metade do XIX, a partir da documentação eclesiástica produzida pelo bispado de Luanda. A pesquisa parte da hipótese de que o longo processo de contato entre missionários católicos europeus e populações centro-africanas não resultou apenas na difusão de um cristianismo africano, como tradicionalmente aponta parte da historiografia, mas na formação de uma nova prática religiosa, marcada pela ressignificação de elementos cristãos e pela permanência de princípios estruturantes das cosmologias locais, aqui compreendida pelo conceito de “umbanda de Angola”. O problema central da pesquisa consiste em compreender como se estruturaram essas práticas religiosas no interior da colônia portuguesa, chamada de Reino de Angola, bem como outras regiões cobertas pela jurisdição do bispado de Luanda, como os Reinos do Congo, Ndongo e Benguela, e de que maneira seus repertórios ritualísticos contribuíram para a formação das religiões afro-atlânticas que impactaram diferentes sociedades no mundo atlântico, especialmente o Brasil. Do ponto de vista metodológico, a investigação terá como principal base documental os fundos do Arquivo Histórico Ultramarino de Angola e do Arquivo do Bispado de Luanda, compostos por correspondências oficiais, relatórios episcopais, portarias, provisões, mandados e registros do juízo eclesiástico. A pesquisa torna-se viável, mesmo sem um fomento inicial, em razão do recente lançamento da plataforma digital portuguesa, DIGITARQ, onde mais de 8 milhões de arquivos estão disponibilizados para consulta online, entre eles os arquivos citados, contendo vasto material da administração portuguesa e por seu turno da atuação eclesiástica da Igreja Católica, o Arquivo Nacional da Torre do Tombo com importantes cadernos de promotores com relatórios de visitação do Santo Ofício para a região dos Reinos do Congo e Angola ao longo do Setecentos. O conjunto de fontes abrirá possibilidades não somente para o desenvolvimento do projeto de pesquisa que segue, mas principalmente em relação aos alunos de graduação envolvidos com a iniciação científica, bem como pós-graduandos da instituição, no que diz respeito a exploração de novos arquivos com materiais online. Para fontes referentes a História da África o projeto possibilitará o aprofundamento metodológico para o trabalho com tais arquivos, bem como o cruzamento de fontes partindo do método onomástico, que na micro-história o nome se torna o fio condutor das pesquisas. Os alunos serão instrumentalizados no ofício paleográfico de transcrições de fontes dos séculos XVIII e XIX, bem como o desenvolvimento de um trabalho de longo prazo institucional no campo da paleografia digital, com a utilização de novas ferramentas como o Transkribus. Ao privilegiar a documentação produzida no interior do próprio continente africano, a pesquisa pretende oferecer novas interpretações sobre os processos de formação das religiões afro-atlânticas e suas conexões históricas com o Brasil. Como resultados esperados, pretende-se identificar e sistematizar práticas rituais centro-africanas presentes na documentação episcopal, compreender seus mecanismos de transformação ao longo dos séculos XVIII e XIX e demonstrar sua centralidade na formação de repertórios religiosos atlânticos.
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