Projeto de pesquisa, UFRRJ
CINEMA, IMAGEM E ESCRITA HISTORIOGRÁFICA: Interações nas últimas décadas do século XX e primeiras do sec. XXI)
Descrição
Propõe-se uma pesquisa teórico-metodológica que examinará as relações e interações entre os modos de representação e imaginação próprios da História e os modos de representação e imaginação próprios do Cinema e das artes fílmicas, visando verificar de que maneiras as linguagens Histórica e Cinematográfica influenciaram-se ou podem se influenciar mutuamente, enfatizando-se neste momento o recorte das últimas décadas do século XX (anos 70 em diante) e primeiras décadas do século XXI. Ao mesmo tempo, temáticas específicas são examinadas, com suas problematizações historiográficas. O trabalho - considerado um arco mais amplo que conecta uma linha maior de projetos sobre Cinema-História que temos desenvolvido - desenvolve-se em ciclos, abordando filmografias relacionadas a distintos espaço-tempos históricos e a questões histórico-sociais escolhidas. Para o período em referência, almeja-se priorizar, junto aos alunos e bolsistas envolvidos, as áreas de História do Brasil e História da América, e agregar as reflexões sobre as representações fílmicas relativas às Alteridades, lutas contra o Racismo e enfrentamento de Autoritarismos - particularmente, neste último caso, atentando para os sistemas de repressão e as formas de resistência. Busca-se verificar como esses âmbitos, em temáticas diversas, encontraram uma representação historiográfica no cinema. Por outro lado, em paralelo a este trabalho sobre temáticas específicas, busca-se aprimorar a reflexão de longo alcance sobre como a própria escrita historiográfica pode se beneficiar do Cinema, investindo em novas formas de representar o tempo e de expor a polifonia de vozes sociais, e também de outros modos de expressão correlatos, como as HQs. * Comentário estendido: História e Cinema partilham ou podem partilhar algo de comum com relação a seus modos de imaginação, expressão e representação? Antes do próprio advento do Cinema enquanto uma forma específica de criação humana e de tecnologia possível para a produção da imagem-movimento, a História – aqui entendida como campo de conhecimento que toma para seu objeto de estudo os eventos e processos históricos – conseguiu desenvolver modos específicos de imaginar e de expressar imagens que hoje permitiriam aproximá-la de alguma maneira de alguns aspectos bastante característicos da arte fílmica? O que aprenderam, um do outro, História e Cinema, já na época de surgimento deste último enquanto forma de expressão artística, tecnologia e fenômeno relacionado à Indústria Cultural? Como cada um destes campos da criação humana interferiu e tem interferido um no outro? Para além disso, o projeto – estando inserido em uma linha de pesquisa de arco mais longo – também dialoga com outros modos de expressão contemporâneo, a exemplo dos recursos audiovisuais de todos os tipos e também de outros ancorados na expressão imagética, como a HQ e a arte fotográfica. . A Pesquisa aqui proposta– a partir de algumas das perguntas atrás elaboradas – almeja trazer uma contribuição voltada para definir um futuro campo de estudos – simultaneamente inserido no âmbito de estudos da relação Cinema-História e das reflexões sobre a Teoria da História – que poderá ainda se estender por muitos anos, para além do Projeto que aqui se apresenta. O enfoque inicial, com vistas a delimitar uma primeira etapa de trabalho dentro desta linha de reflexões, refere-se mais propriamente a uma análise dos modos de escrita e de imaginação histórica perceptíveis na historiografia – uma historiografia que inclui autores que precedem o próprio surgimento do Cinema, mas que, ainda sim, apresentam nos seus modos de narrar a história e de imaginá-la algo que poderia ser aproximado de uma imaginação fílmica. Trata-se de, nos limites iniciais deste projeto, comparar o discurso e os modos narrativos e imaginativos de alguns historiadores para investigar como lidam eles com o Tempo, o Espaço, a Imagem em Movimento, o discurso do Outro inserido dentro de uma montagem historiográfica, e a criação de possibilidades narrativas diversas, comparando-os concomitantemente aos padrões de imaginação que mais tarde seriam intensificados e concretizados pela arte fílmica. . A questão que consideraremos a partir daqui é a de que a linguagem verbalizada da escrita historiográfica e a linguagem-movimento do Cinema têm muito a oferecer uma à outra. Na verdade, poderemos mesmo considerar o fato de que já existia um tipo de imaginação cinematográfica muito antes do Cinema propriamente dito surgir, desde que consideremos como “imaginação cinematográfica” essa capacidade de imaginar o movimento, de plasmar mentalmente imagem (e som) em movimento, e de tentar expressar de alguma forma essa movimentação imagética, mesmo que através da verbalização oral ou escrita. É um entendimento análogo o de Eisenstein, para quem “o cinema começou a ser inventado bem antes de começar a ser inventado”. Ele mesmo nos lembra a utilização de algo análogo ao recurso cinematográfico das Montagens, por exemplo, na pintura, com as Vistas de Toledo elaboradas por El Greco, ou nas artes dramáticas, com as soluções de cena propostas pelos atores japoneses do teatro Kabuki, ou ainda na própria estrutura dialética dos ideogramas chineses e japoneses. Existe mesmo uma passagem em que o cineasta russo se refere à tradicional sociedade japonesa como possuindo uma cultura cinematográfica onde só faltava uma coisa ... o Cinema. . A ideia da qual nos propomos partir neste Projeto é a de que também a História – ou pelo menos a História elaborada por alguns historiadores com certas capacidades descritivas, narrativas, imaginativas, e criativas com relação à exposição de suas análises – também apresenta certas potencialidades cinematográficas – ou, melhor dizendo, para instigar o leitor da obra a impressão da imagem-movimento, do encadeamento de cenas, e de formas narrativas mais complexas. Mesmo muito antes do Cinema, historiadores os mais antigos revelaram capacidades de imaginação, representação e expressão que favorecem nos seus leitores a apreensão de uma certa imagem-movimento relacionada à representação de uma realidade que não está mais diante de si. Historiadores como Tucídides, no exemplo citado, como Fernão Lopes, na sua descrição do Cerco de Lisboa, ou como Michelet, nos quadros em que pintou o Povo ou a Feiticeira, e outros ainda, embora não tenham obviamente conhecido o Cinema enquanto tecnologia capaz de materializar a imagem-movimento, nem por isso deixaram de revelar uma capacidade para plasmar imagens através da verbalização. . De igual maneira, esta singularidade do texto histórico, que o faz desdobrado sobre si mesmo, e que obriga à contraposição entre o discurso do historiador e o discurso da fonte, em um ir-e-vir entre dois ou mais tempos fazendo com que o leitor se coloque diante de sucessivos cenários, o quanto não teria de uma montagem, no sentido dialético proposto por Eisenstein? Poderíamos ir mais adiante, lembrando que, tão logo começa a aprender o seu ofício, o historiador habitua-se a ir e vir no tempo, a plasmar mentalmente cenários e cenas e exprimi-los verbalmente vencendo as limitações da escrita linear, a manipular o espaço e o tempo encurtando-os ou estendendo-os conforme os objetivos da narrativa ou da análise histórica. Aprende-se também, na formação do historiador, a abrir espaço a muitas vozes, a dialogar com estas vozes mas também a deixar que elas se expressem com seu próprio discurso, por vezes contra o pano de fundo da própria fala do historiador. Ir e vir no tempo, encurtar, estender ou fragmentar o espaço e o tempo é algo que também faz necessariamente parte do próprio discurso cinematográfico, da mesma forma que este mesmo discurso fílmico deve também lidar nos seus modos de narratividade com a imposição do outro, da alteridade que é contraposta ao próprio discurso onde se esconde ou se explicita o cineasta e que lhe dá a necessária substância. O quanto não teriam a aprender um modo de expressão com o outro – Cinema e História? . Para além da complexa e importante discussão sobre a relação Cinema-História – que situa o Cinema simultaneamente como agente, fonte, e meio de representação para a História – a Pesquisa aqui proposta pretende examinar precisamente como, inclusive antes mesmo de ser influenciada pelas possibilidades cinematográficas propriamente ditas, a História, enquanto campo de saber que desenvolve um modo de imaginação e um modo de representação do mundo humano bastante específicos, lida ela mesma, em função de suas próprias singularidades, com algum tipo de imaginação/representação da ‘imagem movimento’, com recursos análogos à montagem cinematográfica (particularmente nos modos de manipular o confronto entre o discurso do historiador e o discurso das fontes), com possibilidades narrativas e analíticas capazes de encurtar, alongar, fragmentar o espaço-tempo. Os grandes historiadores, sustentaremos aqui, sempre tiveram essa capacidade, ou pelo menos a possibilidade de desenvolver uma capacidade de lidar com um tipo de imaginação de algum modo análoga à cinematográfica, e muito frequentemente encontraram recursos criativos para expressar e representar esta imaginação, apesar da linearidade da linguagem escrita. . O mundo das imagens a serem expressas de maneira criativa – embora aqui tratemos de imagens mentais que devem passar em seguida ao âmbito das imagens verbais – jamais foi estranho aos grandes historiadores. Por isso, o que o século XX nos oferece é precisamente a possibilidade do encontro entre duas linguagens que desde sempre possuíram a possibilidade de encontrarem uma sintonia, uma possibilidade de interação mútua, de renovação uma na outra. O Projeto aqui estabelecido antevê as possibilidades de um grande estudo sobre o encontro destas duas grandes linguagens e modalidades da criação humana: uma já milenar, a História, outra tipicamente contemporânea, o Cinema. Para ser realizado com maior viabilidade em um espaço de dois anos, propomo-nos a investigar em um primeiro momento as quatro últimas décadas do século XX, dentro de um ambiente cultural relacionado ao Ocidente (Europa e Américas). Isto implica em investigar como cineastas e historiadores viram estas possibilidades de relação entre Cinema e História, e também as possibilidades de uma destas modalidades da criação humana aprender novos recursos discursivos e representacionais com a outra. Mas implica, para além disto, em confrontar as próprias realizações historiográficas com as realizações fílmicas. . Situamos esta Pesquisa no âmbito da Teoria e Metodologia da História porque ela se desenvolverá como uma reflexão sobre o discurso historiográfico, seja este o discurso construído pelos próprios historiadores profissionais, seja o discurso que o Cinema pôde construir sobre a própria História e sobre as diversas histórias. Estudamos aqui modos de imaginação historiográficos, modos de representação, possibilidades de expressão afeitas ao ofício do historiador. Preocupar-nos-emos, também, com os diálogos interdisciplinares que a História entretece com a arte fílmica, ou como o ofício historiográfico dialoga com esse outro ofício que é o do Cineasta. Por fim, atentaremos para o encontro dos cineastas com a própria história, e para com a aliança entre historiador e cineasta com vistas a um tipo de representação historiográfica. Embora sustentemos que os historiadores sempre buscaram ser criativos em seus modos de imaginação e representação da História no que concerne à apreensão e expressão de imagens – e poderiam ser aqui novamente citados exemplos que remontam até um período que antecede o próprio surgimento do Cinema como tecnologia de projetar imagens – a escolha do recorte relacionado às últimas décadas do século XX justifica-se por alguns motivos. À partida, é precisamente nesta época que diversos historiadores começam atentar para a necessidade de diversificar seus modos narrativos, suas estruturas de exposição da análise historiográfica, suas maneiras de dialogar com as fontes a partir de novos formatos. Em âmbitos tão diversos como a historiografia marxista inglesa, a História Cultural francesa, a Micro-História italiana, surgem nestas décadas trabalhos historiográficos intensamente inovadores. Apenas para citar um exemplo onde a imaginação cinematográfica e a imaginação histórica encontram-se de maneira particularmente feliz, podemos citar a obra O Retorno de Martin Guerre, de Natalie Zemon Davis, rica como exemplo não apenas porque explora novos modos narrativos como porque, de outro lado, trata-se de obra que nasceu de uma atuação da historiadora junto a cineastas para a elaboração de um filme. A reflexão proposta pretende atravessar transversalmente produções várias na busca de pontos que se mostrem indicativos do afloramento de uma preocupação contemporânea dos historiadores com relação à imagem. Também nos ocuparemos de rastrear uma produção historiográfica nacional enquadrada neste período, com vistas a perceber como também os historiadores brasileiros trataram a imagem. Este rastreamento, a ser empreendido mais sistematicamente, será produto da própria pesquisa, de modo que nos absteremos de relacionar diversos dos trabalhos historiográficos que depois poderão ser assimilados como fontes. Percorrer com um olhar atento uma produção mais ampla, para a partir daí abordar fontes historiográficas que nos permitam desenvolver estas reflexões teórico-metodológicas, será propósito da própria pesquisa. Trata-se aqui, acrescentaremos, de instalar um olhar que buscará identificar os novos padrões de criatividade imagética que têm sido utilizados pelos historiadores. . Ao mesmo tempo, com os planos de trabalho direcionados para o pesquisadores-discentes incorporados ao projeto, a Pesquisa abre-se para um estudo de obras fílmicas que trabalhem com a representação histórica, recursos historiográficos e incorporação de historiadores na produção fílmica. Nestes planos de trabalho, privilegiamos questões sociais importantes, como as representações fílmicas de alteridades, as lutas contra o Racismo e as resistências políticas contra regimes autoritários, sempre articulando a estes temas as representações fílmicas relacionadas à História do Brasil e História da América. Neste ciclo que se inicia com a instalação de dois planos de trabalho para bolsistas de iniciação científica, voltaremos a atenção para duas questões importantes que têm sido representadas pelo Cinema. Uma delas é a questão da resistência negra, do racismo e das lutas e movimentos sociais que a ele se opõem – ocorrendo aqui a possibilidade de cotejar o cinema internacional, a exemplo da produção fílmica estadunidense, e o cinema brasileiro. A segunda questão, que estará a cargo de um segundo bolsista, refere-se às representações fílmicas que abordaram temas relacionados ao autoritarismo, ditaduras, e resistências sociais e culturais voltadas contra estes campos.
Candidatar-se
Entre na sua conta para enviar uma carta de intenção à coordenação deste projeto.