Projeto de pesquisa, UFSB
Trauma, lutos e reconstrução psicossocial: violência coletiva e subjetividades emergentes na experiência de mulheres latinoamericanas
Descrição
O projeto propõe compreender, utilizando uma perspectiva psicossocial integradora das dimensões subjetiva, social e política, as experiências de violência, de perda de entes queridos e de reconstrução social, vividas por mulheres em contextos afetados por práticas genocidas e pela precariedade social, no Brasil e na Colômbia. Embora existam diferenças culturais e sociais entre os dois países, ambos apresentam elevados índices de violência de gênero, de impunidade, bem como de práticas genocidas direcionadas principalmente a comunidades com marcadores sociais específicos, vítimas de exclusão e precariedade social. Esses elementos em comum e as especificidades de cada país justificam a importância de entendermos cada contexto em seus pontos convergentes e complementares. Trata-se de um estudo qualitativo, orientado pelos princípios do método do interacionismo simbólico em diálogo com a pesquisa narrativa. O trabalho de campo integra diversas técnicas de produção de informação: análise documental, entrevistas semi-estruturadas e oficinas reflexivas. As participantes serão mulheres brasileiras e colombianas, moradoras de comunidades particularmente afetadas pela violência e submetidas a práticas de exclusão social, que sofreram violência direta e/ou perderam entes queridos assassinados. As narrativas serão analisadas em unidades hermenêuticas construídas no programa Atlas.ti, seguindo as orientações da teoria fundamentada. Alguns dos resultados esperados são: produções acadêmicas conjuntas; intercâmbios e missões acadêmicas entre os dois países; realização de um seminário internacional no Brasil e produção de uma tecnologia social destinada a profissionais das redes de acolhimento de pessoas vítimas de violência. O projeto permitirá consolidar uma rede internacional de pesquisa sobre trauma psicossocial entre pesquisadores do Brasil e da Colômbia. Contexto: a violência contra as mulheres no Brasil e na Colômbia. Atualmente, o Brasil possui oito das 50 cidades com mais de 400.000 habitantes com as maiores taxas de homicídios do mundo (Seguridad, Justicia y Paz, 2025). Ao interrogarmos quem são as vítimas, constatamos que existe um perfil predominante: dos 47.508 homicídios cometidos no Brasil em 2022, 76,9% eram pessoas negras. Neste país, o homicídio é a principal causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos de idade. Em 2022, 50,2% das mortes violêntas intencionais correspondeu a jovens entre 18 e 29 anos de idade, sendo que os jovens negros têm 2,71 vezes mais probabilidades de morrer por homicídio, que os jovens brancos (Brasil, 2017). No estado da Bahia foram cometidos 6754 homicídios em 2023, o que representa uma taxa de homicídios de 44,8%, a segunda mais alta do país. Esse cenário de violência não pode ser analisado sem incorporar uma perspectiva interseccional, que inclui os marcadores sociais de raça, gênero, geração e classe social, já que os grupos mais vulneráveis à violência compartilham certos marcadores sociais. De maneira geral, os dados demostram que existe maior índice de vitimização de jovens negros em relação aos brancos. O cenário de violência brasileiro, e em especial contra as mulheres, não é um caso isolado. Segundo as Nações Unidas, a violência de gênero molda uma crise global (UN Women, 2022). Não nos parece excessivo enfatizar que violência contra as mulheres no Brasil deve ser compreendida como um fenômeno estrutural, historicamente constituído e sustentado por desigualdades de gênero, raça e classe, enraizadas na formação social brasileira e na persistência de relações patriarcais e raciais de dominação (Saffioti, 2004). Seus antecedentes estão profundamente vinculados à formação social brasileira, marcada pela escravidão, pelo patriarcado e pela colonialidade, que instituíram regimes de dominação nos quais determinadas vidas — sobretudo de mulheres negras e pobres — foram historicamente desvalorizadas, exploradas e expostas à violência. No plano contemporâneo, essa herança do horror se expressa em indicadores alarmantes. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) (2025), o Brasil registra, de forma persistente, altas taxas de violência letal contra mulheres. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontou que, apenas em 2023, mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio no país, o que representa uma média de quase quatro mortes por dia. Esses dados revelam não apenas a magnitude do fenômeno, mas sua continuidade histórica, indicando que a violência de gênero permanece como um problema estrutural, não episódico e, portanto, naturalizado. Além da violência letal, outras formas de violência também apresentam elevada incidência. O mesmo relatório indica crescimento nos registros de violência doméstica, estupro e lesão corporal contra mulheres, sendo que a maioria desses crimes ocorre no âmbito doméstico, perpetrados por parceiros ou ex-parceiros. Reitera-se o caráter estrutural e cotidiano dessas práticas. Em 2024, uma vez mais, os dados oficiais de registros policiais indicam aumento de diversas formas de violência contra as mulheres. Neste ano, as análises desta seção se debruçam sobre nove tipos de crime contra mulheres: homicídio e feminicídio (em suas modalidades consumada e tentada), lesão corporal dolosa em contexto de violência doméstica, ameaça, perseguição (stalking), violência psicológica e, de forma inédita, o crime de descumprimento de Medida Protetiva de Urgência” (MPU). (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025) Entretanto, a análise desses indicadores exige considerar também a dimensão racial, visto que mulheres negras ainda são as principais vítimas da violência letal no Brasil. Estudos como o Atlas da Violência (Ipea & FBSP, 2025) demonstram que a taxa de homicídios de mulheres negras é significativamente superior à de mulheres não negras, evidenciando a interseccionalidade entre racismo e sexismo no âmbito da produção de violência em nosso país. Essa seletividade racial e social da violência pode ser compreendida à luz do conceito de violência estrutural de Galtung (1969), que aponta para formas de organização social que impedem determinados grupos de acessar condições básicas de vida e proteção. Retomando os dados do Brasil, por exemplo, mulheres negras e periféricas são frequentemente privadas de acesso adequado à saúde, educação, justiça e segurança, o que as torna mais expostas à violência e menos protegidas pelo Estado. É notório que os dados sobre a violência contra as mulheres no Brasil revelam um cenário em que práticas históricas de exclusão, racismo e patriarcado se articulam a formas contemporâneas de violência e necropolítica. Nesse contexto, compreender o luto dessas mulheres implica reconhecer sua inserção em um sistema mais amplo de violência, bem como as formas de resistência e elaboração que emergem diante dele. No caso da Colômbia, a vitimização das mulheres no contexto do conflito armado colombiano tem sido marcada por violências múltiplas e sistemáticas, entre as quais se destacam a violência sexual, o deslocamento forçado, o desaparecimento de familiares, a expropriação territorial e a exclusão socioeconômica. Essas formas de violência têm produzido danos profundos que transcendem o corpo físico, afetando os vínculos afetivos, as memórias individuais e coletivas, assim como os projetos de vida das mulheres (Hacen-Flores e Villa-Gomez, 2021; Muñiz e Correa, 2022; Martínez e Echeverría, 2025). De acordo com o Registro Único de Víctimas (RUV), das mais de 10 milhões de pessoas reconhecidas como vítimas do conflito armado interno, 5.128.561 são mulheres, sendo o deslocamento forçado, os homicídios, as ameaças, o assédio e o desaparecimento forçado as principais modalidades de vitimização (Unidad para las Víctimas, 2025). Diversos estudos advertem que essas violências têm operado de maneira diferenciada segundo o gênero, a etnia, o território e a posição socioeconômica, produzindo impactos específicos em mulheres afro-colombianas, camponesas e deslocadas, cujas experiências têm sido historicamente invisibilizadas (Guerrero, 2023; Camargo, 2025). Nesse contexto, a categoria de “vítima” reconhecida institucionalmente mostra-se insuficiente para dar conta da complexidade dos danos sofridos, na medida em que tende a homogeneizar experiências atravessadas por múltiplas desigualdades estruturais, o que incide diretamente nos processos de reparação (Martínez e Echeverría, 2025). No contexto colombiano de violência coletiva, as mulheres têm sido as principais afetadas; tanto quando participaram como combatentes dos grupos armados, assim como habitantes das regiões na disputa entre os projetos de poder dos grupos armados (Centro Nacional de Memoria Histórica , 2018). Os regimes de dominação implementados pelos grupos armados não se limitaram às dimensões política e econômica. Seu modo de proceder envolvia o domínio sobre subjetividades, relações afetivas, papéis sociais, identidades de gênero e orientações sexuais, entre outras características ou comportamentos, individuais ou coletivos, considerados como uma ameaça à ordem que pretendiam impor (Arroyave, 2017). Por exemplo, em Rincón del Mar (Córdoba) o estupro tornou-se uma forma violenta e notória de punir as mulheres que não cumpriam a ordem de gênero imposta pelos grupos paramilitares (Centro Nacional de Memoria Histórica, 2018). Tais práticas incluíam a regulação das relações intersubjetivas dentro dos grupos armados, onde as mulheres geralmente eram colocadas em uma posição de subordinação em relação aos homens (Patiño e Patiño, 2012). A violência letal como prática genocida no Brasil e na Colômbia. Segundo Feirstein (2014), as práticas genocidas são típicas de tecnologias e dispositivos de poder que buscam a dominação e a subordinação de determinados grupos sociais e devem ser compreendidas em suas características históricas, sociais e contextuais. No Brasil e na Colômbia as práticas genocidas têm afetado principalmente grupos sociais com características sociodemográficas definidas: população negra e pobre no Brasil; assim como camponeses, indígenas e população negra, na Colômbia. A violência extrema atinge principalmente grupos de pessoas consideradas “resíduos” humanos por não estarem articuladas em suas dinâmicas de consumo (Bauman, 2006); população considerada indesejável ou descartável pela ordem biopolítica, e que ao mesmo tempo é objeto de forte vigilância policial e privação de direitos. São alteridades valorizadas negativamente, entendidas como o “grupo de minorias ou não, representando o periférico, monstruoso, anômalo ou rejeitado pelo pensamento social ou cultural dominante” (Arroyave, 2011, p. 67). Essas alteridades são predominantemente objeto de diferentes práticas de exclusão social que incluem a coerção da autonomia pessoal e a perda do status subjetivo de igualdade moral, necessário para interagir em um nível de igualdade reconhecida (Patiño e Faria, 2019; Arroyave, 2010). O cerne de todas as práticas genocidas é a compreensão do "outro" como uma alteridade negativa. O extermínio de um grupo social específico busca promover uma concepção de sociedade, por isso são eliminados os indivíduos contrários à ordem social, moral ou econômica dominante (Arroyave, 2017). Nos contextos sociais, a eliminação de grupos sociais ocorre geralmente no âmbito de um plano estratégico que visa o controle territorial e social da população em geral, ainda que especificamente dirigido a grupos sociais desfavorecidos. A aniquilação de um grupo social, por uma característica distintiva, não ocorre espontaneamente; indicando uma racionalidade de dominação, que requer uma infraestrutura que a sustente, tanto ideologicamente, quanto socialmente e financeiramente. (Arroyave, 2017) A violência não se limita aos assassinatos em massa, mas, como ação estratégica, produz efeitos sociais e emocionais sobre toda a população que se quer dominar. Nas palavras de Achile Mbembe (2018), essas práticas se configuram como um projeto de necropolítica direcionado não apenas às vítimas de homicídios, mas também às suas famílias e comunidades. Nesse contexto, a violência contra a mulher articula-se diretamente com as práticas sociais genocidas. Conforme discutido por Feierstein (2009), o genocídio deve ser compreendido não apenas como extermínio físico, mas como um processo social que envolve a construção de “alteridades negativas” e sua eliminação simbólica e material. Daí a constatação dos déficits de reconhecimento de alguns corpos, como corpos a serem eliminados, no âmbito social. No Brasil, esse processo se manifesta de forma evidente na violência letal contra a população negra, especialmente jovens, configurando um padrão sistemático de morte que atinge determinados grupos sociais. Em síntese, assassinatos massivos de membros de populações não reconhecidas positivamente no Brasil e na Colômbia formam parte de outras violências diretas e estruturais, que afetam as necessidades de sobrevivência, de bem-estar e as identidades dos grupos sociais afetados (Galtung, 1990). Em outras palavras, frequentemente as comunidades objeto de extermínio têm acesso precário ou não possuem acesso a serviços de saúde, educação, recreação e tratamento digno no sistema judicial, quando demandam por justiça. Por esse motivo, a partir de uma perspectiva psicossocial, as experiências subjetivas pela perda violenta de seus filhos e entes queridos devem ser compreendidas dentro de um sistema integrado por violências diretas e estruturais, justificadas a partir de violências culturais (Galtung, 1990). Reconhecemos que os temas deste estudo devem ser indagados considerando as particularidades de cada contexto e temos escolhido para tal interesse, específicamente os casos do Departamento de Antioquia, na Colômbia; e do Estado da Bahia, no Brasil. Para fundamentar os objetivos propostos, este estado da arte analisa antecedentes de pesquisa em cada um dos contextos e apresenta os referentes teóricos que orientam o presente projeto. Em síntese, o quadro atual de violência demanda pesquisas, que identifiquem as distintas dimensões do fenômeno e reconheçam as singularidades pessoais, sociais e culturais de cada contexto. Os resultados da pesquisa poderão orientar ações dos profissionais das instituições de apoio tanto na área da saúde como na assistência social, que atendem e acompanham as pessoas e comunidades afetadas por acontecimentos violentos e criar condições de superação da situação. O projeto se justifica por seus apoios significativos no campo teórico da psicologia social, por
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