Projeto de pesquisa, UFSB
O republicanismo popular de Cipriano Barata e Luís Gama
Descrição
A proclamação do regime republicano em 1889 no Brasil consagrou “uma forma de governo oligárquico, excludente e sem nenhuma sensibilidade para a questão social” (Starling, 2018, p. 17). Longe de representar uma característica intrínseca aos regimes e ao ideário republicano, esse foi o coroamento de uma lenta e prolongada derrota do republicanismo popular e democrático, espécie de fantasma político-ideológico que preocupava as classes dominantes (e instigava as dominadas) desde a segunda metade do século XVIII, na Era das Revoluções (Hobsbawm, 1982), também chamada de Era das Revoluções Democráticas (Palmer, 1959). Acusada de querer instaurar um regime republicano e democrático, a Conjuração Baiana desponta em nossa história como acontecimento que enlaçou estes dois significantes (Fonseca, 2012; Starling, 2018), enlaçamento esse que no século XIX seguiu produzindo medos e instigações, agora atravessado e confundido nos significantes do “liberalismo exaltado” e do federalismo, notadamente em Pernambuco e na Bahia (Mello, 2022). Mais complexo, mas também experimentado na Europa, foi o travestimento do republicanismo em projetos de monarquia constitucional (Leite, 2000, p. 299), regime este que foi prometido e propagandeado por Pedro I quando buscava conseguir a adesão das “províncias do Norte” para o seu projeto de ruptura com as Cortes de Lisboa, o que pouco tempo depois foi frustrado com o fechamento da Assembleia Constituinte em 1823, quando os militares enviados por Portugal já haviam sido derrotados na Bahia, no Maranhão e no Pará. A pesquisa aqui proposta visa compreender os desafios postos por esse republicanismo popular – ao mesmo tempo fluido e substantivo – em duas conjunturas do século XIX, aquela que vai da Revolução Pernambucana de 1817 à Sabinada de 1838, através da atuação política de Cipriano Barata (1762-1838), e aquela das décadas de 1860 e 1870, de intensificação do debate sobre a abolição da escravidão e de institucionalização política do republicanismo, dois vetores que, articulados, serão analisados a partir da atuação de Luís Gama (1830-1882). Barata e Gama, personagens baianos de relevo nacional, tidos por agitadores e criticados por quererem envolver a “arraia miúda” na política, terão seus posicionamentos analisados quanto aos entrelaçamentos entre república, democracia, antiescravismo e antirracismo, e quanto às formas de interdição discursiva (Fonseca, 2012) à expressão plena dessas características em seu republicanismo radical.
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