Projeto de pesquisa, UFSB
Leitura em telas digitais e movimentos oculares: uma abordagem de interação humano-computador em crianças com intoxicação por metilmercúrio
Descrição
Esta proposta investiga como a exposição ao metilmercúrio (MeHg), metal pesado contaminante na Amazônia e associado ao garimpo, afeta a leitura digital de crianças ribeirinhas do rio Madeira (Rondônia). O mercúrio está naturalmente presente na região Norte do Brasil e é liberado ao ambiente por queimadas, mineração de ouro e combustão de combustíveis fósseis; após a liberação, é transformado por microrganismos anaeróbicos em metilmercúrio, que se acumula na cadeia alimentar e atinge níveis elevados nos peixes consumidos por comunidades ribeirinhas e amazônicas. Evidências apontam elevada prevalência de mercúrio em populações infantis dessas comunidades. Em levantamento no médio rio Madeira, 75% das crianças apresentaram níveis de mercúrio no cabelo acima de 2 µg/g (limite de referência da OMS), com valores superiores a 10 µg/g em áreas de garimpo, faixa associada a comprometimento neurológico e cognitivo. O metilmercúrio impacta diretamente o sistema nervoso central em exposições pré-natais e na infância, ocasionando déficits motores, cognitivos e sensoriais, incluindo comprometimento da acuidade e do campo visual e da coordenação motora ocular. Essa ampla variação de contaminação evidencia um gradiente de exposição na população, o que fundamenta a adoção de um delineamento dose–resposta. Entre as funções visuais críticas para o desenvolvimento infantil destacam-se as fixações e as sacadas, movimentos oculares responsáveis por captar, processar e integrar as informações textuais durante a leitura. Como a leitura deixou de estar restrita ao papel e passou a ocorrer predominantemente em telas digitais (tablets, computadores e smartphones), e como a leitura em dispositivos envolve telas retroiluminadas, contrastes variáveis e estímulos multimodais que intensificam a exigência visual e cognitiva, a hipótese central é que o metilmercúrio compromete os movimentos oculares essenciais à leitura, prejudicando fluidez, velocidade e compreensão e, por consequência, o desempenho escolar. Trata-se de estudo empírico, quantitativo, de delineamento dose–resposta com medidas repetidas intrassujeito, com 45 crianças de 8 a 12 anos, estratificadas por nível de exposição ao metilmercúrio (baixa, média e alta toxicidade), quantificado por biomarcadores capilares e sanguíneos. O nível de exposição é tratado prioritariamente como variável contínua (µg/g de Hg), com estratificação em tercis apenas nas análises categóricas complementares. Não há grupo controle não exposto: dada a exposição generalizada nas comunidades do rio Madeira, o recrutamento busca maximizar a variância de exposição, incluindo deliberadamente crianças de comunidades com menor histórico de contaminação para assegurar amplitude suficiente na relação dose–resposta. O tamanho amostral (n =˜ 45) é fundamentado em cálculo formal de poder estatístico (poder de 0,80, alfa = 0,05), com alvo na detecção da inclinação da relação dose–resposta. Em ambiente controlado, cada criança utiliza um sistema de rastreamento binocular dos movimentos oculares (Tobii Pro Fusion, 120 Hz), sentada a cerca de 65 cm de um monitor de 24", com estímulos em fonte Helvética preta 38 pt sobre fundo cinza e calibração de nove pontos. São realizadas três tarefas em gradiente crescente de demanda oculomotora e cognitiva: (i) fixação do olhar; (ii) movimento de sacadas em oito direções; e (iii) leitura de texto. Crianças sem habilidade semântica de leitura realizam a técnica de Landolt-C (estímulos visuais não linguísticos); crianças com habilidade de leitura leem os textos semânticos e, adicionalmente, a versão em Landolt-C dos mesmos textos, permitindo estimar intrassujeito o custo de processamento semântico. Todos os estímulos são aleatorizados para evitar efeitos de aprendizagem e ordem. São mensuradas: tempo total de leitura; número e duração das fixações; número e amplitude das sacadas e retrossacadas; tempo e caminho de regressão; e diâmetro médio da pupila. As séries pupilares são interpoladas e filtradas (passa-baixa de 10 Hz) e analisadas por task-evoked response e Index of Pupillary Activity. A análise emprega ANOVAs e Modelos Lineares Mistos com medidas repetidas, tendo a exposição como preditor principal, tarefa, habilidade de leitura e covariáveis (idade, sexo, acuidade, nível socioeconômico) como efeitos fixos, e interceptos por participante e por item como efeitos aleatórios, definindo palavras e ícones dos estímulos como áreas de interesse. A hipótese central é testada pela inclinação da regressão das variáveis oculomotoras sobre a concentração de Hg, com exame de efeito de limiar e estimativa da benchmark dose, além de modelo de mediação (exposição; déficit oculomotor; desempenho de leitura). O projeto é executado pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), campus Jorge Amado, com cooperação interinstitucional da UNIR (Educação Física/GEDEM), responsável pelos exames de biomarcadores e pela execução do protocolo de coleta em campo com recursos próprios, e da UNESP (Centro Multidisciplinar de Desenvolvimento de Tecnologias Assistivas), com suporte metodológico em rastreamento ocular e pupilometria. Inclui plano de gestão de dados em conformidade com a LGPD e a Resolução CNS nº 466/2012, e plano de popularização voltado a famílias ribeirinhas, crianças, professores da educação básica, agentes comunitários de saúde e gestores municipais. Os resultados podem orientar políticas educacionais e de saúde, o desenho de materiais digitais acessíveis e práticas pedagógicas inclusivas, além de subsidiar tecnicamente políticas de controle da atividade garimpeira e de monitoramento ambiental na bacia do rio Madeira, alinhadas à Convenção de Minamata, contribuindo para mitigar desigualdades regionais e promover inclusão escolar na Amazônia.
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