Projeto de pesquisa, UFSB
O que vem após a decolonialidade? Arte contemporânea, linguagem e reconfiguração do sensível nas artes visuais brasileiras
Descrição
Este projeto de pesquisa se constitui em um novo desdobramento teórico e metodológico da investigação anterior desta proponente, na qual se analisa a emergência de poéticas e práticas curatoriais que tensionam as estruturas excludentes do sistema da arte e ampliam a visibilidade de artistas negros, indígenas, periféricos, LGBTQIAPN+ e outros sujeitos historicamente subalternizados. Se a pesquisa anterior se concentrou na compreensão da chamada “virada decolonial” como fenômeno de transformação nos modos de produção, circulação e legitimação da arte contemporânea brasileira, o presente projeto avança para uma nova camada reflexiva, interrogando seus desdobramentos estéticos, conceituais e pedagógicos a partir da seguinte questão: o que vem após a O que vem após a decolonialidade? Arte contemporânea, linguagem e reconfiguração do sensível nas artes visuais brasileiras decolonialidade? Parte-se da hipótese de que o legado mais potente da crítica decolonial não reside apenas na ampliação da representatividade institucional ou na disputa por espaços de reconhecimento no circuito artístico, mas sobretudo na capacidade de determinados artistas de reinventarem a linguagem e instaurarem novos regimes de sensibilidade, percepção e imaginação política. A pesquisa busca, assim, deslocar o debate para além das polarizações recorrentes entre a defesa irrestrita das políticas identitárias e sua crítica como forma de cooptação mercadológica, concentrando-se na análise de produções artísticas que efetivamente transformam a experiência estética e produzem novas formas de elaboração simbólica da colonialidade. Serão analisadas obras e produções críticas de artistas como Paulo Nazareth, Aline Motta, Maxwell Alexandre, Zahi Tendehar e Coletivo Kókir, bem como escritos de autores como Denilson Baniwa, Jaider Esbell, Jota Mombaça e Castiel Vitorino Brasileiro, compreendendo suas práticas como formas de insurgência estética e epistemológica. O estudo considera que a potência transformadora dessas produções não está necessariamente na ruptura com um suposto cânone artístico — já profundamente tensionado pela própria modernidade e pelas vanguardas ocidentais —, mas na reconfiguração dos modos de circulação, pertencimento e visibilidade no sistema da arte, bem como na capacidade de converter experiência histórica, memória e violência colonial em invenção formal e força poética. Como desdobramento da pesquisa, prevê-se a participação de bolsista de iniciação científica na sistematização bibliográfica, análise de materiais críticos e elaboração de conteúdos voltados à futura produção de materiais didáticos sobre arte contemporânea, decolonialidade e ensino de artes visuais. Nesta etapa, o foco não será ainda a difusão pública imediata desses materiais, mas sua construção conceitual, metodológica e pedagógica como base para futuras ações de extensão, formação docente e circulação acadêmica ampliada. Trata-se de consolidar um repertório teórico e analítico que permita, em uma etapa posterior, a produção qualificada de instrumentos de mediação e ensino voltados à educação básica, ao ensino superior e aos espaços expositivos. Dessa forma, o projeto articula teoria, crítica e formação, contribuindo tanto para o aprofundamento epistemológico das pesquisas sobre decolonialidade nas artes visuais brasileiras quanto para a construção de estratégias futuras de democratização do conhecimento no campo da arte. Ao propor uma reflexão sobre aquilo que permanece como potência criativa após a institucionalização do debate decolonial, a pesquisa reafirma a centralidade da experiência estética como espaço de elaboração crítica, imaginação política e transformação social.
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