Projeto de extensão, UFSB
Arquivo, encontros e curadoria do sagrado no CPDOC (Centro de Documentação Digital e Pesquisa Memórias do Sul da Bahia)
Descrição
Aprovamos no ano passado (2024) o projeto de Iniciação Cientifica (IC) intitulado “Diálogos de saberes e poéticas espirituais entre as casas de candomblé da Bahia”. Tal projeto potencializa narrativas sobre/com conhecimentos dos povos tradicionais balizadas nas práticas, poéticas espirituais, saberes e cosmovivências dos terreiros de candomblé da região de Porto Seguro (Trancoso) e da Ilha de Itaparica (Baia de Todos os Santos). A partir do projeto anterior ampliamos as ações e atividades para criar esta proposta de extensão. Como na pesquisa de IC a metodologia da proposta de extensão está ancorada numa perspectiva pluriepistêmica, inter e transdisciplinar com ênfase na produção compartilhada de conhecimento científico em co-autoria com povos de terreiro. Como já foi dito anteriormente, o projeto de iniciação científica espelha a proposta de extensão agora em elaboração, sobretudo diante da necessidade de ampliar o debate com a comunidade acadêmica, escolar e de terreiro. A proposta de extensão se alicerça no campo poético-conceitual entre os diálogos e as cosmovivências de/do terreiro, planejando fomentar vivências enquanto promotoras das pedagogias vivas presentes nos encontros e cerimonias religiosas. Além disso, o projeto fomenta a criação de metodologias de pesquisas para estudantes do PPGES da UFSB, das artes e outros interessados. Realizaremos um seminário e duas oficinas para o desenvolvimento de metodologias centradas na produção compartilhada de saberes tradicionais e em analises fotográficas dos terreiros Ilê Axé D’Omin (Trancoso), e o Oxossi (localizado na Aldeia Velha, na Estrada Arraial Trancoso). A proposta de extensão nos oportunizará desenvolver a curadoria de uma exposição fotográfica com dois terreiros em questão, calibrando nossos passos iniciais para organização de um acervo fotográfico dos povos de terreiro da região no CPDOC (Centro de Documentação Digital e Pesquisa Memórias do Sul da Bahia). Neste projeto de extensão, além dos terreiros, estabelecemos parceria com o Colégio Municipal Rita de Cassia Silva Santos, e com as professoras Naira Reinaga de Lima e Evelin Bianca Souza Oliveira, apostando na realização conjunta de oficinas com a comunidade escolar, acadêmica e povos de terreiro para criar uma memória material (arquivo e exposição) e simbólica consubstanciada em imagens, saberes e práticas religiosas dos terreiros envolvidos no projeto. Durante as oficinas problematizaremos os terreiros como um fenômeno político-religioso educador e antiracista. Este projeto promoverá encontros entre povos de terreiro, alunos e professores da educação básica investindo na desconstrução de ideias estereotipadas sobre o candomblé e na minimização de ações violentas resultantes da histórica intolerância religiosa impetrada contra as religiões de matrizes africanas. Denise Camargo, artista e educadora, nos ensina que as manifestações de tradição africana são exemplares para pensar a cultura brasileira, por manter vínculos evidentes com a África e ressaltar sua contribuição na formação do Brasil. No passado os terreiros de candomblé apresentaram alternativas para diluir as violências da escravidão através da linguagem e movimentos próprios, como a dança, o canto e o lúdico, elementos importantes na composição do tom sagrado-profano das religiões. Nas casas de candomblé se refaz o acesso da comunidade as suas próprias manifestações culturais e ao culto, recriando ou não, as divindades de sua terra de origem. O terreiro é então uma dimensão mais simbólica do que física por definir seus ocupantes e sua localização e por lhes conferir uma identidade ancorada "pela memória comum, reinstalada na vivência pessoal e coletiva" (Camargo, 2010, p. 21) Planejamos, inicialmente, dialogar com dois terreiros neste projeto de extensão: o Ilê Axé D’O mim (Trancoso), sob a liderança da mãe Augusta e o zelador Raul Bromberg e o Oxossi, sob a regência da mãe Ana de Oxossi (Aldeia Velha- Estrada Arraial Trancoso). A ialorixá Augusta de Assumpcão, contou que foi iniciada pelo babalorixa Sambaledecy (Pai Marcos DOxum ) em São Paulo. No retorno para Bahia, em 2014, se estabeleceu na comunidade Mirante do Rio Verde (Trancoso). O objetivo inicial de Mãe Augusta era encontrar um lugar para cuidar dos filhos e filhas. Neste ponto se refere aos filhos da família de santo, quis criar uma espécie de pronto socorro espiritual em Porto Seguro. Sua casa oferece atividades sagradas como jogo de búzios, limpeza espiritual, uma reza, um benzimento, um colo, uma palavra amiga; recolhe continuamente filhos de santo e participa de várias outras obrigações nas casas irmãos de santo, como os eventos e iniciativas de cidadania e garantia de direitos para o povo de santo. Encontramos poucos dados referentes aos terreiros da região, embora saibamos que estão espalhados pelo território: como o Unzo de Nkosi (terreiro de Ogum), liderado por Milton Junior de Magalhães; Ogum Beira Mar da mãe Geni de Ogum (Bairro do Japara-Zona Rura/Vale Verde); terreiro Unzo Muki Mutakalambó Njanji Tombensi (Aldeia Pataxó, Imbiriba); terreiro de Umbanda Ogum Beira Mar e Caboclo 7 flechas; liderado por Gilmaria Oliveira; Ile Axé reinado de um caçador, liderado por Eliomar de Logun (Cambolo); Ile Axé Caja D’Omim Orum, regida por Thales Oxoguiam (Teanes Silva de Araújo); Casa Ecumênica Pai José, liderada por Cesar, localizada no bairro Parque Ecológico. Os terreiros da região de Porto Seguro, e as casas de candomblé em geral, resguardam uma rica produção de fotografias e vídeos, nos possibilitando, a partir delas, problematizar o sentido das imagens das casas de candomblé do território. As fotografias e vídeos produzidos pelos filhos de santo, lideranças religiosas e visitantes das casas são materiais preciosos lidos sob a ótica da liturgia corpórea religiosa, da cultura, história e relações sociais. As teorias do candomblé e da fotografia, os saberes tradicionais locais são basilares no processo de interpretação das fotografias. O que está em jogo nas analises fotográficas são os sentidos de uma base territorial do “teatro da memória coletiva ancestral” (Sodré, 2022, p. 22), irradiada pelos corpos negros ou pelas inscrições simbólicas e ritualistas das casas de candomblé. De antemão tematizaríamos, nas analises dos vídeos e fotografias, a efeméride 2 de fevereiro (dia de Yemanjá). A Superintendência Municipal da Cultura de Porto Seguro, em 2021, criou o setor de culturas identitárias com a incumbência de catalogar um universo com cerca de 140 espaços de culto de matrizes africanas da umbanda e do candomblé. No dia 2 de fevereiro, dia de Yemanjá, acontecem cerimônias nas praias de Porto Seguro, Belmonte, Eunapolis, Trancoso e Arraial d’Ajuda, coordenadas pelos terreiros. A cerimonia de Arraial d’Ajuda é dirigida pela casa Ile Axé de Xapanã, na pessoa do babalorixá José Luiz, um terreiro localizado na estrada Sapirara (Trancoso).
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