Projeto de extensão, UFSJ
Psicanálise, política e instituições: a construção do caso clínico
Descrição
O programa de extensão universitária “Psicanálise, política e instituições: a construção do caso clínico” constitui uma ação formativa, clínica e social do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Integra ensino, pesquisa e extensão, consolidando-se como campo permanente de formação, supervisão e produção de conhecimento clínico-institucional comprometido com a ética da psicanálise e com as políticas públicas de saúde mental. Seu objetivo é articular, por meio da conversação clínica, da sessão clínica e da entrevista de pacientes, a construção do caso clínico e a elaboração de estratégias de cuidado voltadas a casos de difícil diagnóstico e manejo, que produzem impasses na direção do tratamento e nos modos de cuidado em rede. O programa parte da constatação de que, nas redes públicas de atenção psicossocial, as equipes enfrentam situações que desafiam os protocolos técnicos e os modelos normativos de diagnóstico, exigindo outro modo de escuta e elaboração: um modo capaz de ler o singular e construir hipóteses clínicas compartilhadas. Nessa direção, o programa ancora-se no método psicanalítico, entendido não como técnica, mas como ética da escuta e transmissão do caso. Desenvolve suas atividades no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA/DPSIC/UFSJ) e em parceria com o CAPS Del-Rei, a Unidade Básica de Saúde do bairro Pio XII, o Curso de Música da UFSJ e a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), em Barbacena. Essas parcerias ampliam o campo de interlocução entre universidade, território e políticas públicas, integrando ações de escuta, arte e pesquisa em uma prática interdisciplinar sustentada pela invenção simbólica. Fundamenta-se na metodologia em ato (Teixeira, 2010), que concebe o saber como efeito da transferência e das práticas em situação, em contraposição ao saber técnico e instituído. As atividades envolvem dispositivos clínicos — sessão, conversação e entrevista —, além de práticas institucionais como acolhimento de crise, visitas domiciliares, acompanhamento terapêutico, grupos operativos e oficinas artísticas. As oficinas de música, realizadas com o Curso de Música da UFSJ, constituem espaços privilegiados de expressão simbólica, onde som, ritmo e voz funcionam como mediadores entre o singular e o coletivo. Oficinas de escrita, culinária e corpo ampliam o campo do cuidado e o laço social. O programa articula também ações de supervisão institucional e formação continuada de profissionais da rede, fortalecendo a integração entre universidade e serviços públicos. Sua governança envolve coordenação geral, tutoria discente e comitê de acompanhamento com representantes do SPA, CAPS, UBS, FHEMIG e Curso de Música, assegurando gestão compartilhada e avaliação contínua. O impacto formativo é expressivo: os estudantes aprendem a sustentar uma posição ética de escuta, a operar em equipe e a reconhecer a dimensão política do ato clínico, tornando-se profissionais aptos a atuar em contextos de alta complexidade. O impacto científico também se destaca: o programa funciona como observatório clínico-institucional, produzindo estudos de caso, artigos e materiais técnicos, articulado às linhas de pesquisa sobre psicose ordinária, autismo e novos sintomas, consolidando a indissociabilidade entre extensão e pesquisa. Reconhecido pela PROEX/UFSJ com o Prêmio de Destaque na XXII SEMEX (2024) por sua coerência teórico-metodológica e impacto social, o programa tornou-se referência institucional e fomenta o Fórum de Saúde Mental, que articula setores das políticas públicas e elabora diretrizes ético-clínicas. Na dimensão cultural, promove oficinas abertas, apresentações artísticas e mostras integrando universidade, usuários e comunidade, reafirmando a arte e a palavra como vias de cidadania simbólica. O programa constitui um dispositivo estratégico de formação, pesquisa e cuidado, transformando impasses institucionais em experiências de criação e reafirmando a função pública da psicanálise como prática viva, ética e socialmente comprometida com o SUS e a singularidade de cada sujeito. As atividades no SPA, CAPS, UBS e FHEMIG são acompanhadas por supervisões e reuniões de estudo, nas quais estudantes e profissionais refletem sobre a prática e produzem conhecimento a partir da experiência. A metodologia em ato orienta a construção de saberes situados, sustentados pela transferência e pela escuta dos efeitos subjetivos que emergem nas instituições. O programa aposta que a universidade, ao abrir-se ao território, transforma-se e é transformada, recolhendo do campo social os impasses e invenções que compõem o real da clínica contemporânea. Os dispositivos clínicos funcionam como ferramentas de leitura e práticas de transmissão, produzindo efeitos formativos que ultrapassam a sala de aula. As conversações clínicas tornaram-se instrumentos centrais de mediação entre universidade e serviços, permitindo que equipes, usuários e discentes construam conjuntamente hipóteses e direções de tratamento. O acolhimento de crise é compreendido não como contenção, mas como oportunidade de reinscrição simbólica do sujeito no laço social. Visitas domiciliares e acompanhamento terapêutico asseguram continuidade do cuidado e presença simbólica do Outro no território. As oficinas terapêuticas tornaram-se campo de invenção simbólica: nelas, os usuários produzem sons, letras e performances que testemunham o poder da criação sobre o sofrimento. A articulação com o Curso de Música da UFSJ introduz dimensão estética e comunitária ao cuidado, reforçando a arte como vetor de inclusão. O impacto dessa experiência tem sido reconhecido por gestores e equipes, que adotam metodologias inspiradas no programa. A pesquisa avança com a sistematização dos materiais produzidos nas sessões e conversações, transformados em relatórios e artigos que fortalecem o diálogo entre clínica e ciência. O programa participa de eventos nacionais e internacionais de psicanálise e saúde mental, difundindo seus resultados e consolidando uma política de extensão que reconhece a psicanálise como saber aplicável às instituições públicas. No campo institucional, atua no Fórum de Extensão e no Fórum de Saúde Mental da UFSJ, contribuindo para a formulação de políticas internas e para a defesa da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. A articulação com a PROEX e o NUPEP ampliou bolsas e fortaleceu parcerias interdepartamentais, garantindo sustentabilidade às ações. No plano social, o programa media a relação entre universidade e território, participando de fóruns e conselhos de saúde, colaborando na elaboração de fluxos e protocolos clínicos baseados na ética da palavra. Ao propor uma escuta que não reduz o sintoma ao déficit, humaniza a prática e amplia o alcance da política pública. A cooperação com o CAPS e a FHEMIG consolidou o eixo hospital–território, garantindo transições éticas entre internação e comunidade; a parceria com as UBS fortaleceu o eixo da atenção básica com grupos de escuta e ações preventivas. O programa oferece ainda supervisões clínicas, seminários e materiais técnicos para profissionais da rede, mantendo produção constante de conhecimento, com relatórios de campo e publicações que alimentam as pesquisas do NUPEP e as linhas apoiadas por CNPq e CAPES. A psicanálise aplicada é compreendida não como doutrina, mas como método de leitura e intervenção: a cada caso, um novo saber se produz. Essa concepção sustenta o caráter inovador do programa, que inventa dispositivos conforme a necessidade, sem repetir modelos. O impacto formativo é amplo — os estudantes desenvolvem sensibilidade clínica, escrita analítica e compromisso ético-político — e muitos egressos seguem atuando no SUS, replicando a metodologia aprendida. Sustentado por bolsas PIBEX, apoio do Fundo de Extensão e parcerias institucionais, o programa mantém políticas de diversidade e acessibilidade, define protocolos de manejo de crise e consolida governança que assegura continuidade. As perspectivas para 2026–2028 incluem a ampliação das oficinas de música e arte, a criação de um núcleo permanente de formação e de um atlas clínico-institucional, fortalecendo a cooperação entre UFSJ, CAPS, UBS, FHEMIG e Curso de Música. O programa reafirma a função pública da psicanálise: sustentar o sujeito em sua diferença, abrir espaço para a palavra e transformar o sofrimento em criação e o impasse em saber. É nesse gesto que reside sua força ética e política — fazer da universidade um lugar de escuta, invenção e cidadania simbólica.
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