Projeto de pesquisa, UFRN
ENTRE O PASSADO E O FUTURO - ESTABILIDADE E INDETERMINAÇÃO NA PRÁTICA ENSAÍSTICA: USOS DO ENSAIO ACADÊMICO NAS OBRAS DE EVALDO CABRAL DE MELLO, RENATO ORTIZ E EDUARDO VIVEIROS DE CASTRO (1985-2025)
Descrição
Este projeto de pesquisa parte de algumas constatações estabelecidas a partir de investigações e mapeamentos realizados na última década, a partir da atuação nos âmbitos do ensino, da pesquisa, da extensão e da gestão junto ao Departamento de História e ao Programa de Pós-Graduação em História do Centro de Ensino Superior do Seridó (CERES/UFRN), em especial, junto ao Laboratório Sujeito Implicado – História, Ficção, Ação (UFRN/CNPq). Na condição de professor e pesquisador na subárea de Teoria da História e História da Historiografia, tive oportunidade de me dedicar ao esforço de observação das dinâmicas do campo do conhecimento histórico, em nível nacional, em particular, na referida subárea da história. O que se mostrou como evidência é o fato de que a história, como disciplina científica, tem passado por significativas transformações, seja no que diz respeito a aspectos teóricos e metodológicos, seja em sua fundamental interação com as dimensões educacional e pública, nas mais diversas sociedades. Neste sentido, importa destacar alguns elementos que decorrem da referida observação. Em primeiro lugar, é oportuno destacar, acompanhando as hipóteses dos historiadores Marcelo de Mello Rangel e Valdei Lopes de Araujo (Rangel, Araujo 2015; Rangel, 2019), que, nas últimas três décadas, aproximadamente, experimentamos, no trabalho com a historiografia, a prevalência do chamado “giro ético-político”. Resultante de uma série de discussões e de fenômenos que marcaram a segunda metade do século XX e as primeiras décadas deste século, a preocupação com as figurações do que viria a ser o historiador e a pertinência dos resultados de sua atuação nas esferas da pesquisa e do ensino, tornou-se patente. Já não se tratava mais de discutir a crise dos grandes paradigmas científicos ou a ascensão do chamado “giro linguístico” nas humanidades. O que se tornou fundamental, sobretudo, desde a década de 1990, na comunidade historiadora, foi compreender o quanto as temporalidades ditas históricas são disputadas política e socialmente e, ainda, estudar como essas mesmas temporalidades são afetadas pelas transformações registradas em cada conjuntura nos chamados usos do passado (Varella, Mollo, Pereira, Mata, 2012). Diante de escândalos envolvendo historiadores que publicaram obras que relativizavam os horrores do nazifascismo, sobretudo, na Europa das décadas de 1970 e 1980, ou dos desvios éticos e metodológicos de historiadores acusados de falsear fontes no intuito de controlar resultados de suas pesquisas, nos Estados Unidos, dos anos 2000, desafios ainda maiores se apresentavam e advinham dos usos comerciais do passado, nos mais diferentes meios (imprensa escrita, televisão, internet etc.) (Cardoso, 2021; Knauss, 2008; Nicolazzi, 2018). Os protocolos científicos do conhecimento histórico ora eram questionados, nas disputas pelo passado de temas sensíveis ou que envolviam movimentos sociais, ora eram ignorados em nome do direito de jornalistas ou grandes empresas oferecerem versões “alternativas” acerca da história do Brasil e de outras partes do mundo. O negacionismo, que já era um problema de monta, passou a disputar destaque, a partir da década de 2010, com a “pós-verdade” e com as fakes news (Meneses, 2021). O impacto das novas tecnologias, a rigor, circulantes em redes sociais e plataformas – como o Youtube, por exemplo –, que se popularizaram com os smartphones, afetou as formas de comunicação e contato com os passados históricos, nas mais variadas linguagens (escrita, audiovisual, imagética etc.). Depois da ampliação do mundo digital, a noção de operação historiográfica, fórmula clássica que nos foi oferecida pelo historiador francês Michel de Certeau, em meados dos anos 1970, teve de ser redimensionada. A comunidade profissional de historiadores, depois da instalação da crise permanente do capitalismo tardio, a partir de 2008, já não controlava a agenda historiográfica a partir da qual ela mesmo trabalhava. A discussão teórica acerca do que viriam a ser as verdades afirmadas sobre o passado tomou o ambiente multiconectado da internet, já dominado pelas chamadas big techs e a segurança, outrora garantida pelos arquivos e documentos físicos, bem como pelo método historiográfico, se viu ameaçada pelas perseguições de adeptos da extrema-direita ao pensamento crítico, em especial, no campo do ensino de história (Bonaldo, 2023). Assim, diante do que foi acima descrito, o giro ético-político, aparentemente, passou a estimular não mais a polarização, comum na década de 1990, entre historiadores marxistas e “pós-modernos”. Ou a contrapor a tradição da História Social às inovações de uma determinada História Cultural (dos Santos, 2019). As pautas que animavam debates intestinos à disciplina deram lugar à preocupação com a atuação pública daqueles que falam em nome da historiografia profissional, com os usos do passado exteriores à comunidade de historiadores, com as interações entre a história e a justiça, a democracia, os direitos humanos e, mais recentemente, entre a escrita da história e a crise climática, a partir de inovadoras leituras do humanismo, do antropocentrismo, do eurocentrismo e do capitalismo tardio (Ávila, Nicolazzi, Turin, 2019). Estudos e projetos voltados para as práticas de leitura da história se tornaram comuns. Estamos todos a tentar entender, nos moldes do que Paul Veyne e Hayden White (além do já citado Michel de Certeau e muitos outros), na década de 1970, indagavam, como se escreve a história e, principalmente, quem a escreve e sob que condições, em termos epistemológicos e ético-políticos, sem hierarquia entre essas bases. Valendo-se da sofisticação teórica que foi formulada e acumulada nos últimos sessenta anos, no mínimo, a presente investigação, demarcada neste projeto de pesquisa, pretende tematizar as formas de trabalho com as temporalidades históricas contemporâneas a partir do estudo de uma prática de escrita por vezes pouco valorizada no espaço universitário, embora permanentemente presente: o ensaio acadêmico (Avelar, 2025, p. 107). Frequentemente referido como uma invenção de Michel de Montaigne (1533-1592), o ensaio, a despeito de sua clareza metodológica menos evidente, ocupa um lugar proeminente na história da historiografia e da crítica sociológica e literária, no Brasil e em outros contextos universitários. Ensaios como os assinados por Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Antonio Candido, Darcy Ribeiro e Roberto Schwarz comprovam uma prática que ainda não foi, por exemplo, devidamente contraposta em termos de se propor uma leitura de confronto entre conjunturas político-institucionais e disciplinares mais alargadas e seus efeitos nas formas da escrita, em termos acadêmicos e/ou universitários. Ora, esta é, justamente, o ensejo deste projeto de pesquisa. Entre a ciência e a criação, o ensaio acadêmico incentiva o investimento no estudo teórico das relações entre a historiografia e os campos do político e do ficcional. Os arrojados resultados das pesquisas que se desenvolveram nas últimas décadas, como afirmado acima, contribuíram para que saíssemos de uma atitude dicotômica e simplificadora do que vêm a ser essas relações e, portanto, não seria exagero apontar que, atualmente, estamos mais preparados para levantar problemas de pesquisa sustentados no que mais necessitamos recuperar e que o ensaio acadêmico costuma resguardar: a cultura da formação de leitores/escritores e a atitude crítica perante o tempo em que vivemos (Lukács, 2018). O ensaio, seja histórico, sociológico/antropológico ou literário, pretende lidar com impasses do tempo presente da escrita, em suas interações com ideias sobre o passado e o futuro, que acabam por ser mais bem expostas a partir de uma narrativa que articula hipóteses interpretativas que resultam de uma erudição ou experiência prévia e imaginação narrativa de quem constrói um ensaio. Nesse horizonte, a pesquisa em tela pretende inquirir e comparar dois fenômenos que parecem se aproximar nessa perspectiva das relações entre demandas práticas de nosso presente imediato e gêneros narrativos (Ramalho, Ramires, Ferraz, 2018). A primeira etapa da investigação propõe o estudo aprofundado de parte das obras de três prolíficos e reconhecidos ensaístas brasileiros. O primeiro deles, autor de diversos ensaios históricos, é o diplomata e historiador Evaldo Cabral de Mello. Nascido em Recife/PE, em 20 de janeiro de 1936, é irmão do conhecido poeta João Cabral de Mello Neto (1920-1999), sendo este, autor do consagrado Morte e vida severina (1955). Evaldo Cabral de Mello, por sua vez, escreveu diversos livros, majoritariamente, tomando por recorte temático, temporal e espacial a história do Brasil holandês, do qual o atual estado de Pernambuco, local de sua naturalidade, foi palco principal. Entre os diversos títulos que assinou, destacam-se algumas obras de gênero ensaio histórico. São elas: O nome e o sangue: uma parábola familiar no Pernambuco colonial (1989), A ferida de Narciso. Ensaio de história regional (2001), Um imenso Portugal: história e historiografia (2002), A outra independência. O federalismo pernambucano de 1817 a 1824 (2004), Nassau, governador do Brasil holandês (2006), O bagaço da cana. Os engenhos de açúcar do Brasil holandês (2012) e A educação pela guerra. Leituras cruzadas da história colonial (2014). O segundo ensaísta, autor de inúmeros ensaios sociológicos publicados contemporaneamente aos estudos de Cabral de Mello, é o professor e pesquisador Renato José Pinto Ortiz. Nascido em Ribeirão Preto/SP, 20 de março de 1947, é professor titular do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Renato Ortiz é autor de importantes e diversificados ensaios de caráter sociológico. Os temas desenvolvidos, ao longo de, aproximadamente, cinco décadas de dedicação à pesquisa são muitos: religião, identidade, indústria cultural, mundialização, trabalho intelectual, mercado do luxo e influência. Alguns exemplos selecionados: Cultura brasileira e identidade nacional (1985), A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural (1988), Mundialização e cultura (1994), Um outro território: ensaios sobre a mundialização (1996), O próximo e o distante; Japão e modernidade-mundo (2000), Mundialização: saberes e crenças (2006), Universalismo e diversidade: contradições da modernidade-mundo (2015), Sobre o trabalho intelectual (2021) e Influência (2025). O terceiro e último ensaísta é o antropólogo e professor Eduardo Batalha Viveiros de Castro. Nascido no Rio de Janeiro, em 19 de abril de 1951, é pesquisador junto ao Museu Nacional e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A obra ensaística de Viveiros de Castro divide-se entre estudos voltados à etnologia e história indígena e ensaios de intervenção em questões políticas e ambientais mais recentes. Alguns exemplos selecionados para a presente proposta de investigação: A inconstância da alma selvagem (2002), A onça e a diferença (2005), Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins (2014), A Floresta de Cristal. Ensaios de Antropologia I (2024) e Os Involuntários da Pátria. Ensaios de Antropologia II (2025). Desse modo, ao tomar alguns ensaios (publicados entre 1985 e 2025) escritos por cada um dos ensaístas brasileiros contemporâneos supracitados – o historiador Evaldo Cabral de Mello, o sociólogo Renato Ortiz e o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro – a presente pesquisa pretende problematizar as relações entre os usos e as possibilidades deste gênero que é melhor definido como uma prática: o ensaio acadêmico (Charbel, 2024). A hipótese primária a ser explorada diz respeito ao argumento de que o ensaio, enquanto estilo de escrita e de vida acadêmicas, ao contrário do que se supõe, resulta tanto mais da estabilidade de quem escreve do que o contrário, como argumenta a ensaísta e pesquisadora Christy Wampole (2018, p. 242-249). Há um ponto de convergência entre o ensaísmo e certa autobiografia intelectual: o ensaio envolve ética, ele desnuda a autoria do sujeito de conhecimento – esta é a síntese da hipótese a ser trabalhada. Investigar o ensaio acadêmico é outra forma de se praticar história intelectual e dos intelectuais e de observar suas inserções institucionais e vida cotidiana de leituras, a partir de obras que são tomadas, no interior deste estudo, como fontes de natureza historiográfica (Giordano, 2017). Sendo assim, trata-se de uma investigação que se insere no âmbito da subárea de história da historiografia, que nasceu e se consolidou, no Brasil, a partir desta nomenclatura, há pouco mais de duas décadas.
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