Projeto de pesquisa, UFRN
“BENDITO E LOUVADO SEJA, AS PASSADAS DOS ROMEIROS”: HISTÓRIA DAS ROMARIAS NOS SERTÕES DO MUNDO CONTEMPORÂNEO
Descrição
Bendito e louvado seja As passadas dos romeiros Que recebem as santas bênçãos Na Matriz de Juazeiro Meu Padrinho subiu ao céu No ano de trinta e quatro Foi rogar pelos romeiros Ao Bom Jesus dos Passos Os romeiros de Meu Padrinho Todo ano vêm a Juazeiro Pedir graças a Mãe das Dores A protetora dos romeiros Quem visita o Juazeiro Leva Deus no coração E leva os milagres santos Da Virgem da Conceição Ofereço este bendito A Matriz do Juazeiro Pra rogar a Mãe das Dores Pelos seus fiéis romeiros (18 benditos, 1999, p. 3). Trago como epígrafe um dos famosos benditos cantado por romeiros que visitam anualmente a cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, tida por muitos como a meca sertaneja ou a Jerusalém dos sertões brasileiros. Trata-se da mais importante hierópolis do Nordeste brasileiro, que recebe continuamente levas de romeiros oriundos de todos os estados da região e que nas grandes romarias se transmuta no epicentro da devoção das camadas populares. O bendito, acionado como título deste projeto, discorre sobre as passadas dos romeiros em busca do lugar sagrado e das bênçãos que possam atenuar os dilemas da vida. É um canto sobre o deslocamento. É uma reflexão que tenciona os sujeitos históricos sacralizados e os espaços nos quais os milagres se tornam rotineiros. A longa jornada que atravessa os sertões referenda a necessidade basilar de busca da realidade mágica, do milagre, da cura, da sobrevivência. Nessa experiência romeira, o Padrinho Padre Cícero, que viveu entre os romeiros e que tanto tempo passou na matriz do Juazeiro, “subido ao céu”, passou a rogar aos santos a proteção dos devotos sertanejos. Assim, ele se tornou o intermediador do povo sofrido, de pés descalços e mãos calejadas. E a matriz do Juazeiro, espaço privilegiado dos milagres de outrora, se reafirma como lócus da imersão humana na realidade mística do sagrado, uma abertura capaz de unir a terra ao céu, os devotos aos santos, a enfermidade ao milagre da cura, a dura realidade à utopia por dias melhores. Como terra santa, o Juazeiro eclode como espaço no qual a piedosa visita permite o retorno aos lares providos de “milagres santos”. Cravado no sertão, o Juazeiro emerge como uma cidade celeste, um pedaço do paraíso na terra. Desse modo, as romarias constituem deslocamentos com finalidade devocional, em busca de um espaço sagrado, de uma experiência mística, no qual o próprio percurso trilhado se torna parte de um processo expiatório, de purificação ou preparação para o encontro com o sagrado. Essa realidade não é exclusiva de Juazeiro do Norte, cravada no Cariri cearense. Em grande parte das cidades-santuários é possível identificar aspectos que se aproximam dessas características. Em todo o Brasil encontramos manifestações religiosas católicas que explicitam o amplo envolvimento das camadas populares em busca do sagrado. Na leitura da geógrafa Zeny Rosendahl, esses núcleos urbanos com função religiosa podem ser lidos como hierópolis, “cidades sagradas” nas quais se torna possível “desvendar a ligação do sagrado na paisagem e reconhecer a existência de um sistema de relações entre o homem e a divindade” (ROSENDAHL, 1999, p. 7). A leitura da geógrafa brasileira enfatiza a relação instituída entre o espaço urbano e a sacralidade, com a emergência de santuários que estão situados em cidades de pequeno e médio porte, bem como, os santuários que no decorrer do período contemporâneo, a partir da centúria oitocentista, foram envoltos pela malha urbana dos grandes núcleos metropolitanos e passaram a compor a paisagem religiosa de algumas capitais. São casos exemplares os santuários de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará; São José do Ribamar, no Maranhão; Nossa Senhora da Penha, em João Pessoa, Paraíba; Nossa Senhora da Conceição do Morro, em Recife, Pernambuco; Senhor do Bomfim, em Salvador, Bahia; Bom Jesus dos Navegantes em Aracaju e Senhor dos Passos, em São Cristóvão, Sergipe; Nossa Senhora da Penha, em Vila Velha, Espírito Santo; Nossa Senhora da Penha, Rio de Janeiro; Bom Jesus dos Passos em Florianópolis, Santa Catarina e Nossa Senhora dos Navegantes, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Alguns desses santuários estão entre os mais conhecidos do país e se tornaram alvo de textos de divulgação turística e de pesquisas acadêmicas provenientes de diversas áreas, notadamente, a Antropologia, Geografia e História. Todavia, é necessário reconhecer que essas romarias realizadas em grandes centros urbanos constituem uma realidade excepcional e, até certo ponto, distante do que prevalece no cenário brasileiro e internacional. Em grande medida, as chamadas cidades-santuários nas quais é possível identificar o predomínio da função religiosa se encontram afastadas das grandes capitais. Grande parte dos santuários brasileiros, da América Latina e de países como Espanha, Portugal e Filipinas, se encontram afastadas das regiões metropolitanas. Um exemplo disso é a venerada imagem da Divina Pastora de Barquisimeto, no Estado de Lara, na Venezuela. A imagem está entronizada em um santuário no Pueblo de Santa Rosa, localizado nos arredores da grande cidade. Em grande medida, as hierópolis estão nas margens dos grandes centros populacionais e econômicos. É pautado nessa constatação que neste projeto busquei pensar as romarias no âmbito dos sertões do mundo contemporâneo. Parto de uma acepção ampla e polissêmica para pensar os sertões, nos quais galgam diferentes sentidos dentro de cada contexto temporal, espacial e cultural. Assim, tenho como escopo tanto as romarias dos sertões nordestinos, realizadas em cidades-santuários como Santa Cruz dos Milagres, Canindé, São Benedito, Juazeiro do Norte, Icó, Florânia, Carnaúba dos Dantas, Bodó, Encanto, Malta, Paudalho, São João, Traipu, Aparecida de Sergipe, Bom Jesus da Lapa e Ituaçu; quanto as dos sertões do cerrado, com Trindade e Muquém; os sertões paulistas, com Iguape, Tremembé, Pirapora, Perdões e Cana Verde ou os sertões amazônicos com Natividade. Em todos esses casos, os cronistas acabam remetendo esses espaços sagrados como sertões, o que já evidencia a necessidade de pensar os múltiplos sentidos de seus usos e os deslocamentos interpretativos acionados. Neste sentido, se torna necessário ir além de leituras restritivas atinentes ao sertão, que ora é operacionalizado como forma de designar espaços distantes e/ou desocupados, ora para remeter à condição de seca (STEIL, 1996, p. 24). Ao partir dessa concepção, neste projeto tenho o escopo de investigar as romarias realizadas nos sertões e espaços correlatos no mundo contemporâneo, ou seja, as múltiplas experiências entre os séculos XIX, XX e XXI. Esse recorte cronológico amplificado é em decorrência da necessidade de atender aos diferentes projetos de orientação, bem como a necessidade de mobilizar o deslocamento no jogo de escala, que em alguns momentos exige a observação por meio de uma longa duração, por vezes se torna necessário investir na compreensão de episódios mais restritos, situados em determinadas temporalidades. Apesar da pretensão de mobilizar um questionamento acerca do “mundo contemporâneo” como problema investigativo, se torna necessário registrar que grande parte do esforço acerca das romarias do tempo presente já foram desenvolvidas, em textos que investigaram as romarias de Aparecida e Santa Luzia (Sergipe), Nossa Senhora de Fátima de São Benedito (Ceará), além da análise acerca das romarias no mundo contemporâneo em tempos de pandemia, com o uso das redes sociais (SANTOS, 2020). Portanto, aqui proponho um projeto que já se encontra encaminhado nos âmbitos da heurística, hermenêutica e da própria síntese histórica. A preocupação perpassa em articular essas leituras na compreensão de projetos de nação e de projeções estaduais pautadas nos usos das assertivas sobre os sertões. Com isso, a proposta contempla não somente as romarias dos sertões brasileiros, mas também experiências oriundas de espaços sagrados situados em localidades correlatas aos sertões, como os santuários das ermidas de Nossa Senhora do Rocio, Nossa Senhora da Penha e Nossa Senhora de Montserrat na Espanha, a Divina Pastora de Barquisimeto na Venezuela, o Senhor Caído da Colômbia e o Nazareno Negro das Filipinas. Romarias que envolvem a dimensão multitudinária, dos chamados megaeventos, que neste caso, perpassam pelas mega procissões e que necessitam ser alvo da pesquisa histórica em perspectiva comparativa. Com isso, busca-se constituir um campo de pesquisa que possibilita ao PPGHC se tornar um centro de referência com inserção internacional nos estudos acerca das romarias dos sertões no mundo contemporâneo.
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