Projeto de pesquisa, UFRN
Integração de Microbioma Intestinal, DNA Tumoral Circulante e Inteligência Artificial para Predição Precoce de Metástases em Câncer Digestivo
Descrição
A progressão metastática representa o principal determinante de mortalidade em pacientes com câncer do trato digestivo, incluindo câncer colorretal, gástrico, pancreático e hepatobiliar. Apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento cirúrgico dessas neoplasias, uma proporção significativa de pacientes evolui com recorrência tumoral mesmo após ressecção considerada curativa. Esse padrão de evolução sugere que processos biológicos associados à disseminação metastática já estão presentes antes ou durante o tratamento inicial, porém permanecem indetectáveis pelos métodos diagnósticos convencionais. Nas últimas décadas, a oncologia tem avançado significativamente na identificação de biomarcadores moleculares capazes de melhorar a estratificação prognóstica dos pacientes. Entre esses biomarcadores, o DNA tumoral circulante (ctDNA) tem emergido como uma ferramenta promissora para monitoramento da doença residual mínima e detecção precoce de progressão tumoral. A presença de ctDNA no plasma após cirurgia com intenção curativa tem sido consistentemente associada a maior risco de recorrência metastática em diversos tipos de câncer digestivo. Paralelamente, avanços recentes na pesquisa sobre microbioma humano demonstraram que a composição das comunidades microbianas intestinais pode influenciar tanto a carcinogênese quanto a progressão tumoral. Determinadas bactérias presentes no intestino ou no microambiente tumoral podem modular processos biológicos relevantes para a evolução do câncer, incluindo inflamação crônica, modulação da resposta imunológica, metabolismo celular e interação com células tumorais. Evidências emergentes sugerem que o microbioma intestinal pode desempenhar papel relevante não apenas no desenvolvimento inicial do câncer, mas também na sua progressão metastática. A interação entre microrganismos, sistema imunológico e células tumorais pode favorecer a sobrevivência de células tumorais circulantes, facilitar a colonização de órgãos distantes e influenciar a resposta terapêutica. Apesar dessas descobertas, ainda existe uma lacuna importante na compreensão de como integrar informações provenientes de diferentes fontes biológicas para melhorar a capacidade de prever a evolução tumoral. A análise isolada de biomarcadores moleculares ou microbiológicos frequentemente não captura plenamente a complexidade biológica que governa a progressão do câncer. Nesse contexto, o desenvolvimento de ferramentas baseadas em inteligência artificial representa uma oportunidade única para integrar grandes volumes de dados clínicos, moleculares e microbiológicos. Algoritmos de aprendizado de máquina são capazes de identificar padrões complexos em conjuntos de dados multidimensionais, permitindo a construção de modelos preditivos mais precisos do que aqueles baseados em variáveis isoladas. A presente investigação propõe integrar três dimensões biológicas fundamentais na evolução do câncer digestivo: a presença de DNA tumoral circulante, a composição do microbioma intestinal e características clínicas dos pacientes. A hipótese central é que a combinação dessas informações, analisadas por meio de modelos de inteligência artificial, pode permitir a identificação precoce de pacientes com maior risco de desenvolver metástases após cirurgia curativa. Para testar essa hipótese, pacientes com câncer digestivo potencialmente ressecável serão acompanhados prospectivamente ao longo de seu tratamento e seguimento clínico. Amostras de sangue e fezes serão coletadas em diferentes momentos do acompanhamento para análise de ctDNA e caracterização metagenômica do microbioma intestinal. Esses dados serão integrados com informações clínicas detalhadas dos pacientes e analisados por meio de modelos computacionais capazes de identificar padrões associados ao risco de recorrência tumoral. O objetivo é desenvolver modelos preditivos capazes de identificar sinais precoces de programação metastática antes mesmo do aparecimento de lesões detectáveis por métodos de imagem. Caso a hipótese seja confirmada, os resultados poderão contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias de vigilância oncológica baseadas em biomarcadores moleculares e microbiológicos integrados. Essa abordagem poderá permitir intervenções terapêuticas mais precoces e personalizadas, aumentando as chances de controle da doença e melhorando os desfechos clínicos dos pacientes. Além disso, a investigação poderá ampliar significativamente a compreensão científica sobre a interação entre microbioma, evolução tumoral e disseminação metastática, contribuindo para o avanço do campo emergente da oncologia de sistemas, no qual múltiplos componentes biológicos são analisados de forma integrada. Dessa forma, o estudo propõe uma abordagem inovadora que combina biologia molecular, microbiologia, ciência de dados e cirurgia oncológica, representando um passo importante na transição para uma nova geração de estratégias de medicina de precisão em câncer digestivo.
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