Projeto de pesquisa, UFRN
Reprogramação Imunometabólica do Estresse Cirúrgico e Seu Impacto na Recorrência Metastática em Cânceres do Trato Digestivo
Descrição
A recorrência metastática permanece como a principal causa de mortalidade em pacientes submetidos à cirurgia curativa para neoplasias do trato digestivo. Apesar dos avanços significativos nas técnicas cirúrgicas, na oncologia médica e na caracterização molecular dos tumores, uma proporção substancial de pacientes com câncer colorretal, gástrico, pancreático e hepatobiliar desenvolve metástases à distância após tratamento cirúrgico aparentemente curativo. Esse fenômeno sugere que micrometástases subclínicas podem já estar presentes no momento da cirurgia ou que eventos biológicos relacionados ao próprio procedimento cirúrgico possam favorecer a ativação e expansão dessas células tumorais disseminadas. Nos últimos anos, evidências emergentes têm indicado que o estresse fisiológico associado ao trauma cirúrgico pode desencadear uma complexa cascata de alterações imunológicas e metabólicas sistêmicas capazes de modificar o microambiente tumoral e potencialmente influenciar a dinâmica da progressão metastática. O conceito de reprogramação imunometabólica tem ganhado destaque na oncologia contemporânea, ao reconhecer que o metabolismo celular e o funcionamento do sistema imune estão profundamente interconectados. Durante o período perioperatório, o organismo do paciente passa por uma resposta inflamatória sistêmica caracterizada pela liberação de citocinas pró-inflamatórias, ativação do eixo neuroendócrino do estresse e mobilização de células do sistema imune inato. Esse processo fisiológico, fundamental para a cicatrização e recuperação tecidual, pode simultaneamente induzir estados transitórios de imunossupressão, redução da atividade citotóxica de células NK e expansão de populações celulares imunorreguladoras. Essas alterações podem comprometer a vigilância imunológica antitumoral, criando uma janela biológica durante a qual células tumorais residuais ou disseminadas podem proliferar e estabelecer novos focos metastáticos. Paralelamente às alterações imunológicas, o estresse cirúrgico também desencadeia profundas modificações metabólicas sistêmicas. O aumento da gliconeogênese, a mobilização de ácidos graxos livres, a resistência transitória à insulina e o aumento da disponibilidade de nutrientes circulantes podem criar um ambiente metabólico favorável à sobrevivência e expansão de células tumorais. Além disso, mediadores inflamatórios como interleucina-6 (IL-6), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e fatores pró-angiogênicos como VEGF podem estimular a remodelação vascular e a angiogênese em tecidos distantes, contribuindo para o estabelecimento de nichos metastáticos. Esses processos indicam que o período perioperatório pode representar uma fase crítica na história natural da progressão tumoral. A integração entre imunologia, metabolismo e biologia tumoral constitui atualmente uma das áreas mais promissoras da oncologia translacional. O conceito de imunometabolismo descreve como vias metabólicas específicas regulam o comportamento funcional de células imunes e tumorais. Alterações metabólicas sistêmicas podem modular a atividade de linfócitos T, macrófagos e células dendríticas, influenciando diretamente a capacidade do organismo de reconhecer e eliminar células malignas. No contexto cirúrgico, essas alterações podem impactar tanto a resposta inflamatória quanto a capacidade de vigilância imunológica, com implicações diretas para o risco de recorrência tumoral. Embora diversos estudos tenham investigado individualmente a resposta inflamatória ao trauma cirúrgico ou a biologia das metástases tumorais, poucos trabalhos integraram essas dimensões dentro de um mesmo modelo conceitual. Ainda são escassas as investigações que avaliem simultaneamente biomarcadores inflamatórios, metabólicos e moleculares no período perioperatório, correlacionando esses parâmetros com o risco subsequente de recorrência metastática. Essa lacuna científica representa uma oportunidade relevante para o desenvolvimento de novos modelos de compreensão da progressão tumoral após cirurgia oncológica. Nesse contexto, torna-se fundamental investigar de forma sistemática como a resposta imunometabólica desencadeada pelo trauma cirúrgico pode influenciar o microambiente sistêmico e favorecer a ativação de células tumorais residuais. A identificação de assinaturas biológicas específicas associadas ao risco de recorrência poderia permitir o desenvolvimento de estratégias terapêuticas direcionadas ao período perioperatório. Intervenções farmacológicas, imunomoduladoras ou metabólicas poderiam ser aplicadas de forma estratégica para reduzir o potencial pró-metastático associado à resposta inflamatória cirúrgica. Adicionalmente, o avanço das tecnologias de biópsia líquida e análise molecular permite atualmente monitorar a presença de DNA tumoral circulante, citocinas inflamatórias e mediadores metabólicos de forma minimamente invasiva. Esses biomarcadores podem fornecer informações dinâmicas sobre a carga tumoral residual e sobre o estado imunológico sistêmico do paciente. A combinação dessas abordagens com dados clínicos e cirúrgicos abre novas perspectivas para o desenvolvimento de modelos preditivos de recorrência tumoral baseados em medicina de precisão. O presente projeto propõe investigar de forma integrada a reprogramação imunometabólica induzida pelo estresse cirúrgico em pacientes submetidos à cirurgia oncológica para tumores do trato digestivo. A pesquisa buscará caracterizar alterações inflamatórias, metabólicas e moleculares ocorridas no período perioperatório e analisar sua associação com o desenvolvimento subsequente de recorrência metastática. A abordagem multidimensional proposta permitirá explorar interações complexas entre resposta inflamatória, metabolismo sistêmico e biologia tumoral. Ao integrar conceitos de cirurgia oncológica, imunologia tumoral, metabolismo celular e medicina de precisão, este estudo pretende contribuir para uma compreensão mais profunda dos mecanismos que conectam o trauma cirúrgico à progressão metastática. Os resultados esperados poderão fornecer novas bases científicas para estratégias de intervenção perioperatória destinadas a reduzir o risco de recorrência tumoral, melhorar os resultados oncológicos de longo prazo e ampliar a eficácia da cirurgia como tratamento curativo. Assim, o projeto posiciona-se na interseção entre ciência básica e prática clínica, explorando uma dimensão ainda pouco compreendida da oncologia cirúrgica moderna. Ao investigar a influência do estresse cirúrgico sobre a programação imunometabólica sistêmica, a pesquisa pretende avançar na identificação de novos biomarcadores prognósticos e potenciais alvos terapêuticos, contribuindo para o desenvolvimento de abordagens mais personalizadas e biologicamente fundamentadas no tratamento do câncer digestivo.
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