Projeto de pesquisa, UFRN
O golpe de 1964 e a ditadura militar em seus entornos e representações passados e presentes: as memórias divergentes e suas posições históricas no desfecho do golpe interrompido no 8 de janeiro de 2023.
Descrição
A pesquisa se propõe a construir uma orientação histórica para esta temporalidade recente. Não se trata apenas de revisitar os grandes eventos que marcaram conjunturas já estudadas ao longo de mais de sessenta anos, mas também de considerar o novo conjunto de fontes que emergiu nos últimos anos, trazendo versões controversas em confronto direto com o conhecimento acumulado sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar. A reabilitação de discursos negacionistas não foi espontânea: tratou-se de obra planejada por setores interessados em fragilizar a democracia, conquistar o poder e nele permanecer. Para isso, recorreram a narrativas enganosas, dirigidas sobretudo a setores populares fragilizados pela exclusão produzida pelo modelo neoliberal. Tais narrativas se multiplicaram em formatos diversos, difundidas abundantemente nas plataformas digitais, com imagens e frases explícitas que disputaram sentidos sobre fatos decisivos da nossa história recente. O trabalho volta-se especialmente para os impactos militantes desse passado em seus usos cotidianos na política. Essas representações circularam na imprensa e nas redes sociais, produzindo sentidos muitas vezes divergentes e confusos. Foram também o desaguadouro de frustrações diante de uma democracia incapaz de romper com a desigualdade estrutural. O passado fragmentado tornou-se arma de desinformação, obscurecendo a cena pública com objetivos políticos calculados, mirando um futuro em que até a própria democracia seria posta em questão. São fontes conhecidas, exaustivamente usadas na mobilização política, e que, pelo desfecho que ajudaram a compor, assumem relevância central na explicação do processo histórico — que é, em última instância, a função própria da história. Passados mais de dez anos das jornadas de junho de 2013, o projeto busca pistas e caminhos metodológicos para interpretar aqueles eventos complexos. No início, reivindicavam mais direitos e liberdades, numa “explosão da diversidade” das múltiplas cores que emergiam da mobilidade social das classes trabalhadoras. Ao final, porém, transformaram-se em movimentos difusos, apropriados por pautas conservadoras e negacionistas, numa reedição do velho verde-amarelismo que ressurge ciclicamente na história republicana — quase sempre como reação a políticas públicas de inclusão que ameaçam privilégios e permitem mobilidade a grupos subalternizados. A historiografia sobre o golpe de 1964 e a ditadura militar no Brasil já produziu um vasto acúmulo de interpretações. Mesmo assim, esse passado retorna de forma insistente, disputando espaços de memória e de política. A cada nova conjuntura, reabre-se a pergunta sobre o que significaram o golpe e a ditadura — e, sobretudo, como tais significados são atualizados no presente. Não se trata apenas de resgatar documentos ou de registrar lembranças: trata-se de compreender como esse passado se mantém vivo, sendo manipulado, negado ou reivindicado. A ditadura não terminou em um ponto fechado; deixou fios soltos que atravessaram a redemocratização, alcançaram a transição neoliberal e reaparecem com força nos debates de hoje. Esse retorno do passado não se dá como repetição mecânica, mas como uso estratégico. A cada crise política, a memória de 1964 e da ditadura ressurge como arma: para uns, como ameaça e advertência; para outros, como exemplo a ser celebrado e até retomado. Por isso, o golpe e a ditadura são mais que objetos históricos distantes: são referências ativas, que ainda orientam e dividem a cena pública brasileira. O desafio é pensar o tempo presente. E, para isso, é inevitável dialogar com as reflexões de Reinhart Koselleck, que mostrou como a modernidade reorganizou a experiência histórica: o presente tornou-se o ponto de tensão entre o que já foi vivido (espaço de experiência) e o que ainda não chegou (horizonte de expectativa). A aceleração do tempo moderno abriu um futuro inédito, incerto, que não podia mais ser deduzido do passado. François Hartog retoma esse quadro, mas aponta que, desde o fim do século XX, vivemos outra configuração: o presentismo. Já não é apenas a tensão entre passado e futuro que define o presente, mas a sua própria hipertrofia. O presente se alonga, ocupa o centro, engole o passado em forma de memória e o futuro em forma de ameaça ou colapso. Assim, a história deixa de ser horizonte de novidade para se tornar peso e repetição — e o presente se transforma em um tempo quase absoluto. Pensar a história recente do Brasil sob essa chave significa lidar com um presente saturado de passado, onde memórias da ditadura e do golpe de 1964 são mobilizadas incessantemente. É um campo de disputa no qual não se busca apenas recordar, mas reescrever os sentidos do passado em função das urgências de hoje. No Brasil, esse presentismo se manifesta de forma aguda. O golpe parlamentar de 2016, a ascensão de um governo abertamente autoritário em 2018 e a explosão golpista de 8 de janeiro de 2023 mostram como o passado continua sendo convocado como arma política. A memória de 1964 reaparece como justificativa, como modelo e até como promessa. O resultado é uma temporalidade em que o passado não cessa de retornar, sempre reconfigurado, sempre mobilizado para corroer a legitimidade da democracia. Nesse cenário, a história recente se torna um terreno de disputa permanente. Não é apenas objeto de pesquisa, mas elemento constitutivo da luta política. A cada crise, somos lançados novamente à tarefa de interpretar os fios soltos do passado, confrontar versões que buscam negá-lo e reafirmar a centralidade da democracia como horizonte possível. O desafio do historiador, então, não é apenas narrar o que aconteceu, mas interrogar o modo como o presente se constrói sobre essas memórias conflitantes. Entre os fantasmas de 1964 e as urgências de 2023, a história não é um inventário neutro de fatos: é um campo de batalha, onde se joga o próprio sentido do tempo em que vivemos.
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