Projeto de pesquisa, UFRN
Retração de escarpas costeiras e riscos
Descrição
Nas últimas duas décadas a aceleração do processo de erosão marinha, intensificação no uso e ocupação nas bordas de falésias e faixas de praias, tem resultado no aumento de riscos, ocorrência de desastres com perda de vidas, danos à infraestrutura pública, privada e degradação de pontos turísticos (AMARO et al., 2015; AMORIM et al., 2021; MATOS et al. 2022). No Brasil, a tragédia ocorrida em novembro de 2020 na Praia da Pipa, município de Tibau do Sul-RN, quando uma família faleceu após ser atingida pelo desmoronamento de parte da falésia, chamou atenção para um problema que já vem sendo monitorado em outras partes do mundo, tais como as falésias de Holderness (Yorkshire - Inglaterra), Encinitas (norte de San Diego, California - EUA), Moher (Irlanda), Ilha de Capri (Golfo de Nápoles - Itália), Praia Maria Luiza (Portugal). Com as mudanças climáticas e impactos no curto prazo na orla marítima, especialmente para áreas de falésias, verifica-se um agravamento nos problemas gerados pela erosão, especialmente no que diz respeito ao risco de desastre em áreas com intenso fluxo turístico. Segundo as projeções mais recente do Intergovernmental Panel Climate Change (IPCC), no 6º Relatório de Avaliação do Grupo de Trabalho I, lançado em 9 de agosto de 2021, são projetadas elevações do nível do oceano para a costa do RN de 0,10 m até o ano de 2030.É necessário destacar que com o nível médio do mar atual, na costa potiguar, já ocorrem intensos processos erosivos em falésias, processo que vem se intensificando nos últimos 20 anos, conforme chama atenção dos trabalhos de VITAL, 2003; FRANCO, et al., 2012; AMARO et al,. 2014; SANTOS et al., 2014; CÂMARA, et al., 2019; AMARO et al,. 2021; MATOS, et al., 2020; AMORIM et al., 2021; MATOS, et al., 2022. Quando acopladas às projeções de elevação do nível médio do mar em 10 cm até 2030, a tendência é uma maior intensificação no recuo das escarpas marinhas, ampliando a possibilidade de desastres. A erosão marinha tem levado os municípios costeiros a decretarem estado de emergência e calamidade pública, como forma de acessar - rapidamente - recursos do governo federal para obras de contenção, especialmente enrocamento e reconstrução de infraestrutura. Contudo, essas algumas dessas obras estão sendo executadas sem a correta mensuração do balanço de sedimentos na faixa de praia, e seus padrões erosivos, com caráter apenas paliativo, entregando pouca eficácia no médio e longo prazo. Como consequência, tais intervenções estão ampliando os problemas de erosão, uma vez que não foram dimensionadas para as características da hidrodinâmica local, regional e suas variações. Naturalmente a paisagem litorânea é um ambiente instável, com elevada intensidade no reafeiçoamento das formas de relevo. Essa condição de instabilidade é o que gera morfologias como as falésias, que por sua vez atraem turistas em busca da beleza natural. O principal atrativo para os turistas é a paisagem, com praias de areias claras, águas mornas e abrigadas (devido à formação de baias e ocorrência de arenito de praia). No RN, o setor turístico é responsável pela geração de milhares de empregos, além de promover a arrecadação de milhões de reais em impostos todos os meses. Contudo, esse contexto tem resultado no aumento da frequência de acidentes em áreas de falésias (AMORIM et al., 2021). O litoral do estado do Rio Grande do Norte (RN) tem 475 km de extensão, formado por praias arenosas, estuários e 43,9 km de falésias ativas. As escarpas costeiras, conhecidas como falésias, constituem feições geomorfológicas abruptas, com inclinação superior a 40º, na transição oceano-continente, ocorrendo em todo o planeta. O processo erosivo que atua no reafeiçoamento das falésias ameaça a segurança pública, as infraestruturas costeiras (estradas, linhas de transmissão de energia, propriedades públicas e privadas), entre outros; ao mesmo tempo, essa dinâmica fornece sedimentos para a manutenção do balanço sedimentar nas praias arenosas, gerando grandes desafios à gestão das orlas marítimas. Localizadas em 13 municípios, as escarpas costeiras do RN apresentam ampla diversidade de morfologias e beleza cênica, um ativo ambiental, que atrai milhões de turistas todo ano, gerando emprego e renda. Estimativas feitas com base em reuniões com empresários do setor turístico, apontam que apenas as paisagens formadas pelas falésias geram cerca de 150 milhões de reais em receita anual para o setor do turismo no estado. Contudo, em função da ampliação do uso dessas áreas e por estarem cada vez mais ocupadas, o risco de desastre vem aumentando progressivamente. O objetivo é realizar pesquisa técnico-científica para monitorar parâmetros morfodinâmicos: erosão em falésias e praias defrontantes, ocupação do solo; estabelecer as faixas de riscos, considerando as tipologias uso nas bordas de escarpas, em áreas de falésias ativas do Distrito de Pipa, município de Tibau do Sul, Rio Grande do Norte, com foco na redução dos riscos, prevenção de desastres e suporte às tomadas de decisão. Para atingir os objetivos propostos será empregado um conjunto de métodos e técnicas para coleta de dados primários, envolvendo levantamentos aerofotogramétricos para mapeamento de uso do solo, hidrodinâmica costeira voltada à compreensão da ação erosiva das ondas nas falésias, descrição estratigráfica dos sedimentos que afloram nas escarpas e levantamentos de dados de gestão. O projeto será desenvolvido ancorado em uma abordagem multi proxy, que permitirá uma análise refinada e de forma dinâmica das áreas estudadas.
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