Projeto de pesquisa, UFRN
DIÁSPORAS: corpo, memória e processos de criação nas artes da cena
Descrição
O presente projeto de pesquisa, intitulado Diásporas: corpo, memória e processos de criação nas artes da cena, propõe investigar as relações entre experiências diaspóricas, memória, ancestralidade e processos de criação artística, tomando o corpo como território central de produção de conhecimento, elaboração estética e construção coletiva da existência. Situada na interface entre artes da cena, estudos da performance, antropologia do corpo, epistemologias negras e pensamento contracolonial, a pesquisa parte do entendimento de que os processos de criação artística não podem ser dissociados das experiências históricas, políticas e existenciais que atravessam os corpos, especialmente aqueles marcados pelas diásporas africanas, indígenas e afro-ameríndias e pelos processos coloniais de racialização, epistemicídio e desumanização que constituíram a modernidade ocidental. Nesse sentido, a diáspora será compreendida não apenas enquanto deslocamento geográfico ou dispersão populacional, mas como condição histórica, ontológica, estética e política. Trata-se de reconhecer que os corpos diaspóricos carregam inscrições históricas, saberes ancestrais, tecnologias de sobrevivência, memórias coletivas e formas próprias de criação que permanecem vivas apesar das violências produzidas pela colonialidade moderna. A diáspora constitui, portanto, não apenas ruptura e trauma, mas também reinvenção, continuidade civilizatória e elaboração coletiva da existência. Tal perspectiva dialoga diretamente com as contribuições de Cheikh Anta Diop ([1959] 2014) acerca da unidade cultural africana. Ao discutir a permanência de fundamentos civilizatórios africanos para além da dispersão colonial, Diop demonstra que as experiências afro-diaspóricas não podem ser reduzidas à lógica da fragmentação absoluta, uma vez que determinados princípios cosmológicos, éticos, relacionais, corporais e estéticos permaneceram atravessando os povos negros nas Américas. Dessa forma, musicalidades, oralidades, ritualidades, corporeidades e práticas performativas afro-diaspóricas são compreendidas nesta pesquisa como permanências históricas de sistemas culturais e epistemológicos continuamente reelaborados nos contextos diaspóricos. Ao mesmo tempo, o projeto parte da compreensão de que a modernidade colonial instituiu regimes de racialização responsáveis por produzir profundas hierarquias ontológicas e epistemológicas que atravessam os campos artísticos, acadêmicos e institucionais. Fanon ([1952] 2008), ao analisar os efeitos da colonialidade sobre os sujeitos negros, demonstra que o corpo negro foi historicamente produzido como corpo permanentemente observado, suspeito e deslocado da universalidade humana. A experiência racializada transforma o corpo em território de vigilância, inferiorização e controle, produzindo aquilo que o autor compreende como inferioridade epidérmica. Em diálogo com Fanon, Sueli Carneiro ([2005] 2023), ao formular o conceito de dispositivo de racialidade, demonstra que a modernidade operou por meio da “construção do outro como não-ser como fundamento do ser”, instituindo regimes de desumanização responsáveis por definir quais sujeitos seriam reconhecidos como plenamente humanos, civilizados e intelectualmente legítimos. Segundo a autora, o epistemicídio constitui um dos mecanismos centrais desse dispositivo, operando não apenas pelo apagamento de conhecimentos produzidos por sujeitos racializados, mas também pela própria negação das condições de reconhecimento desses sujeitos enquanto produtores legítimos de saber. Tal discussão possui profundas implicações para o campo das artes da cena. Historicamente, os regimes modernos de representação universalizaram corporalidades, sensibilidades e matrizes estéticas brancas e eurocentradas, enquanto corpos negros, indígenas, quilombolas e periféricos foram frequentemente reduzidos à condição de exotização, hipersexualização, folclorização ou marginalidade representacional. Nesse contexto, as artes da cena tornam-se espaços fundamentais de disputa acerca de quais corpos podem ocupar o centro da representação estética, quais experiências podem representar o humano universal e quais epistemologias podem ser reconhecidas como produtoras legítimas de conhecimento. O presente projeto parte da compreensão de que práticas corporais, performativas e artísticas negras, indígenas e quilombolas foram historicamente deslegitimadas enquanto formas complexas de elaboração intelectual, sendo frequentemente deslocadas para o campo da “tradição”, da “cultura popular” ou da “expressão espontânea”. Em contraposição a essa lógica, esta pesquisa compreende o corpo como arquivo vivo de memória, ancestralidade e elaboração epistemológica, reconhecendo que os processos de criação nas artes da cena constituem também formas legítimas de produção teórica e construção de conhecimento situado. A noção de corpo-arquivo torna-se, assim, central para esta investigação. Dialogando com Leda Maria Martins ([1997] 2021), Diana Taylor ([2003] 2013), Grada Kilomba ([2008] 2019) e Beatriz Nascimento ([1980] 2018), o projeto entende que memória, oralidade, performance, ritualidade e corporeidade constituem formas incorporadas de transmissão de conhecimento, permitindo que experiências históricas, afetos e ancestralidades permaneçam vivos através dos corpos e das práticas coletivas de criação. O corpo, nessa perspectiva, não é apenas suporte da experiência, mas território de inscrição histórica, campo de atualização da memória coletiva e espaço de reinvenção da existência. A pesquisa dialoga profundamente com as contribuições do Teatro Experimental do Negro (TEN), idealizado por Abdias Nascimento em 1944, compreendendo-o como uma das experiências mais importantes de reorganização estética, política e epistemológica da população negra brasileira no século XX. Mais do que um grupo teatral, o TEN constituiu um espaço de enfrentamento ao racismo estrutural, de afirmação da dignidade negra e de elaboração coletiva de humanidade, tensionando os regimes coloniais de representação que historicamente relegaram sujeitos negros à caricatura, à subalternidade e à invisibilidade cênica. Segundo Nascimento et al. (2024), o Teatro Experimental do Negro constituiu uma experiência estética, política e pedagógica fundamental para a reorganização da presença negra nas artes brasileiras. evidenciam que o teatro negro brasileiro não pode ser compreendido apenas como expressão artística identitária, mas como prática político-pedagógica de elaboração da memória, reorganização subjetiva e produção coletiva de conhecimento. Tal perspectiva articula-se diretamente ao conceito de quilombismo elaborado por Abdias Nascimento ([1980] 2019), compreendido nesta pesquisa como projeto político, ético, epistemológico e civilizatório fundado em princípios de coletividade, ancestralidade, autonomia e produção comunitária da existência. O projeto aproxima-se ainda das formulações contracoloniais de Antônio Bispo dos Santos ([2015] 2023), especialmente a partir dos conceitos de cosmofobia e confluência. Segundo o autor, a colonialidade moderna opera por meio de uma lógica cosmofóbica marcada pela tentativa de destruir, controlar ou domesticar modos plurais de existência que escapam aos paradigmas da racionalidade ocidental moderna. Em contraposição, a noção de confluência permite compreender os encontros entre corpos, memórias, ancestralidades e territorialidades não como homogeneização, mas como coexistência dinâmica de diferenças que permanecem em relação. Nessa direção, o projeto compreende os processos de criação nas artes da cena como territórios de confluência, nos quais diferentes experiências diaspóricas, corporalidades racializadas, ritualidades, espiritualidades, narrativas urbanas e memórias ancestrais coexistem e produzem novas formas de presença, criação e elaboração coletiva da existência. A pesquisa também incorpora as contribuições de Thulho Cezar Santos de Siqueira (2019), especialmente a partir do conceito de figuras emersivas, desenvolvido em suas investigações sobre teatro ritual, estesia e improvisação emersiva. Segundo o autor, as figuras emersivas correspondem às imagens corporais, simbólicas e sensíveis que emergem da experiência vivida e da imersão dos sujeitos nos processos ritualísticos e performativos. Mais do que personagens previamente definidos, tais figuras constituem expressões corporificadas de memória, sensação, imaginação e ancestralidade organizadas poeticamente pelos próprios atuantes. Essa perspectiva contribui significativamente para a pesquisa ao permitir compreender os processos de criação nas artes da cena como práticas em que memória, corporeidade, imaginação e ancestralidade emergem de maneira relacional e compartilhada, produzindo dramaturgias corporais que ultrapassam as separações modernas entre corpo e pensamento, arte e teoria, experiência e conhecimento. Além disso, o projeto dialoga criticamente com os debates contemporâneos acerca da produção do conhecimento nas Ciências Sociais e nas artes. Luena Nascimento Nunes Pereira ([2020] 2020), ao problematizar a naturalização do “nós antropológico”, evidencia que a ideia de neutralidade acadêmica frequentemente universalizou perspectivas racializadas de poder, mantendo sujeitos negros, indígenas e periféricos no lugar de objeto de investigação e não de produtores autorizados de teoria. Tal reflexão é decisiva para esta pesquisa, uma vez que o projeto compreende os processos de criação artística como formas legítimas de elaboração epistemológica. Investigar corpo, memória e diáspora nas artes da cena implica também problematizar quem pode produzir conhecimento, quais corpos são reconhecidos como intelectualmente legítimos e quais experiências permanecem tratadas como periféricas nos espaços acadêmicos e institucionais. Metodologicamente, o projeto estrutura-se a partir de uma abordagem qualitativa, interdisciplinar e experimental, articulando pesquisa-criação, práticas laboratoriais, escrevivência, investigação bibliográfica, registros sensíveis e produção artística. A pesquisa compreende a experiência como lugar legítimo de produção de conhecimento, reconhecendo o corpo não apenas como objeto, mas também como método de investigação. Os procedimentos metodológicos incluem laboratórios de criação, práticas corporais, improvisações cênicas, rodas de conversa, diários sensíveis, registros audiovisuais e experimentações performativas, articulando investigação teórica e criação artística de maneira indissociável. Os processos investigativos serão acompanhados por meio de registros escritos, imagéticos e audiovisuais, permitindo a sistematização das experiências e a elaboração de reflexões teórico-práticas acerca das relações entre diáspora, memória, ancestralidade e criação nas artes da cena. O desenvolvimento da pesquisa está organizado em uma estrutura trienal composta por três etapas interdependentes. No primeiro ano, será constituído um grupo de estudos voltado às investigações sobre diáspora, corpo, ancestralidade, memória e processos de criação, articulando leituras, discussões e práticas laboratoriais. Paralelamente, serão desenvolvidos laboratórios de criação que culminarão na construção de uma proposta cênica fundamentada nas experiências diaspóricas e em suas memórias corporificadas. No segundo ano, dar-se-á continuidade ao aprofundamento teórico e metodológico da pesquisa, ampliando os processos laboratoriais e consolidando a criação artística desenvolvida no primeiro ano. O espetáculo será colocado em circulação, estabelecendo diálogos com diferentes públicos, territórios e contextos socioculturais. Também serão sistematizados os registros produzidos ao longo da pesquisa, resultando na elaboração de artigos científicos, materiais audiovisuais e outros formatos de difusão do conhecimento. No terceiro ano, o projeto volta-se para sua ampliação e consolidação institucional, com a realização de uma conferência que reúna pesquisadores negros, artistas da cena, mestres e mestras de saberes tradicionais, estudantes e integrantes de movimentos sociais, constituindo um espaço de partilha, escuta e produção coletiva de conhecimento. Nesse mesmo período, será formalizado o grupo de pesquisa junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), consolidando institucionalmente o percurso desenvolvido ao longo dos três anos. Como resultados, espera-se produzir implicações teórico-práticas, registros audiovisuais, criações artísticas, artigos científicos e metodologias de pesquisa-criação que evidenciem as diásporas e suas memórias como potência de reinvenção estética, política e existencial. Pretende-se também contribuir para o fortalecimento de perspectivas contracoloniais nas artes da cena, para a valorização de epistemologias negras, indígenas e quilombolas e para a consolidação do corpo como campo legítimo de produção de conhecimento.
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