Projeto de pesquisa, UFRN
TRANSIÇÃO ENERGÉTICA, MINERAIS CRÍTICOS E DESENVOLVIMENTO REGIONAL: DESAFIOS E POTENCIALIDADES DO BRASIL E DO NORDESTE BRASILEIRO NA NOVA GEOPOLÍTICA DA ENERGIA.
Descrição
O debate global sobre a crise climática se baseia nas evidências científicas publicadas nos relatórios do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), na Conferência do Clima de Paris (Yergin, 2023) e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), os quais têm procurado defender a necessidade de transição para um sistema energético sustentável (Aghahosseini, et. al., 2019), e capaz de promover o bem-estar humano, independentemente da localização geográfica desses seres humanos (Löfquist, 2020). Assim, da necessidade de oferecer respostas energéticas apropriadas aos desafios ambientais contemporâneos, associadas às oportunidades de desenvolvimento regional decorrentes da expansão das energias renováveis, emerge a preocupação com os caminhos da transição para uma economia de baixo carbono (Yergin, 2023). No entanto, informações da IEA (2022) destacam que essa transformação não depende apenas da ampliação da geração de eletricidade por fontes renováveis modernas, como a eólica e a solar fotovoltaica, mas também da disponibilidade de minerais críticos necessários à produção de turbinas, painéis solares, baterias e sistemas de armazenamento energético. Isso porque, de acordo com a análise da IEA (2022), lítio, níquel, cobalto, manganês e grafite são cruciais para o desempenho, a longevidade e a densidade de energia das baterias. Já os elementos de terras raras são essenciais para ímãs permanentes, vitais para turbinas eólicas e motores de veículos elétricos, enquanto as redes elétricas precisam de uma enorme quantidade de cobre e alumínio, sendo o cobre um elemento fundamental para todas as tecnologias relacionadas à eletricidade. Dessa forma, compreender a revolução energética em curso exige analisar simultaneamente as mudanças na matriz energética, a reorganização espacial das atividades produtivas e a crescente importância dos recursos minerais estratégicos. Tal perspectiva abre novas possibilidades para regiões que concentram potencial de geração de energia elétrica por fonte renovável e reservas minerais estratégicas, como parte do Nordeste brasileiro, ao mesmo tempo em que suscita desafios relacionados à sustentabilidade ambiental, à governança territorial e à capacidade de converter essas vantagens em processos duradouros de desenvolvimento local e regional. No caso da governança, Saleem et al. (2025) destacam que a atual governança global é insuficiente para garantir a continuidade desse suprimento de minerais críticos de forma sustentável. Porém, no nível local, esta problemática é ainda mais significativa em razão da necessidade de garantir a soberania nacional dos recursos minerais que estabelecem a realização de uma transição energética global a partir do acesso aos recursos localizados no Sul Global. Conforme Bezerra et al. (2025), é imprescindível estabelecer modelos de governança que reforcem a soberania na exploração e comercialização de minérios, garantindo a segurança energética e geopolítica, além de fomentar a criação de projeções de demanda e oferta até 2050, que possam direcionar políticas públicas e estratégias empresariais em um contexto de transição energética acelerada. Existe um desafio que é intergeracional, ou seja, a “recuperação e transição para a economia de energia limpa no futuro” (Ayres; Ayres, 2012, p. 1), o que envolve a possibilidade de desenvolver um padrão de desenvolvimento reprodutível para as próximas gerações (Montenegro; Carvalho, 2017). Ao defender a ideia de transição energética rumo ao desenvolvimento sustentável, Gumucio (2018) ressalta que uma das formas de atingir esse objetivo é avançar com a transição energética nas suas diversas formas de introdução das energias renováveis. Contudo, segundo o autor citado, este tipo de energia – mais do que a energia convencional – atua localmente, tem impacto e envolve as comunidades locais muito mais do que o tipo de regime energético em grande escala, que é característico da energia convencional herdada do século XX. Sendo assim, Gumucio (2018) afirma que os processos de transição para as energias limpas no nível local têm uma especificidade própria, precisamente porque são marcados pelas trajetórias socioprodutivas, históricas e socioculturais da localidade (identidades e tradições locais), bem como pelos padrões e regimes sociotécnicos anteriores, quadros institucionais, jurídicos e administrativos subnacionais e nacionais. Isso se soma à crescente necessidade dos recursos naturais, como vento e sol, mas também ao acesso aos minerais estratégicos, que estão localizados no território, o que vem provocando, segundo Attílio et al. (2026), uma reconfiguração da geopolítica internacional da energia, deslocando parte da centralidade histórica dos combustíveis fósseis para o controle das cadeias produtivas minerais. Nesse contexto, o Brasil emerge como um dos países com maior potencial mineral estratégico do mundo. “Tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, lidera o ranking global de nióbio e figura entre os primeiros em grafita e níquel” (CONTEE, 2026). A crescente valorização desses recursos tem transformado o Brasil como um dos grandes players mundiais de produção mineral, principalmente no que se refere ao nióbio, ferro, vanádio, bauxita, dentre outros, apesar da dependência externa de outros bens minerais, sobretudo, vinculados a fertilizantes, carvão mineral e alguns dos minerais necessários à transição energética (Santos, 2023). Simultaneamente, a área já detém uma posição estratégica na geração de energias renováveis, sobretudo no que se refere à energia eólica e solar. Assim, a região Nordeste adquire condições para colaborar com o Brasil em seu processo de transição energética, descarbonização e produção sustentável de alimentos (Bezerra, 2025). Todavia, a ampliação da mineração direcionada à transição energética também levanta inquietações acerca dos impactos socioambientais, dos conflitos territoriais, da dependência tecnológica externa e da continuidade de modelos extrativistas que historicamente marcaram a economia latino-americana. A pesquisa conduzida por Attílio et al. (2026) evidenciou que a China persegue a liderança global por meio da expansão da eletrificação. Com a finalidade de atingir tal objetivo, ela exerce influência sobre o consumo, a produção de minerais essenciais e a transição energética em outros países, evidenciando conexões entre a China e diversas nações, especialmente por meio do canal do risco geopolítico. Nesse contexto, é imprescindível examinar de que maneira o Brasil, especialmente a região Nordeste, pode integrar-se à nova economia dos minerais críticos, convertendo vantagens geológicas em estratégias voltadas para o desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico.
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